A Hiena entre os Coelhos
Certa manhã, depois de uma noite de tempestade, uma população de coelhos encontrou, junto à margem de um rio, uma pequena hiena quase sem vida. Estava magra, ferida e tremia de frio.
— É uma hiena! — gritou um coelho. — Devemos fugir!
— É apenas um filhote — respondeu a velha coelha. — Se o deixarmos aqui, morrerá.
— Mas quando crescer, poderá nos matar.
A velha coelha olhou para o pequeno animal e suspirou.
— Talvez. Mas hoje ele precisa de nós.
E assim levaram a hiena para a toca onde viviam. Deram-lhe folhas, raízes e frutos. Dividiram com ela o pouco que tinham. Ensinaram-na a conhecer os caminhos da floresta e a respeitar os limites das tocas.
A hiena cresceu entre os coelhos.
Aprendeu suas brincadeiras, seus hábitos e até algumas de suas palavras.
— Você é uma de nós — dizia um jovem coelho.
A hiena sorria.
— Eu gostaria de ser.
Mas havia dentro dela alguma coisa que os coelhos não conseguiam ensinar a desaparecer.
Certa noite, enquanto todos dormiam, um coelho passou correndo diante dela.
A hiena saltou.
Por um instante, seus dentes estavam cerrados sobre o pescoço do amigo.
Então ela recuou, horrorizada.
— O que eu estou fazendo?
O coelho fugiu assustado.
No dia seguinte, a hiena reuniu a comunidade.
— Eu não quero machucar vocês.
— Então não machuque — respondeu um dos coelhos.
— Eu tento.
— Então continue tentando.
E ela continuou.
Durante muito tempo, conseguiu controlar os próprios impulsos. Mas quanto mais crescia, mais difícil se tornava.
O cheiro de sangue despertava nela uma fome que não compreendia. O movimento rápido de um coelho fazia seus músculos se prepararem para a perseguição. Às vezes, acordava durante a noite com os dentes doloridos de tanto apertá-los.
Certa tarde, encontrou um filhote sozinho.
A fome falou antes dela.
Ela avançou.
Parou a poucos centímetros.
— Corra — sussurrou.
O pequeno coelho correu.
Naquela noite, a hiena chorou diante da velha coelha.
— Eu amo vocês.
— Nós sabemos.
— Então por que dentro de mim existe algo que quer destruí-los?
A velha coelha não respondeu.
A hiena abaixou a cabeça.
— O bem que eu quero, eu não faço. Mas o mal que eu não quero, às vezes, é justamente aquilo que minhas patas querem fazer.
Os anos passaram.
Os coelhos começaram a ter medo dela.
Não porque ela fosse cruel, mas porque sabiam que havia uma fronteira dentro dela que podia ser atravessada num instante.
Certa manhã, depois de um novo episódio em que quase atacou um dos filhotes, a hiena tomou uma decisão.
Reuniu todos diante da entrada da toca.
— Vocês me deram uma vida quando eu deveria ter morrido.
— E você faz parte da nossa família — respondeu um coelho.
Ela balançou a cabeça.
— Justamente por isso preciso partir.
— Para onde?
— Para longe de vocês.
— Mas você ficará sozinha.
— Talvez seja melhor que somente eu sofra com aquilo que existe dentro de mim.
A velha coelha chorou.
— Você não precisa ir.
A hiena olhou para ela.
— Preciso.
E caminhou para dentro da floresta.
Encontrou uma caverna distante, entre pedras onde ninguém vivia.
Ali se isolou.
No primeiro dia, tentou resistir.
No segundo, ainda esperou que a fome passasse.
No terceiro, encontrou uma pequena entrada por onde poderia sair para caçar.
Mas não saiu.
— Se eu matar para viver — murmurou —, alguém que amo poderá morrer.
E permaneceu dentro da caverna.
Os dias se transformaram em semanas.
A hiena emagreceu. Seu corpo enfraqueceu, mas ela continuou recusando-se a voltar à floresta.
Certa noite, olhando para a lua através da entrada da caverna, lembrou-se dos coelhos que a haviam criado.
— Eu queria ser boa — sussurrou. — Mas querer não foi suficiente.
Na manhã seguinte, os coelhos encontraram suas pegadas diante da caverna.
Não encontraram a hiena.
Ela havia morrido sozinha, vencida pela fome.
A velha coelha permaneceu diante da entrada durante muito tempo.
— Ela nos amava — disse um jovem coelho.
A velha coelha respondeu:
— Eu sei.
— Então por que morreu?
A velha olhou para a floresta.
— Porque às vezes amar alguém não significa conseguir vencer aquilo que existe dentro de nós.
E, desde aquele dia, os coelhos ensinaram aos filhotes uma lição que jamais esqueceram:
O desejo de fazer o bem é uma escolha; o instinto é uma força. E quando não aprendemos a governar aquilo que carregamos dentro de nós, até mesmo o amor pode se transformar em uma luta que não conseguimos vencer.