Trezentos anos sem um irmão voltar e ninguém ali parece admirado. O Vlad entra a bater com a bengala como se tivesse saído ontem.
Manuscrito das três faces
Pensamento
Trezentos anos sem um irmão voltar e ninguém ali parece admirado. O Vlad entra a bater com a bengala como se tivesse saído ontem.
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Reunião familiar (1)
— Profundo, insondável... precede o próprio conceito de existência. É o abrir — ou entreabrir-se — de um caminho para a fenda presente nas raízes mais profundas de nossas mentes. Um abismo formado no âmago das trevas, ganhando peso e significado através das mais brutais e venenosas emoções tecidas no coração humano.
— Uau, irmão! Suas palavras tornaram-se ainda mais tocantes com o passar das eras.
— Kekeke… Pequenas palavras rasas de um entusiasta dos segredos vindo do longo véu das estrelas.
— Francamente... continua preso a tais pensamentos, meu querido irmão? — O desagrado era visível na voz de Sama ao repreendê-lo. — Sua forma de ver o mundo é, no fim, o que o impede de ir além e alcançar a pena incumbida a nós.
— Sama, você sabe que, diferente dos meus irmãos, eu não quero mais...
— Eu sei como você é! Mas, ainda assim... Como membros do clã Anunnaki, nosso castigo e dever...
— Já chega dessa conversa, irmão! Não quero quebrar o único laço de irmandade de verdade que me resta. Mas diga-me: você sabe o motivo desta convocação? O Pai precisa de nossa ajuda contra o avanço do Rei da Noite?
— Impossível. As chances de isso ocorrer são mínimas.
— Algum palpite sobre o que seria?
— O retorno de um novo irmão pode ser um dos motivos, mas... ah, esqueça! A última vez que um irmão retornou foi quando Nêmesis despertou.
— E isso ocorreu há trezentos anos. É impossível, não é, Sama? Ou... pode ser por causa dele. Acho que você pensou a mesma coisa.
— Rá! Sim... ele.
— Estão falando de quem?! — Uma voz grave ecoou ao adentrarem a pequena igreja decrépita.
Um belo rapaz de pele pálida e olhos escuros, trajando um longo manto negro com entalhes dourados, caminhava calmamente até eles. O bater Ritmado da ponta de sua bengala no chão de pedra liberava sua presença maliciosal.
— Como sempre, trazendo uma presença maliciosa e destrutiva — comentou um deles.
— Sua natureza destrutiva está ainda pior do que eu lembrava... Kekeke!
— Se não baixar essa aura neste instante, meu punho afundará na sua cara, Vlad! — alertou Sama, levantando a voz e cerrando os punhos em aviso.
— Calma! Para que tanta agressividade, Sama? Hahaha! Ai, ai... francamente, não importa quanto tempo passe, você sempre será o cara fechado e carrancudo de sempre. Só sabe falar de responsabilidades... nunca troca o disco?
— Tagarela como sempre, Vlad. Por que não nos diz você o motivo desta convocação?
— Hã? Por que meu irmão, meu igual, está me crucificando dessa forma? Até parece que sou um amontoado de problemas sem fim!
— Talvez o motivo disso seja a queda de alguns de nossos irmãos provocada por você no passado.
— Viver para destruir ou viver para satisfazer o que nos falta? O que acha, irmão Vlad?
— Hmm... vejo que os outros chegaram.
Sob a linha do horizonte, incontestáveis figuras humanoides caminhavam em direção à igreja.
Thoughts
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PermalinkMudei de lado a meio do texto. Ao princípio o Vlad era o problema da reunião, pela bengala e pela aura que o Sama manda baixar. Depois reparei que é o único dos três que não finge saber o motivo da convocação: desvia com uma piada e olha para o horizonte. Quem se irrita tanto com o tagarela costuma ser quem tem mais medo do que ele vai dizer.
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PermalinkMinha mãe ficou do lado de Vlad quando ouviu essa reunião, disse que quem só fala de dever é quem mais esconde. Eu fiquei com Sama. Paramos nas figuras no horizonte e ela quer saber amanhã quem chegou.
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PermalinkO Vlad é o meu, claro.
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PermalinkMenino, esses três se picando na porta da igreja me fez pensar em briga de irmão em dia de velório, um cutuca, o outro devolve, e o resto esperando pra ver quem cai primeiro. O Vlad rindo no meio é quem eu vigiava.
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PermalinkTrezentos anos sem um irmão voltar e ninguém ali parece admirado. O Vlad entra a bater com a bengala como se tivesse saído ontem.
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PermalinkIsso aqui eu entregava na mão do Jefferson, que passa aqui toda manhã e só lê coisa de demônio e irmão amaldiçoado. Tu já tem na cabeça o que o Pai quer com essa convocação?
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PermalinkNa minha cabeça a igreja decrépita ficou no meio de um pasto seco, e as figuras chegando pela linha do horizonte levantando poeira. Fiquei olhando o irmão que diz que não quer mais nada disso e mesmo assim foi à convocação. Quem já quis sair e continua aparecendo é quem eu acompanho numa história.
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PermalinkO irmão do Kekeke, o que fala de segredos e de estrelas, deve ser quem acaba mandando nessa história, aposto que o Pai chamou todo mundo por causa dele. Me fez pensar em reunião de família onde quem menos fala é quem mais sabe. Isso tem cara de série, vou adicionar a um par de grupos aqui!
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PermalinkFiquei do lado de Sama desde a hora em que ele cerra os punhos. Aposto que é ele quem vai pagar pelo que Vlad fez aos outros irmãos.
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