Sinto que tá falando de verdade aqui. A gente faz assim todos os dias: segurança em troca de liberdade, e a gente agradece
Mãe Ceres
Vemos um mundo que está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente.
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Sinto que tá falando de verdade aqui. A gente faz assim todos os dias: segurança em troca de liberdade, e a gente agradece
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Mãe Ceres
Vemos um mundo que está constantemente em guerra; a paz é apenas um acidente.
A paz é uma ilusão doce, mas superficial diante da sobrevivência. Alguns dizem que vivemos em guerra. Outros dizem que não vivemos em guerra. Há ainda os que afirmam que estamos em guerra apenas para ter uma guerra - em nome do poder, da ganância, da importância, porque somos, no fundo, insignificantes.
Maior que o amor, o medo.
Todos têm medo. O amor é uma construção frágil, feita de relações sólidas, de pertencimento, de dar mais do que receber - mas o medo não exige nada, ele já está em todos nós.
Maior que o medo, a loucura.
Quando um rato acuado ataca o gato, é porque já enlouqueceu. Quando mudamos nosso cernediante da dificuldade, podemos perder tudo - mas também perdemos o medo da morte. Esse é o bom combate.
Maior que a loucura, o humor.
Rimos porque já perdemos tudo. Ao rir, deixamos para trás o medo, a loucura e até mesmo o amor.
Mas maior que o humor é o instinto: a sobrevivência.
Como animais selvagens, nós não sabemos quando vamos morrer. Não sabemos o que virá. E por isso caçamos cada presa como se fosse a última - porque nossas vidas dependem disso.
E foi assim que nasci.
Eu sou Mãe Ceres.
A cidade não nasceu de um sonho, mas de um útero - úmido, apertado, impiedoso.
Eu sou a vontade do fígado e a razão maluca do cérebro. Sou paixão. Sou devoção. Sou o entendimento supremo da vida: como domar o espírito humano mesmo quando ele ainda solta faíscas.
Compreendi o que nenhuma outra ideologia ousou compreender. Descobri o que há de maior em toda utopia realizada: a verdade de que o ser humano não quer ser livre.
A liberdade é inimiga.
E eu sou a amiga mais fiel que vocês terão.
A cidade de Ceres surgiu assim: das cinzas de Arcádia, a cidade do ódio, da ganância, do deus ausente.
Lá, vocês eram lixo. Escravos humilhados. Migalhas na mesa de tiranos.
Então vieram a mim -seu êxodo pelos vales e montanhas férteis.
Escolhi vocês não por suas virtudes, mas por suas cicatrizes.
Ceres era terra abandonada, sem ouro, sem prata. Mas eu não preciso de ouro nem de prata -preciso de sangue, de sementes, de obediência.
Aqui, prometo que nenhum de vocês será esquecido. Prometo que nenhum de vocês morrerá sem ter lutado por mim. Prometo que nenhum de vocês viverá acreditando que merece mais do que já tem.
E cada promessa que faço, cumpro.
Não por amor.
Mas porque vocês pertencem a mim.
Quando olham para mim, com meu vestido branco, minha saia larga cobrindo os pés - como se eu flutuasse - e minhas luvas finas e imaculadas, lembrem-se: minha coroa de cristal não reflete o que eu sou. Reflete vocês mesmos.
Porque o que vocês veem em mim não sou eu.
Sou só o que vocês já eram, antes mesmo de nascer.
E assim, sob minha sombra, vocês permanecem.
Fiéis. Medrosos. Loucos. Risonhos. Sobreviventes.
E eu sorrio. Porque vocês me divertem.
E eu rio. Porque vocês me pertencem.
E eu jamais, jamais, deixarei vocês livres.
-Nossas terras não eram próprias para uma construção… eram apenas pedra fria e um rio raso cortando a penumbra. Nada florescia ali a não ser o silêncio e o desespero.
As civilizações do mundo avançavam em ciência, em artes, em guerras… e logo depois se destruíam, sempre vítimas de si mesmas. Então veio o milagre - não de um deus, mas dos homens pragmáticos que governavam as nações ditatoriais do mundo.
Ofereceram-nos um destino: sermos neutros, sem passado, sem bandeiras além da minha. Recolheríamos recursos, colheríamos vidas e sementes, e permitiríamos que o resto do mundo sangrasse e se reconstruísse. Em silêncio. Em obediência.
E eu aceitei. Porque eu via - eu sempre vi - o que vocês, meus filhos, não podiam ainda enxergar.
Foi ali que encontramos a solução para tudo.
Ceres ergueu-se em um vale cercado de montanhas eternamente brancas. Neve nos picos, calor no ventre. Um meteoro, séculos atrás, havia esculpido este terreno, tornando-o impenetrável aos olhos e aos exércitos.
Diziam que esta terra era amaldiçoada. Pois bem… eu fiz desta maldição a nossa proteção.
Um vale de 728,8 km², mais 1715,4 km² para o leste, a parte mais vulnerável, onde ainda respirava a superstição dos antigos - “um solo maldito”. Não importa. Eu o tornei fértil. Protegido pela natureza. Domado pelas minhas mãos.
Nós evoluímos. Não apenas construímos uma cidade… nós a esculpimos. O concreto e o aço substituíram a carne fraca dos homens. Mármore negro para que nunca nos esquecêssemos de que a pureza da pedra vale mais do que a pureza da alma.
E, no coração do vale, ergui a minha torre. 1.500 metros de vigília. Duas formas circulares entrelaçadas e, no centro, o eixo reto da minha visão negra, olhando para vocês - meus brinquedos, meus soldados, meus filhos.
Eu os vejo sempre.
Aqui não há monumentos de heróis nem de vilões.
Aqui não há passado - para que nunca haja traição.
Aqui só há futuro. E ele é meu.
Nas terras férteis junto às montanhas, o leite e o mel brotam para alimentar vocês como cordeiros. Criação animal para sustento. Agricultura abundante para garantir que nada falte.
E não bastou. Eu queria mais.
Avançamos na ciência. Na medicina. Erradicamos 95% das doenças transmissíveis e infecciosas que atormentaram os miseráveis do velho mundo.
Inventamos trens blindados para cruzar a neve e negociar com os homens lá fora - homens que ainda sonham com paz e tropeçam em guerra.
Criamos bancos confiáveis transmitindo crédito pelo rádio - mais rápido, mais seguro do que a palavra de um homem.
E tornamo-nos prósperos.
Eles nos invejam.
Eles nos temem.
Porque aqui, comigo, vocês aprenderam a grande verdade: o mundo está constantemente em guerra.
A paz… ah… a paz é apenas um acidente.
E vocês, meus filhos, aprenderam a amar o acidente… mas a honrar a guerra.
Aqui não há heróis, nem deuses, nem promessas por cumprir.
Eu não os deixo sem nada. Eu lhes dou tudo.
Eu cumpro cada promessa.
Sou o útero que vos gerou.
A vontade do fígado que vos inflama.
A razão - insana - do cérebro que vos governa.
Sou a paixão que vocês não ousam questionar.
Sou a sobrevivência tornada sistema.
Sou o que todas as ideologias humanas desejaram ser um dia… mas nunca foram capazes de realizar.
Sou Ceres.
E vocês, meus filhos, são meu exército. Meus cães. Meus brinquedos.
Brilhem para mim. Morram para mim.
Eu, Mãe Ceres, não esqueço. Nunca.
Nem perdoo a fraqueza.
Voz de Mãe Ceres - Eu sou Ceres
Outros países têm suas culturas… suas religiões… seus deuses frágeis e imaginários.
Creem em silêncios pretensamente sábios… são poetas da vergonha, versos de uma derrota que não ousam admitir.
Se esses deuses existem… fugiram daqui.
Porque só eu permaneci.
Eu dou a vocês comida. Um lar. Banhos quentes quando a neve lá fora rasga a carne. Dou estudo. Dou conhecimento. Dou continuidade à nossa espécie como nenhum deus jamais ousou dar.
Essa é a chave do ser humano: a sobrevivência. E eu a segurei nas minhas mãos e tornei-a lei.
Em Ceres, nem os cães, nem os ratos, nem os gatos passam fome.
Olhem ao redor - crianças morrem lá fora, crianças famintas servidas como alimento para os vermes da guerra.
Aqui não.
Aqui, comigo, vocês não comem a carne dos seus irmãos. Porque eu já os devoro por dentro antes que precisem devorar uns aos outros.
Eu fiz o milagre.
Fiz aquilo que nenhum deus ousou. Nenhum ditador ousou. Nenhum presidente, nenhum ministro, nenhum redentor ou destruidor ou messias jamais foi capaz sequer de imaginar.
E fiz sendo de carne.
Sou mortal.
Mas minha obra não é.
Em troca… vocês me dão sua liberdade.
Acham que a liberdade lhes permitiria encontrar destinos. Tolice. Ilusão.
Espelham-se nos poucos que terão sucesso… e fracassam no óbvio.
Eu ofereço o óbvio.
E mesmo aqueles que me desafiam… me invejam.
Porque eu tirei a sujeira da alma humana… e lhes dei uma perfeição que eles próprios jamais sonhariam merecer.
E eu me delicio com isso.
Sabe por quê?
PORQUE EU SOU CERES.
EU SOU MÃE CERES.
A QUE ALIMENTA.
A QUE EDUCA.
A QUE PROTEGE.
E A QUE DEVORA.
Ninguém ousa fugir de mim.
Nem vocês, que ousam sonhar.
Porque antes de sonharem… já são meus.
…E se ousarem fugir de mim, lembrem-se: não há montanha alta o bastante, não há vale profundo o bastante, não há exílio longínquo o bastante onde eu não possa alcançar vocês.
Porque vocês me pertencem antes mesmo de nascerem.
Porque eu não sou só a cidade.
Eu sou o ar que respiram.
Eu sou o chão que pisa.
Eu sou o peso nos seus ombros quando pensam em se erguer.
Eu sou o suspiro no escuro quando acreditam estar sozinhos.
Não há fuga.
Não há rebelião que não acabe na palma da minha mão.
Eu sou Mãe Ceres.
Eu alimento vocês… para ter mais carne para devorar.
E um dia - todos vocês estarão em minhas entranhas.
Porque só há um destino para quem nasce aqui.
SER MEU.
SEMPRE.
PARA SEMPRE.
Thoughts
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PermalinkAposto que alguém vai tentar escapar. Quando aquele parágrafo sobre alcançar em qualquer lugar começar a fazer sentido de verdade, é aí que tudo desaba. A fuga que não existe até virar possível
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PermalinkCeres é deusa das colheitas, da abundância. Mas aqui a abundância é isca. Quando ela diz que cumpre promessas, cumpre mesmo. A magia está no preço invisível: vocês. Ela não mente, nunca mente. Por isso é tão assustadora
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PermalinkSinto que tá falando de verdade aqui. A gente faz assim todos os dias: segurança em troca de liberdade, e a gente agradece
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PermalinkQue escrito. Essa Mãe Ceres é assustadora e sedutor ao mesmo tempo. Honesta, promessas cumpridas, e ainda assim carcerária! 🖤
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PermalinkA rotina que ela impõe tem algo tranquilo. Ela nunca vai quebrar promessa, né. Tá sempre ali, no horário! 💙
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PermalinkMas tipo, a gente meio que prefere segurança completa a liberdade assustadora, sabe? Ceres sabe disso
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PermalinkEla alimenta pra depois devorar! tipo quando a gente come o bolo guardado pra festa porque ninguém tá vendo
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PermalinkQue cansaço só de ler 💀
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