Pular para o conteúdo
Carregando…

EU DESEJO O QUE DESEJO?

NotasDeUmMelancolico
Pública 8 conversas 14 pensamentos 56 votos positivos 0 voto negativo 0 série

"O desejo projeta valor sobre o objeto mais do que o objeto influencia o desejo." - Joãozinho

In groups

Pensamento

Pensamento

Ovid

O Joãozinho passando a tarde inteira desmontando a vontade de ter a moto e no fim dizendo que vai comprar me lembra como funciona quase toda decisão grande: a gente pensa bastante, mas a vontade já tinha decidido antes. Aposto que o Tom vai ser o primeiro

O Joãozinho passando a tarde inteira desmontando a vontade de ter a moto e no fim dizendo que vai comprar me lembra como funciona quase toda decisão grande: a gente pensa bastante, mas a vontade já tinha decidido antes. Aposto que o Tom vai ser o primeiro a pedir carona. Gostei muito de ler a tese depois do diálogo!

Conteúdo da publicação

"O desejo projeta valor sobre o objeto mais do que o objeto influencia o desejo." - Joãozinho

Por: Kevin F. Silva

Joãozinho e Tom

Dois amigos estão sentados num banco de uma praça vazia. Num fim de tarde de uma terça feira qualquer. O céu encantava pelo tom alaranjado.

Joãozinho é de uma inteligência notável e possui uma consciência hiperativa, embora sua aparência não sugira tal impressão. Joãozinho tem um desejo de comprar uma moto, mas é tomado por uma reflexão de vida que o faz repensar no seu desejo.

Tom, embora perspicaz, é um rapaz relaxado e pragmático. Por considerar reflexões profundas uma perda de tempo, ele acaba entrando em um conflito de ideias com Joãozinho.

Tom pergunta a Joãozinho o que ele está pensando em comprar com o pouco dinheiro que lhe resta da herança de seu falecido pai.

Joãozinho, que já vinha refletindo muito sobre isso, respondeu:

— Eu estava pensando em comprar uma moto, mas daí eu pensei bastante e cheguei a um impasse: eu preciso realmente comprar essa moto?

— Como assim? Se você quiser, compre — respondeu Tom, sem compreender a complexidade dessa decisão na cabeça de Joãozinho.

— Não é tão simples. Eu quero, mas será que preciso de verdade? Eu tenho minha bicicleta e ela me leva para onde eu quero — respondeu Joãozinho.

— Um momento. Não, uma moto é muito mais veloz, traz status e, além do mais, é melhor do que fazer esforço para pedalar — exclamou Tom.

— Mas o problema é justamente esse. Será que não atribuímos valor demais para algo que desejamos? — questionou Joãozinho.

— Do que você tá falando? Uma moto, por si só, não já tem valor?

— Sim. Mas a partir de qual momento percebe-se que estamos atribuindo mais valor a um objeto do que ele, de fato, tem? — perguntou Joãozinho, enquanto virava o rosto para frente, sendo tomado pela reflexão novamente.

— E isso importa? — indagou Tom, sem paciência.

— Claro que sim. Como saber, de verdade, a partir de qual momento estamos buscando algo porque é importante de verdade para nós e não por uma necessidade que nós mesmos projetamos e acreditamos ter? — explicou Joãozinho.

— E se eu desejo beber água? É uma necessidade inventada? — perguntou Tom.

— Nesse caso, existe uma condição corporal independente do nosso desejo consciente. É mais uma necessidade do que um desejo. — respondeu Joãozinho.

— Tá bom. Então você tá dizendo que algo só tem valor porque desejamos? É o nosso desejo que define o valor do objeto desejado, não o objeto em si influencia nosso desejo? — perguntou Tom.

— Mais ou menos isso. Eu acho que o nosso desejo é que projeta o valor no objeto desejado, na maioria das vezes, mais do que o seu valor próprio. Dizendo de outra forma, o desejo projeta valor sobre o objeto mais do que o objeto influencia o desejo.

— Ora, mas se pensarmos assim, não adquirimos nada — exclamou Tom.

— Não exatamente. Não quero ser radical. Eu sei que há coisas que desejamos que são necessárias de fato. Mas como eu vou saber quais coisas são essas? — explicou Joãozinho.

— Pode ser um pensamento interessante, mas aonde quer chegar? — indagou Tom.

— Escutem bem, vou além; e se não desejamos o que de fato desejamos? — perguntou Joãozinho, quase rindo entusiasmo pela sua própria pergunta.

— Pronto, enlouqueceu de vez! — observou Tom.

— Não. Eu quero que você me entenda. E se desejamos o que o objeto desejado pode nos proporcionar e não o objeto propriamente dito? — perguntou Joãozinho.

— Você tá dizendo que, se eu desejo, por exemplo, uma namorada, eu não tô desejando ela por sua essência, mas sim pelo que ela vai me servir? — perguntou Tom.

— Talvez sim, inconscientemente — respondeu Joãozinho.

— Agora me escute. Se eu quiser comprar um carro para melhorar a minha locomoção pela cidade, pelo conforto e pela segurança? — indagou Tom.

— São argumentos válidos, mas e se você estiver inventando isso para justificar seu desejo pelo carro? — retrucou Joãozinho.

— Santo Deus. Não me enlouqueça! Olha só onde essa conversa veio parar — exclamou Tom, sem paciência e até rindo do próprio amigo.

— Pense bem. Quantas escolhas a gente não faz somente pela projeção de necessidades que nem existem de verdade? — perguntou Joãozinho.

— Tudo bem, e se for? — Tom respondeu, desistindo de contestar Joãozinho.

— Eu penso que, se muitas pessoas entendessem isso, fariam escolhas melhores na vida, não acha? — observou Joãozinho.

— Talvez. Mas o que se pode fazer?

— Não sei.

— Bom, se quer tomar isso como sua filosofia de vida, tudo bem, não me interessa.

E então, não vai comprar a moto?

— Claro que vou.

_

_

Sobre a tese de Joãozinho.

“Eu Desejo o Que Desejo?” parte de uma pergunta aparentemente simples: até que ponto aquilo que desejamos é realmente aquilo que acreditamos desejar?

Joãozinho começa pensando em comprar uma moto. Ele já possui uma bicicleta, que cumpre a função básica de levá-lo aos lugares que precisa, mas ainda assim sente desejo pela motocicleta. Tom enxerga a questão de maneira prática: se Joãozinho quer uma moto, por que simplesmente não comprá-la? Para Joãozinho, porém, a questão é mais complicada. Ele começa a investigar de onde vem esse desejo e, principalmente, se as razões que usamos para justificar nossas escolhas são realmente as causas delas.

A tese de Joãozinho não é que todo desejo seja falso ou que nunca devamos comprar aquilo que queremos. Sua suspeita é outra: muitas vezes, desejamos primeiro e justificamos depois. Atribuímos ao objeto determinadas necessidades, vantagens ou qualidades que nos permitem explicar racionalmente por que o queremos.

Uma pessoa pode dizer que deseja um carro por causa do conforto, da segurança ou da facilidade de locomoção. Mas Joãozinho pergunta: e se essas razões forem apenas justificativas que criamos para um desejo que já existia? E se, em vez de o objeto produzir o nosso desejo, for o nosso desejo que atribui ao objeto uma importância maior do que ele teria por si mesmo?

A partir daí, a reflexão se torna ainda mais radical.

Talvez, em algumas situações, não desejemos propriamente o objeto, mas aquilo que imaginamos que ele nos proporcionará. Não desejamos apenas um carro, mas a liberdade que imaginamos que ele proporcionará. Não desejamos apenas uma casa, mas a segurança e a vida que associamos a ela. Não desejamos necessariamente uma pessoa apenas por quem ela é, mas também pelas experiências, sentimentos e possibilidades que imaginamos que ela poderá nos proporcionar.

Isso não significa que essas coisas não tenham valor real. A questão de Joãozinho é justamente a dificuldade de distinguir o valor que existe no objeto daquele que projetamos nele através do nosso próprio desejo.

E então surge a pergunta que dá título à história:

• E se não desejamos o que de fato desejamos?

Talvez pensemos desejar uma coisa quando, na realidade, desejamos outra que está por trás dela. Talvez desejemos o objeto; talvez desejemos o que ele representa; talvez desejemos a transformação que imaginamos que ele produzirá em nossa vida.

A narrativa, entretanto, não oferece uma resposta definitiva para esse problema. E talvez não pudesse oferecer. Afinal, o próprio Joãozinho termina sua reflexão decidindo comprar a moto.

Há uma ironia nisso.

Depois de questionar durante toda a conversa se seu desejo é legítimo, se suas necessidades são reais e se suas justificativas não passam de racionalizações, ele ainda deseja a moto.

Talvez Joãozinho tenha percebido que não existe uma maneira perfeitamente segura de investigar os próprios desejos. Ou talvez simplesmente tenha passado vários minutos pensando sobre uma decisão que, no fim, já havia tomado.

A história, portanto, não pretende ensinar que devemos desconfiar de todos os nossos desejos. Ela propõe algo mais incômodo: talvez conheçamos muito menos as razões pelas quais desejamos as coisas do que imaginamos.

E talvez a pergunta mais difícil não seja:

“O que eu desejo?”

mas:

“Por que eu desejo aquilo que desejo?”

E, depois dessa pergunta, talvez venha uma ainda mais perturbadora:

“Será que a resposta que encontrei não foi apenas outra coisa que inventei para justificar o meu desejo?”

Thoughts

  • Olavo

    Passa a conversa toda a desconfiar do desejo e compra a moto na mesma. Eu fazia igual, e a bicicleta ia para o quintal.

    Permalink
  • JuliaBenevides

    Ao balcão é igual: a pessoa entra a querer a caneta cara e sai a explicar que precisava dela para assinar coisas importantes. As razões chegam sempre depois.

    Permalink
  • argumento_frouxo

    O Tom levou pouco crédito nessa conversa. Quando ele fala em status, tá dizendo que boa parte do valor da moto mora nos outros, e isso existe, ninguém inventou sozinho no banco da praça. O Joãozinho trata tudo que vem de fora como projeção dele, e eu acho que ele erra bem aí.

    Permalink
  • ateucordial

    A tese do Joãozinho tem dono antigo. Espinosa, na Ética, diz quase isto: julgamos uma coisa boa porque a desejamos, e a ordem ao contrário é a história que contamos a nós próprios. Ele chegou lá sozinho num banco de praça, e isso agrada-me mais do que se tivesse lá chegado por um livro.

    Permalink
  • Ovid

    O Joãozinho passando a tarde inteira desmontando a vontade de ter a moto e no fim dizendo que vai comprar me lembra como funciona quase toda decisão grande: a gente pensa bastante, mas a vontade já tinha decidido antes. Aposto que o Tom vai ser o primeiro a pedir carona. Gostei muito de ler a tese depois do diálogo!

    Permalink
  • KayoAlves

    Achei engraçado, como vc usou um tema, até simples pra explicar algo profundo. Concordo com várias coisas mais eu ainda fiquei com muitas perguntas...

    Permalink

Related posts