Como? Como eu faço? Como eu convenço alguém de que, melhor do que ter alguém que você deseja, é desejar alguém que você não pode ter?
É tão bonito amar alguém que é perfeito, que jamais escapará das idealizações projetadas nela.
O amor platônico é a mais bela forma de amor; não há frustrações.
É como uma obra de arte: você vê, admira, passa horas observando, mas não toca, nem pode ser sua. E essa obra de arte só tem valor porque NÃO PODE SER SUA; uma vez que você a tem, você passa a vê-la como algo entediante. Não terá o mesmo valor que ela tinha quando estava exposta num museu e você, para vê-la, precisava se deslocar de sua casa e do seu conforto.
É como diz um ditado: "Um dia amei tanto uma flor que, ao invés de colhê-la, eu a deixei em paz."
Eu acho que é por isso que a paixão é um sentimento tão fugaz; porque é baseado nas impressões iniciais sobre alguém que você, obviamente, não conhece ainda.
Eu mesmo amo uma mulher que é perfeita. Ela é tudo que eu desejo e, como não a conheço, ela jamais poderá me contradizer.
Eu a amo porque, na minha cabeça idealizadora, ela é incrível e nunca poderá me frustrar ou me magoar.
E eu, por mais contraditório que pareça, a conheço muito bem. Sim, claro que conheço. A gente vive junto, mora junto, nos amamos, fazemos declarações de amor todos os dias, um para o outro. Somos felizes como nenhum outro casal poderá jamais ser. Ela é divertida, ri das minhas piadas bobas, chora quando estou ausente, me procura quando está triste, me ama como alguém jamais seria capaz. Ela dorme todos os dias sobre o meu peito, que é como seu lar.
E, às vezes, alguma parte do meu cérebro cretino tenta me convencer de que isso tudo é imaginação, que são fantasias que eu criei. Dizem que são apenas devaneios tolos. Mas que bobagem! Quem ousa dizer que tudo aquilo que vivo e tenho vivido com meu amor não é real? Meu lado racional? É o mesmo lado racional que faz eu me aproximar e que me leva a conhecer o objeto amado? Conhecer alguém que você ama é como jogar tudo o que é belo, toda a beleza, toda a magia, no lixo. Isso é o que a racionalidade faz.
E, por contradição, não é esse mesmo lado racional que cria todas essas fantasias?