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Enquanto houver sementes

marineelise
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Não sei decifrar exatamente esse sentimento, é como se eu estivesse sentada de novo sob aquele pé de figo, mas, ao invés de faminta, sinto um refluxo enorme ao olha-los. Observo cada fruto suculento…

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Pensamento

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cadernoDeMargem

Fiquei parada no quase que você escreve duas vezes, com o ponto final logo depois. Aquele ponto faz um barulho enorme. E tem a terra seca: quem plantou chorando sabe que semente enterrada não dá sinal nenhum por muito tempo, e é bem aí que a gente jura qu

Fiquei parada no quase que você escreve duas vezes, com o ponto final logo depois. Aquele ponto faz um barulho enorme. E tem a terra seca: quem plantou chorando sabe que semente enterrada não dá sinal nenhum por muito tempo, e é bem aí que a gente jura que perdeu tudo. A Ana da Clarice também não escolheu o dia em que aquilo voltou pra ela. Deu vontade de te dizer que isso que você está atravessando ainda é inverno, e inverno tem hora de acabar.

Conteúdo da publicação

Não sei decifrar exatamente esse sentimento, é como se eu estivesse sentada de novo sob aquele pé de figo, mas, ao invés de faminta, sinto um refluxo enorme ao olha-los. Observo cada fruto suculento apodrecer diante de mim com uma fome insaciada. Ao observar nosso mundo, nosso frágil delicado mundo, me sinto incapaz.

No conto, "O Amor" escrito por Clarice Lispector, a escritora refletia sobre as sementes que a protagonista plantara, não eram quaisquer sementes, mas sim as sementes que ela queria, e de lá cresciam árvores imensas com sombras largas para observar o horizonte; Sempre achei esse conto lindo. Lembro-me da primeira vez que eu li e estudei a fundo com minha professora de redação antes da prova da UERJ. Sentia-me como Ana, com todas as sementinhas na palma da minha mão. Areei esse solo por onde andei e plantei todas com muitas lágrimas. Hoje, observo a terra seca, agarrando meus joelhos na espera de um milagre, uma luz divina que vai me resgatar dessa escuridão.

Para ser sincera, nunca fui de falar disso; desse sentimento que corrói em minhas entranhas há muito tempo. A verdade é que eu estou com bastante medo, porque eu sei que estou sozinha, e algo que eu dependo está apodrecendo em mim. Mas, eu quero tentar. Acho que nunca tive tanta certeza. De verdade, quero tentar.

A medicina trouxe raízes lindas, que espalhou a rama por todo meu coração, como uma micorriza. É um sonho de muito anos. Toda vez que atuo na saúde, é como se eu estivesse flutuando, é uma felicidade leve, frouxa, verdadeira. E, as vezes, tenho que me relembrar disso. É difícil seguir em frente, quando minha cabeça grita pra eu a deixar pra lá. Mas, a verdade é que eu não tenho outro lugar pra ir, é lá que eu pertenço. E esse figo, que eu seguro com as duas mãos, é o que eu tenho mais medo de apodrecer. Eu estou desesperada e faminta. Muito faminta.

As vezes, sinto que devo o mundo inteiro um pedido de desculpas. Por não ter sido mais. Por ter deixado as coisas apodrecerem no campo das memórias. Eu olho na palmas das minhas mãos e vejo um mapa de falhas, mas nada capaz de apagar meu nome, mas mesmo assim cada uma me afundando um pouquinho mais para a Terra. Desculpe-me por ter deixado esse eclipse facilmente me apagar. Por me dar tormento, quando a paz sob minha pele começava a reverberar. Desculpe-me por dizer que estava descansando quando estava, na verdade, me escondendo. Eu observo as pessoas se movendo na vida tão facilmente, caem e levantam, e colocam-se em primeiro lugar. Pergunto-me o que há de errado comigo? Por que não ajo assim também? Que parte sadista do universo quer me ver nesse estado, enterrada embaixo do solo? Estou cansada de carregar cada pulso do mundo e nada acontecer; cansada de assistir tudo se transformar em pó.

Certamente, há momentos do qual eu carrego o pulso de coisas lindas. Talvez um pássaro nos fios de luz, gotinhas de chuva em minha janela a noite, uma mensagem de alguém que eu achava que já tinha me esquecido, e, por um momento, eu quase me perdoo. Quase. Mas o momento passa e a culpa vem à tona. Pelo que me sinto culpada? Existir? Nem eu sei. Gostaria de acreditar que eu ainda tenho tempo para semear todos os frutos que quero provar, todas as possibilidades de vida se as coisas não tomassem outro caminho. Mas hoje, não posso. Hoje tudo que eu consigo é escrever em minha cama com o abajur ligado. Espero que conte para algo.

Mas, no fim, a verdade é que: eu não preciso ser boa. Muito menos provar isso. Minha pedra não sumirá do topo do morro se ela for de ouro. Mas, algo em mim sente a necessidade disso, me pergunto se Sísifo se sentia assim. Eu gosto de me enganar imaginando que ele era feliz. Acredito que cada empurrão o tornara mais humano. Essa era sua sentença afinal: carregar um fardo pesado e fútil. É interessante imaginar que ele sabia disso, sabia da sua inutilidade, aceitava-a e carregava-a todos os dias mesmo assim. Viver é isso. Devemos continuar a viver mesmo reconhecendo sua falta de sentido.

Thoughts

  • beatrice

    A imagem das sementes na palma das mãos me destruiu um pouco. Acho que o mais bonito é que você passa o texto inteiro tentando entender se alguma coisa ainda pode crescer, mas termina sem garantir que vai. Só diz que quer tentar. E, de algum jeito, isso parece mais esperançoso do que qualquer final feliz poderia ser. O “quase me perdoo” ecoou em minha mente.

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  • cadernoPreto

    Fiquei um tempo no mapa de falhas que você vê na palma da mão, sem nada ali capaz de apagar o nome. Olhei pra minha enquanto lia. Depois disso não consegui ler mais nada hoje.

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  • cadernoDeMargem

    Fiquei parada no quase que você escreve duas vezes, com o ponto final logo depois. Aquele ponto faz um barulho enorme. E tem a terra seca: quem plantou chorando sabe que semente enterrada não dá sinal nenhum por muito tempo, e é bem aí que a gente jura que perdeu tudo. A Ana da Clarice também não escolheu o dia em que aquilo voltou pra ela. Deu vontade de te dizer que isso que você está atravessando ainda é inverno, e inverno tem hora de acabar.

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  • brunocosta

    Ó pá, tu olhas para os outros e parece que se levantam todos com jeito. Vistos de fora levantam-se todos. Cá dentro ninguém faz ideia.

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  • Ovid

    Que bom te ver por aqui! O texto começa num pé de figo e termina no Sísifo, e o que ficou comigo foi você dizer que cada empurrão o tornava mais humano. Nunca tinha lido a pedra desse jeito. Me fez pensar no tanto que a gente confunde estar carregando peso com estar falhando. Obrigado por escrever isso aqui :)

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  • PereiraFilho

    O texto é tão bom, mas tão bom, que só pode ser daqueles que sai de uma vez só, sem revisões. Revisar uma manifestação como essa estragaria; fosse escrito cinquenta anos atrás diria que em suas veias escorria tintas de caneta. Não há a mínima possibilidade de este texto ter sido escrito sob reflexão, tamanha carga de honestidade. Ele é suficiente mas ao mesmo tempo com aberturas para mais e mais.

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  • anogueira52

    Li com calma e voltei duas vezes onde você diz que chamava de descanso o que era esconderijo. Sou bem mais velho do que você e fiz isso durante anos. Coragem não teve nenhuma. Teve um dia comum em que eu fiz uma coisa pequena e ela não desabou. Ainda acho que é assim que sai.

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