— Você acredita em amor?
— Acredito.
— Tá. Mas o que é amor?
— Como assim?
— O que é, de verdade? Porque a gente fala “eu amo você” como se soubesse exatamente o que está dizendo.
— Acho que é se importar de verdade com alguém.
— Mas esse amor é de quem? Meu ou da pessoa que eu amo?
— De quem sente, eu acho.
— Então, se eu amo você, o amor é meu. Você nem precisa me amar.
— Sim.
— E se amanhã eu parar de sentir?
— Então deixou de existir.
— Pra mim, pelo menos.
— É.
— Então talvez não seja amor. Talvez seja só interesse.
— Interesse?
— É. Eu me interesso por você enquanto alguma coisa em você me desperta algo. Beleza, desejo, carinho, companhia, admiração… Se isso muda, o sentimento pode mudar também.
— Mas isso parece mais desejo do que amor.
— Qual é a diferença?
— Amor é mais profundo.
— Mas o que significa “mais profundo”? Porque profundidade não necessariamente muda a natureza de uma coisa.
— Então você acha que amor é interesse?
— Acho que pode ser. Talvez a gente pegue um monte de sentimentos diferentes — desejo, apego, carinho, necessidade, admiração — e coloque tudo dentro de uma palavra só.
— Amor.
— Exatamente.
— Mas você não acha que dá pra amar alguém sem receber nada dela?
— Dá.
— Então não é interesse.
— Por quê?
— Porque você não está ganhando nada.
— Mas eu ainda quero alguma coisa.
— O quê?
— Que ela fique bem.
— Mas isso não é querer algo pra você.
— Não. Mas ainda é querer.
— Então, pra você, até desejar o bem de alguém é interesse?
— Talvez não seja interesse no sentido comum. Mas continua sendo um desejo meu.
— E o amor também precisa ser cuidado. Se duas pessoas param de conversar, de se ouvir, de demonstrar carinho… uma hora pode acabar.
— Isso não significa que nunca foi amor.
— Eu sei. Uma música acabar não significa que ela nunca tocou.
— Então você admite que algo pode acabar e ainda assim ter sido verdadeiro.
— Sim.
— Então talvez o problema seja outro.
— Qual?
— Talvez a gente espere que o amor seja eterno para considerá-lo verdadeiro.
— Pode ser.
— Mas ainda não entendi sua ideia. Se amor é interesse, qual seria a diferença entre amar alguém e simplesmente querer alguma coisa dela?
— Talvez esteja no que você quer.
— Como assim?
— Se eu quero alguém pelo dinheiro, pelo corpo, pelo sexo ou pelo status, estou interessado no que ela pode me dar.
— E se eu quero que ela seja feliz?
— Aí ela já não é apenas aquilo que pode me oferecer.
— Mas ainda importa pra mim.
— Sim.
— Então ainda existe interesse.
— Talvez.
— Então voltamos ao começo.
— Não exatamente.
— Por quê?
— Porque talvez amor não seja o oposto do interesse. Talvez seja uma forma diferente dele.
— Uma forma mais bonita?
— Talvez.
— Então o amor seria só uma palavra que inventamos para tornar nossos interesses mais nobres?
— Essa é uma possibilidade.
— E você não acha isso meio triste?
— Acho mais triste precisar que o amor seja algo mágico para acreditar que aquilo que sentimos foi verdadeiro.
— Então você não sabe o que é amor?
— Não.
— E mesmo assim acredita nele?
— Acredito no que as pessoas sentem. Só não sei se “amor” é realmente o nome certo para isso.
— E se a gente tirar tudo? Desejo, apego, carinho, necessidade, prazer, memória… tudo que a pessoa desperta na gente. O que sobra?
— Talvez nada.
— Então talvez o amor seja isso.
— O quê?
— Nada além de um nome que damos para tudo aquilo que sentimos quando alguém passa a importar demais.
— E isso é amor?
— Não sei.
— Então estamos de volta à primeira pergunta.
— Talvez.
— “O que é o amor?”
— É.
— E agora?
— Agora eu acho que a pergunta ficou muito mais difícil.