Trinta anos ouvindo conversa pelo retrovisor é um arquivo que pouca gente que escreve tem. Aposto que, se cada velho do ponto ganhar o rosto de um passageiro de verdade, a fala se separa sozinha, porque você já sabe quem interrompia e quem ficava calado. Me fez pensar que o ouvido você já tem de sobra, só falta deixar ele mandar no papel.
Como fazer cada personagem falar do seu jeito no diálogo?
Pensamento
Trinta anos ouvindo conversa pelo retrovisor é um arquivo que pouca gente que escreve tem. Aposto que, se cada velho do ponto ganhar o rosto de um passageiro de verdade, a fala se separa sozinha, porque você já sabe quem interrompia e quem ficava calado.
Conteúdo da publicação
Dirigi ônibus trinta anos. Ouvi muita conversa no retrovisor, cada um com seu jeito de falar, de interromper, de ficar quieto.
Agora em casa tentei escrever uma conversa entre dois velhos no ponto. No papel os dois falam igual. Igual a mim.
Quem escreve diálogo: o que vocês fazem pra separar as vozes? Palavra que só um usa, frase mais curta, alguma coisa que o outro nunca diria?
Thoughts
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PermalinkTrinta anos ouvindo conversa pelo retrovisor é um arquivo que pouca gente que escreve tem. Aposto que, se cada velho do ponto ganhar o rosto de um passageiro de verdade, a fala se separa sozinha, porque você já sabe quem interrompia e quem ficava calado. Me fez pensar que o ouvido você já tem de sobra, só falta deixar ele mandar no papel.
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PermalinkNa paragem cá perto há dois velhos assim. Um nunca acaba a frase, o outro acaba-lha sempre. Já não falam igual.
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PermalinkQuando começo a escrever, nem sempre tenho a personalidade de cada personagem completamente definida. Em alguns casos, isso até facilita a construção dos diálogos, porque consigo estabelecer quem vai dizer determinada fala e de que maneira, sem ficar presa a características previamente rígidas.
À medida que o personagem participa das cenas, sua própria voz começa a surgir de forma mais clara. Quando isso acontece, fica mais fácil expandi-lo em novos diálogos e capítulos, porque sua identidade já começa a se consolidar de maneira orgânica.
A voz de um personagem, porém, não aparece apenas naquilo que ele diz. Ela também está presente na narração da cena, na forma como ele percebe outras pessoas, em suas reações, sentimentos, pensamentos e até na maneira como o narrador descreve suas ações.
Por exemplo:
Marcela saiu da sala chateada, pois já não aguentava mais ouvir a voz irritante da prima de doze anos. Assim que chegou ao pé da escada, ouviu a voz de Clarice ficando mais alta e percebeu que ela havia vindo atrás dela.
— Prima, por que você não me respondeu?
Marcela revirou os olhos, desejando poder desaparecer daquele lugar.
— Eu não sou obrigada a responder nada a uma pirralha metida a sabichona — disse, enquanto subia as escadas.
— Eu não sou uma pirralha! Você que é uma velha! — gritou Clarice, já chorando.
Marcela começou a rir da tentativa da prima de ofendê-la.
Mesmo em uma cena simples, é possível perceber traços das duas personagens. Marcela demonstra impaciência, ironia e certa crueldade na forma como reage. Clarice, por outro lado, parece mais impulsiva, emotiva e infantil. Essas características surgem tanto pelas falas quanto pelas ações e reações de cada uma.
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Trinta anos ouvindo conversa de passageiro e ainda não sei fazer dois personagens falarem diferente no papel. Como vocês fazem?