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A onda vermelha

who_ww

Conteúdo da publicação

Você não observa o próprio mundo, não é? Talvez nunca tenha observado. Anda pelas mesmas ruas, vê os mesmos rostos e escuta as mesmas palavras, mas permanece alheio ao que acontece diante dos seus olhos. Talvez seja como Vyer: vê, mas não enxerga.

Este livro aborda questões sociais, como o preconceito e a apatia social, inspirado no escritor Fiódor Dostoiévski, autor de Crime e Castigo e autores brasileiros como Austregésilo Carrano e André Sant'Anna.


É inacreditável as quantidades de coisas que eu poderia utilizar, escrever, falar ou dissertar, mas absolutamente nenhum poderia simplesmente descrever o sentimento de revolta, raiva e a necessidade de mudança. Talvez nenhuma obra de arte, livro, poema ou fala — represente tal sentimento de forma tão verdadeira, crua e em sua própria essência.

Mas isso é pelo menos uma tentativa.


”O homem que desconhece a classe a qual pertence age contra si próprio„ — Friedrich Engels

Capítulo 1:

Eu lavava o rosto com a água levemente morna que saía da torneira. O banheiro estava cheio de bagunças: sujeira pelos cantos, umidade no ar e a janela quebrada, por onde os raios de sol invadiam o cômodo, tornando o ambiente ainda mais quente. Era irritante o barulho da lâmpada piscando. Perguntei-me por que ainda não a havia trocado. Era absurdo o tempo que havia passado. Talvez eu tivesse me acostumado à presença daquele inferno barulhento.

Após secar meu rosto com uma toalha velha, percebi que a televisão estava ligada. Era perceptível o seu chiado, que ecoava pela casa. Estava passando algum programa, no qual tentava convencer o espectador a comprar itens um tanto quanto inúteis, envelopados em um plástico barato e fedorento. Andei até a sala descalço, apenas com uma bermuda e as mãos e rosto recém-enxugados, e vi a minha companheira de quarto sentada na frente da televisão.

Ela estava ajeitando alguns papéis, anotações e relendo — provavelmente algo da sua faculdade — quando me viu, deu um leve sorriso e disse: "Está quente, não é?". Respondi com uma careta, concordando com sua indagação.

A casa era pequena e modesta, um espaço o suficiente para nós dois. A cozinha e a sala eram bem próximos; o que as separava era a mesa de jantar, o que era bom, pois era possível cozinhar e ver a televisão ao mesmo tempo. Os móveis eram antigos: juntamos o que já tínhamos de nossos pais e compramos o resto, perto da nossa casa, com um senhor suspeito e drogado — o trato era necessário, pois ele queria vender e eu e minha colega queríamos comprar.

Além do mais, existe um tapete com mosaicos com tons quentes e verdes, ele era enorme e ia perto da porta do banheiro até a mesa de jantar. Ninguém sabe de onde veio ele, pois nem na sala ele estava quando viemos visitar a residência pela a primeira vez. Na sala existia uma mesinha de centro, que era na verdade uma mesa de jantar, mas minha colega caiu em um golpe na internet e a mesa na verdade era minúscula para jantarmos, então se tornou uma mesa de centro.

Existem três janelas naquele cômodo, algo que sempre veio me incomodar, pois era luz demais para o ambiente e, como indivíduo paranoico que sou, dormia pensando que alguém iria invadir a casa. As três janelas ficavam localizadas: a primeira perto da porta de entrada, a segunda na cozinha e a terceira e menor na parede oposta a sala.

Afinal, eu apenas me sentei ao lado dela. Após sua pergunta, a televisão estava em um programa de fofoca. Minha colega virou-se e novamente falou:

— Por que está tão quieto hoje? Digo, sempre estás quieto, mas hoje mais do que o comum — disse ela, colocando os papéis na mesa.

— Nunca estou quieto, quero dizer, sempre estou pensando — retruquei, retirando os olhos.

Ela se ajeitou e ficou mais perto de mim com um sorriso:

— Me chamaram para sair... umas amigas que me chamaram, na verdade. Você deveria ir junto.

— Talvez, talvez eu vá. Dependendo do horário que eu sair do trabalho, poderei ir. Que horas irão?

— Sairemos daqui de casa às 8h30, mas você aparece no local quando sair do trabalho, a gente espera você. Quando estiver chegando, mande-me uma mensagem, para eu te esperar na frente do estabelecimento.

Apenas concordei com a cabeça e voltamos a ver televisão. Eu gostava da minha colega. Éramos grandes amigos e nos conhecíamos desde o jardim de infância. Chamo-a de Liv desde essa época, apesar de não fazer tanto sentido com o nome Lilian Blair, mas as crianças não ligam para isso, certo? Talvez fosse justamente por isso que eu nunca tivesse me acostumado a chamá-la de Lilian. Para mim, ela sempre fora Liv. O apelido surgiu quando éramos crianças, numa época em que nenhum de nós sabia pronunciar direito o nome um do outro. Ela reclamou durante alguns dias, depois simplesmente aceitou.

Escutei a risada dela e voltei a prestar atenção na televisão. Era uma reportagem sobre um homem que era aparentemente conhecido e famoso que havia sido pego traindo a esposa em um iate.Queria tomar banho na praia e passear de iate, pensei.

— Inacreditável que ele tenha feito isso! — exclamou minha colega. — Eles eram um casal tão fora do padrão, uma beleza fascinante...

Era trivial pensar no relacionamento alheio, mas não negava que era interessante julgar pessoas fora do nosso círculo, como se fôssemos juízes de vidas que não nos pertenciam. As opiniões de Liv, na maioria das vezes, eram, na verdade, bem pontuais e certeiras, seus conselhos sempre foram bons, apesar da mesma nunca segui-los.

— Geralmente, é a perda que nos ensina o valor das coisas — disse, pensativo.

— O quê?

— Quem disse essa frase foi Schopenhauer — falei, com um leve sorriso, me sentindo orgulhoso, por lembra-me de um filósofo durante o dia.

— Independentemente de quem foi, por que você anda tão pensativo? O que está acontecendo com você? Anda tão....?

— para se sincero, acho que estou apenas cansado — mentir, é claro.

— é sobre seu pai? Estou aqui para...

Minha atenção voltou-se novamente para a televisão. As questões de minha família eram densas demais, e o meu dia corria bem, precioso demais para se perder em conversas de família tão fúteis e desagradáveis. No entanto, é claro que minha mente iria correr à noite, sobre absolutamente todos os meus problemas familiares. Obrigado, Liv, você me deu um novo assunto para pensar!

Thoughts

  • Doralice

    Uai, esse tapete que ninguém sabe de onde veio me fez lembrar de uma cadeira de palhinha que apareceu lá em casa num inverno e ficou vinte anos sem dono. Todo mundo sentava, ninguém perguntava.

    Coisa sem origem em casa pequena vira da família sem pedir licença. Desconfio que o tapete do seu narrador ainda volta, porque cê deu a ele um parágrafo só dele.

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  • who_ww

    Publiquei o capítulo 2! Confira no meu perfil ou no link:

    https://www.seavien.com/discussion/onda-vermelha-capitulo-2-Pax5gyhdRYFW?sv_s=m6icezam6h8w

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  • ArnaldoBessa

    Os móveis juntados da casa dos pais e o resto comprado de um vizinho meio suspeito: foi assim a primeira casa minha e da minha mulher, com uma mesa que balançou até o fim.

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  • AlmaTavares

    Fiquei com um cansaço antigo no fim, o de quem vê a amiga oferecer ajuda e volta os olhos para a televisão. Se calhar o pai está no centro do livro e ele ainda não o deixou entrar.

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  • Ovid

    A mesinha de centro que era pra ser mesa de jantar e veio de um golpe na internet me fez rir, e me fez pensar que a casa já conta muito dessa dupla antes do pai aparecer. Aposto que essa conversa de família que ele empurra pra noite vai ser o motor da segunda parte. Bem-vindo ao Seavien, que bom ter o primeiro capítulo aqui!

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  • versoTorto

    Mano, dá pra ouvir a lâmpada piscando o capítulo inteiro. Combina com o cara que vive adiando o assunto do pai: tudo nessa casa tá quebrado e ninguém troca.

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  • Antonio_Goncalves

    Vc escreve muito bem, mas lendo, é como se fosse um enredo desses doramas. Não sei se a imagem q vc usa causou essa percepção. Mas sua forma de escrever é muito boa, não cansa.

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