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Onda vermelha – capítulo 2

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“O corpo é o cárcere da alma enquanto ela não se volta para aquilo que é em si mesmo.” – Platão


Estava andando pela calçada, apressado. Vestia uma roupa leve e uma calça mais larga que eu. Minhas vestimentas tinham tons neutros; levava comigo uma pasta transversal de cor azul-claro. A correria, naquele momento, era inevitável: todos indo para o trabalho, escola, ou seja, indo para seus afazeres diários. Eu? Eu estava indo para meu trabalho, como todo mundo. Já tinha pegado um metrô e faltava pouco para chegar. O meu serviço era escrever os pedidos dos clientes em um tablet, limpar o local e manter em ordem a loja, junto com meu colega, que mudava dependendo do dia. Era um trabalho um tanto quanto simples, porém extremamente chato de chegar e cansativo demais em lidar com clientes teimosos e rabugentos.

A porta se abre. Um garoto mais jovem que eu, com roupas vermelhas e avental, me cumprimenta com a cabeça e volta a limpar o balcão. São 8:00hrs. Estava atrasado apenas quinze minutos, porém, quem vem comer tão cedo um hambúrguer? Inacreditavelmente, muitas pessoas. Ou só pedem biscoito e café.

Vou até os fundos, bato meu ponto e coloco minha roupa de trabalho no banheiro dos funcionários. Vejo que a chapista, ou cozinheira, como queira falar, tinha acabado de chegar também. Como é de manhã cedo, evito falar com ela e vou até o meu posto.

Para ser sincero, o estabelecimento era bem bonito e organizado, graças aos funcionários, que eram bem eficientes. Deveríamos ser donos daqui, de tão bem cuidado que está. Existem seis cadeiras, com poltronas estofadas vermelhas, bem limpas; o balcão é organizado, mostrando o cardápio e as promoções do dia. A comida é sempre fresca e feita na hora, os banheiros são limpos e o pagamento está em dia. Isso a gente agradece à nossa gerente, que não é dona, porém cuida do financeiro da hamburgueria.

Até onde sei, o dono parece ser alemão, embora ninguém possa afirmar com certeza a veracidade dessa informação, pois o nome da hamburgueria é "Fickel Burger". Um alemão verdadeiro realmente colocaria esse nome? Eu não sei. Ou o dono é simplesmente uma pessoa muito rica, com tempo e dinheiro de sobra para gastar, que adora uma boa piada ácida. Talvez ele não soubesse que alguém daqui realmente saberia alemão. Enfim, eu estava terminando de regar as plantas que ficavam no começo e algumas no balcão, até que entra alguém. Meu amigo Kifo, logo percebe o cliente e vai atendê-lo, deixando de lado o que estava fazendo.

O tempo foi se passando, o sol foi ficando mais "quente" e a hamburgueria começou a virar uma estufa por causa dos vidros. Nem o ar-condicionado estava aguentando lutar contra o calor. O ar parecia pesado, quase parado, e respirar já não trazia a sensação de alívio. Meus pensamentos foram indo e voltando para a realidade. Ficava perdido entre a realidade e minha mente, entre meus pensamentos e meus sonhos. Quando finalmente conseguia entender o que estava acontecendo, voltava para o mundo físico e para o trabalho. Sentia-me como se estivesse deslocando o próprio espaço e tempo. Quando acordava, percebia que algum cliente novo havia entrado e ia atendê-lo. Tentava prestar o máximo de atenção às palavras que saíam de sua boca, mas sua aparência era constantemente modificada por coisas não tão humanas assim. O som foi ficando cada vez mais distante. As colheres, as conversas, a música ambiente. Uma hora eu estava em um campo florido e, em outra, estava no Fickel Burger. O calor do sol fez com que esse efeito de "ir e voltar" fosse intensificado. Meus olhos estavam piscando lentamente, cada vez mais devagar. Era uma sensação estranhamente prazerosa. Era quase como se eu estivesse bêbado, como se tivesse bebido tanto que acabasse me "teletransportando" para o futuro. Só que eu não estava me transportando para o futuro, pois, em alguns momentos, eu sequer estava no mundo físico em que aquelas mesmas pessoas que compartilhavam o ambiente comigo estavam. Talvez, só por não estar 100% no trabalho, já fosse dopamina o suficiente para o meu cérebro. Sei que fiz Kifo descansar um pouco e comecei a varrer no lugar dele. Quando terminei, guardei a vassoura e me escorei no balcão. Já não sabia dizer se estava acordado ou apenas tentando continuar acordado.

O campo e a hamburgueria começaram a se misturar. Por um instante, eu conseguia ver as flores. No seguinte, via o balcão. Depois, as duas coisas pareciam existir ao mesmo tempo. O calor tornava tudo ainda mais estranho. As bordas das coisas pareciam perder a definição, e meus olhos tinham dificuldade de permanecer abertos. O ambiente parecia distante, como se houvesse uma camada invisível entre mim e tudo ao meu redor. Lembro-me da última coisa: Kifo indo fechar algumas janelas com as persianas, para que o ambiente não ficasse tão quente.

Com os olhos fechados, sentia algo passar por mim, tão rápido e com um barulho tão grande. Sentia que estava sentado em uma cadeira e, quando finalmente abri meus olhos, um trem passava por mim tão perto que, se eu estendesse as minhas mãos, seria levado pela velocidade dele. Ele passou por mim por uns dez segundos e, depois, finalmente havia cessado. Olhei para os lados e vi várias anomalias humanoides, todas sentadas como eu. A aparência delas era bastante interessante de ser analisada, no entanto, extremamente desconfortável de se olhar por muito tempo. Uma mantinha pernas na cabeça, ou o que quer que fosse a sua cabeça; mãos no estômago; pulmões no lugar das orelhas; olhos nos joelhos. Parecia que aquelas pessoas eram um cubo e a pessoa que tinha que montá-las evidentemente não sabia o que estava fazendo.

Todas tinham uma aparência única, nenhuma era igual à outra. Estávamos em um corredor branco, com trilhos à nossa frente. O chão era coberto por grama e flores. Decidi me levantar e caminhar.

Thoughts

  • Ovid

    Fiquei pensando nele dizendo que os funcionários deviam ser os donos da hamburgueria, de tão bem cuidada que ela é, e logo depois sumindo dali de olho aberto. Quem conhece cada cadeira vermelha daquele lugar é justamente quem a cabeça leva embora pro campo de flores. Aposto que muita gente aqui que já trabalhou em balcão reconhece esse jeito de estar e não estar no mesmo turno. Fico esperando o capítulo 3!

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  • AlmaTavares

    O calor a abafar os sons um por um, os talheres, a conversa, a música de fundo, foi onde comecei a ler mais devagar. Reconheço essa vontade de não estar inteiro onde se está, a meio de um dia que se repete igual ao anterior. O campo de flores chega sem aviso e quase dá pena quando ele volta ao balcão.

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