CAPÍTULO 6: O SOM DAS ESPINHAS
— Recuar! Todos os setores, recuar para a segunda linha de defesa! — o rádio no peito de Marcus Thorne gritava com a voz em pânico do centro de comando regional.
— Negativo! — Thorne esbravejou, agarrando o colarinho do seu tenente e arrastando-o para trás do blindado de transporte de tropas. — O recuo vai abrir o corredor para a estrada principal! Nós seguramos aqui!
A cena ao redor do Ponto de Controle Alfa era um pesadelo de precisão biológica. Os cinquenta soldados contagiados não demonstravam raiva ou agressividade. Eles não corriam desabalados.
Em vez disso, eles avançavam em uma linha perfeitamente espaçada de dois metros entre cada homem. Quando os soldados da retaguarda disparavam tiros de advertência para o ar, os infectados nem sequer piscavam.
— Thorne! — Elena gritou, puxando a manga do seu macacão do meio da fumaça dos granadeiros. — Não use armas de fogo de pequeno calibre! Você não está lutando contra soldados! O sistema nervoso deles não responde mais ao choque traumático!
— Eu preciso parar o avanço deles, doutora! — Thorne levantou seu fuzil de assalto, alinhou a alça de mira no joelho do soldado infectado mais próximo — seu próprio cabo de comunicações, um rapaz de vinte e dois anos chamado Perez — e puxou o gatilho.
O projétil de 5,56 mm perfurou o joelho de Perez. O osso foi fraturado. O jovem caiu de joelhos na terra.
Qualquer ser humano comum teria gritado de agonia, segurando a perna destruída. Perez não emitiu um único gemido.
Ele olhou para a própria perna atingida. Em menos de cinco segundos, filamentos espessos de micélio cinzento emergiram de dentro do rasgo na farda de Perez, trançando-se rapidamente sobre a ferida aberta como uma sutura viva. As fibras esticaram-se, endureceram como madeira curada e reconstituíram a articulação do joelho destruído.
Perez levantou-se. E voltou a andar na mesma velocidade constante.
— Viu? — Elena disse, com a voz embargada. — O Xeno-Phytum usa o cálcio dos ossos e a glicose do sangue para reparar os danos em tempo real! Enquanto o cérebro deles estiver conectado à rede, o corpo físico é só uma ferramenta descartável!
— Então como diabos nós paramos essa coisa?! — Thorne gritou, enquanto o ruído ultrassônico no ar ficava tão denso que a estrutura metálica do blindado ao lado deles começou a ressoar como um sino desafinado.
De repente, o tenente que estava ao lado de Thorne caiu de joelhos, cobrindo os ouvidos com as mãos. Um fio de sangue escuro começou a escorrer de seu nariz e de seus canais auditivos.
— O som... — o tenente engasgou, contorcendo-se na terra. — Está... está dentro do meu cérebro...
— Ele não está imune! — Elena percebeu o perigo imediatamente. — O zumbido não é só comunicação entre eles, Thorne! É uma frequência de modulação acústica que desestabiliza as ondas cerebrais humanas para facilitar a fixação dos esporos! Se o seu cérebro entrar em ressonância com o som deles, sua imunidade natural cai!
Thorne sentiu a cabeça pesar. Um zumbido agudo, semelhante ao ganido de um microfone em manifestação, começou a perfurar sua têmpora esquerda. A visão de seu olho direito ficou turva, preenchendo-se com pequenos pontos cintilantes de luz verde.
— Pegue isso! — Elena abriu sua maleta de alumínio e tirou dois pequenos protetores auriculares de silicone cirúrgico, conectados a um mini-gerador de ruído branco acoplado a uma bateria de nove volts. — Coloque agora!
Thorne enfiou os plugues nos ouvidos.
O som abafado do ruído branco estático — semelhante ao barulho de uma televisão sem sinal — invadiu seu canal auditivo. Instantaneamente, a pressão em seu cérebro diminuiu. A visão de seu olho direito voltou ao normal.
Ele olhou para o tenente no chão. Já era tarde demais. O jovem havia parado de se contorcer. Suas mãos caíram suavemente ao lado do corpo. Ele ergueu o rosto para Thorne, com os olhos sem vida e o mesmo sorriso sereno.
— Thorne... nós precisamos ir embora daqui agora, — disse Elena, apontando para a cratera no meio do campo.
De dentro da abertura na terra, a grande coluna biológica começava a desfolhar-se como uma flor monstruosa de carne e madeira. No centro da coluna, flutuava uma enorme esfera de micélio concentrado, do tamanho de um ônibus, que brilhava com uma intensidade cega.
A esfera era um amplificador de sinal.
A frequência do ultrassom mudou. O chão sob os pés de Thorne começou a se liquidificar, como areia movediça criada por vibração sónica de alta potência. Os caminhões militares e as barricadas de concreto começaram a afundar lentamente na terra amolecida.
— Para o helicóptero! — gritou Thorne, agarrando o braço de Elena e correndo em direção à pista de pouso de emergência nos fundos do posto de comando. — Para o helicóptero agora!
O piloto do helicóptero de transporte Black Hawk da polícia já havia acionado as pás dos rotores. O ar gerado pelas hélices afastava temporariamente a névoa de esporos que descia sobre a pista.
Thorne jogou Elena para dentro da cabine de carga e saltou logo em seguida, enquanto o piloto puxava a alavanca de coletivo com força total.
O helicóptero ganhou altitude rapidamente.
Lá embaixo, Thorne olhou pela porta aberta da aeronave.
O Ponto de Controle Alfa e toda a linha de quarentena militar do Setor Quatro haviam sido completamente engolidos. Não havia corpos na terra. Não havia destruição por fogo.
Havia apenas uma vasta tapeçaria verde-cinzenta de micélio que cobria os veículos, as armas, as barracas e os dois mil soldados da contenção. Todos eles estavam em pé, formando um gigantesco círculo perfeito ao redor da cratera, com os rostos erguidos para o Black Hawk que subia para as nuvens.
— Eles deixaram a gente escapar... — murmurou Thorne, limpando o sangue do próprio nariz com as costas da luva.
— Eles não deixaram a gente escapar, Capitão, — disse Elena, olhando para a maleta em seu colo. — Eles só não se importam para onde nós vamos. Porque eles sabem que não há lugar no planeta onde os esporos não possam chegar.