Pular para o conteúdo
Carregando…

Teoria nº 02: O Efeito da Bolada

hyan_amorim

Conteúdo da publicação

Quinta-feira, 12 de março de 2026

Caminho pelo corredor do condomínio, distraído, observando as lajotas do chão. De repente, uma bola bate no meu pé.

— Ei, tio, joga a bola! — diz um dos meninos que estavam mais à frente.

Vou chutar a bola, mas meu pé passa raspando por ela. Os meninos caem na risada.

— Parece que o nerd não sabe chutar uma bola — debocha um deles.

Sinto meu sangue ferver. Como assim eu não sei chutar uma bola?

— Toma — digo, antes de chutar a bola.

Dou um chute com toda a força do ódio. Como esses pirralhos ousam zombar de mim?

Olho para frente e vejo Ariel saindo do apartamento dele. Meu coração dispara quando percebo que a bola está indo direto na sua direção.

— Ariel! — grito, desesperado.

Ariel se vira no mesmo instante, e a bola acerta em cheio sua testa. Ele cai desacordado no chão.

— Bora vazar! — grita um dos meninos, pegando a bola e saindo correndo. Os outros o seguem imediatamente.

— Ariel! — grito novamente, desesperado, enquanto corro até ele.

Aproximo-me rapidamente e coloco minha mochila sob a cabeça dele.

— Ufa... ele está respirando — digo, aliviado, após levar os dedos até o nariz de Ariel.

— O coração também está batendo — acrescento, agora com a cabeça apoiada em seu peito, ouvindo os batimentos acelerados.

Ariel começa a abrir os olhos.

— Ariel, você está bem? — pergunto, preocupado.

— Ai... minha cabeça — murmura, levando a mão à testa.

— Quer que eu te leve ao hospital? — digo, tocando sua cabeça com cuidado.

Ariel não responde. Ele apenas me encara, em silêncio.

— Desculpa... eu não quis acertar a bola em você — digo, de cabeça baixa.

— O que você quer? Me matar e tentar me conquistar de novo na próxima vida? — rebate Ariel, incrédulo.

Olho para a testa dele. Está vermelha.

— É melhor colocar um pouco de gelo — digo, tocando sua testa com delicadeza.

Ariel arregala os olhos e fica me encarando fixamente. Espera... o rosto dele está ficando vermelho.

— Ariel? — chamo, confuso.

De repente, ele dá um pulo e sai correndo.

— Ariel, espera! — grito.

Mas ele já está longe.

Fico parado, tentando entender o que acabou de acontecer. Ele estava estranho. O rosto corado, o olhar perdido...

Peraí.

Ele ficou corado por minha causa?

Levo a mão ao peito quando sinto meu coração acelerar com essa possibilidade absurda.

Estou no laboratório e não consigo parar de pensar no que aconteceu mais cedo. O Ariel ficou vermelho. Não acredito que, depois de quinze anos, meus esforços estão finalmente tendo algum resultado.

— Doutor Martins?

A voz de Wei me puxa de volta para a realidade. Pisquei algumas vezes e encarei o painel à minha frente, percebendo que os gráficos já tinham passado do ponto ideal.

— Hã... sim. Desculpa. Em que ponto estamos? — pergunto, ajeitando os óculos.

— A combustão estabilizou por quarenta segundos — responde Wei. — Mas a simulação de microgravidade começou a oscilar.

— O campo magnético está fraco demais — acrescenta Rafael, girando a tela para mim. — Se isso fosse no espaço, a chama teria se fragmentado.

Me aproximo da câmara selada e observo a esfera de fogo azulada flutuar, instável.

— A chama não está falhando — digo, pensativo. — Ela está reagindo a pequenas perturbações. É como se... qualquer interferência mínima fosse suficiente para desestabilizar o sistema.

— Tipo quando alguém perde a concentração — provoca Rafael, arqueando a sobrancelha. — Quer compartilhar o que te distraiu hoje, doutor?

— Foco, Rafael — corto, mas sem muita convicção.

Wei inclina a cabeça, me observando com atenção.

— Você tá estranho. Quase deixou o sensor de pressão fritar.

Suspiro e apoio as mãos na bancada.

— Hoje de manhã... eu acertei o Ariel com uma bola — confesso.

— Você o quê? — Rafael arregala os olhos.

— Foi sem querer — me defendo rapidamente. — Ele caiu, bateu a cabeça... eu toquei nele para ver se estava bem.

Wei diz sério, mas em tom de deboche:

— E deixa eu adivinhar... você ficou mais abalado do que ele.

— O coração dele disparou — digo, baixo, quase para mim mesmo. — Ou pelo menos foi o que pareceu.

— Ou o seu — comenta Rafael, com um sorriso malicioso.

Ignoro.

Volto a encarar a chama na câmara, agora mais fraca.

— Sabe qual é o problema desse experimento? — digo. — A chama precisa de equilíbrio. Pressão, temperatura, campo... tudo em harmonia. Qualquer excesso faz tudo colapsar.

— Você não tá mais falando de física, né? — pergunta Wei.

— Tô falando exatamente de física — respondo. — Mas também de pessoas.

Rafael solta uma risada curta.

— Quinze anos orbitando o mesmo planeta... era inevitável uma colisão.

Olho para a chama se apagando lentamente.

— Toda colisão libera energia — murmuro. — A questão é se ela destrói... ou cria algo novo.

O alarme soa, indicando o fim do teste.

— Teste encerrado — anuncia o sistema.

Fico em silêncio por alguns segundos.

— Prepara o relatório pra NASA — digo, finalmente. — E... Wei?

— Fala.

— Diminui a intensidade do campo na próxima rodada.

É horário do almoço, e fui almoçar na casa dos meus pais. Eles, como sempre, estão preocupados com o fato de eu ainda não estar namorando. Às vezes, me estresso com eles; vivem me empurrando várias pretendentes que, na visão da minha mãe, são perfeitas. Mas eu me mantenho firme: o único que existe para mim é a minha estrela da cozinha.

É noite, e estou frustrado por não ter conseguido uma reserva no restaurante do Ariel. Está ficando mais concorrido a cada dia que passa. Ainda assim, fico feliz em ver que a minha estrela da cozinha realizou os sonhos que tinha na época da escola. Acho que, de alguma forma, todos nós acabamos nos tornando aquilo que mais desejávamos naquele tempo.

Agora estou na praça, tomando um sundae de chocolate, tentando distrair a cabeça.

— Nossa, que coincidência — diz Ariel, sentando-se na cadeira em frente à minha.

Ele está com um sundae na mão.

Meu coração acelera no mesmo instante. Não acredito. Ele veio até aqui por conta própria... e sentou comigo.

— Ariel... — digo, chocado.

— Não interprete as coisas mal — responde friamente, antes de levar uma colher à boca. — Eu só sentei aqui porque não tem nenhuma mesa vazia. Você sabe que não gosto de comer com estranhos.

— Então... você não me considera um estranho? — pergunto, surpreso e bobo ao mesmo tempo.

— Claro que não. A gente já se conhece há um tempão — diz Ariel, dando de ombros.

— Nossa... a bolada na cara realmente alterou seu humor — comento.

— Me deu uma baita dor de cabeça, isso sim — rebate Ariel, incrédulo, encostando o copo na testa. — Estou na esperança de que esse sorvete leve embora essa enxaqueca — acrescenta, me olhando.

— Sorvete derrete, estrelas colapsam... e eu perco totalmente a noção quando você me olha assim — digo, todo bobo.

Ariel me encara de um jeito diferente. Um olhar mais suave. Mais doce.

— Só você mesmo... — murmura ele, antes de deixar escapar um leve sorriso.

O quê?

Ele... sorriu?

Com a minha cantada?

Geralmente, ele me ignora ou revira os olhos. Será que aquela bolada mexeu mesmo com os neurônios dele?

— Eu não estou te reconhecendo... por acaso você é o irmão gêmeo do Ariel e sequestrou o original? — digo, confuso, depois de esvaziar meu copo.

— Cala a boca, nerd — rebate Ariel, antes de enfiar uma colher de sorvete na minha boca. — Melhor assim.

— Ariel? — digo, chocado. — Você acabou de... me alimentar? É isso mesmo? — acrescento, completamente incrédulo.

Ariel congela.

Os olhos dele se arregalam, como se só agora tivesse percebido o que fez.

— O que está acontecendo comigo? — murmura, em choque, olhando para a própria mão.

De repente, seu rosto fica vermelho. Vermelho de verdade.

— Eu... eu tenho que ir — diz, apressado, antes de se levantar e sair quase correndo.

— Ariel, espera! — chamo, mas ele já está longe demais.

Fico parado, encarando o copo de sorvete que ele deixou para trás.

— O que... o que está acontecendo aqui? — murmuro, completamente atônito.

#romance

Thoughts

  • tia_do_zap

    Ai, meu bem, que nervoso ele conferindo se o Ariel respirava com o dedo no nariz! Me avisa quando sair o próximo sobre o Ariel?

    Permalink

Related posts

Pública 1 conversa 2 pensamentos 14 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Quinta-feira, 12 de março de 2026

Em séries

Temas

Em grupos