Terça-feira, 17 de março de 2026
Não sei o que está acontecendo comigo. Não entendo por que me apaixonei tão de repente por esse nerd. Estou fora há apenas dois dias e já estou morrendo de saudades dele. O que tinha naquela bola? Alguma poção do amor?
De repente, meu celular apita. Meu coração se aquece. Que droga... é uma mensagem de bom dia do Joel.
"Bom dia. Considerei a equação: sono + café - você = dia incompleto. Aguardando correção da variável."
— escreve Joel.
Nossa, ele é tão criativo... penso, com as bochechas extremamente quentes por causa da mensagem. Por que fiquei corado? É só mais uma de suas mensagens ridículas, em que ele mistura cantadas com física.
Meu celular vibra de novo. Olho e vejo alguns emojis de coração. Pronto, isso é o suficiente para me fazer corar de novo.
— Que droga! — grito, frustrado, antes de atirar o celular na parede.
O aparelho se parte no meio.
— Esse é o único jeito de eu não corar de novo — digo, observando o que sobrou do meu celular.
— Ariel, filho, que barulho foi esse? — grita minha avó, preocupada.
— Não foi nada, vovó. Só derrubei uma coisa — respondo.
— Se arruma logo, já estamos quase de saída — diz minha avó.
— Já estou indo! — respondo e, logo em seguida, começo a me arrumar.
Hoje é o aniversário de casamento dos meus pais e, todos os anos, eu, a vovó e minha irmã levamos flores ao cemitério. Meus pais morreram em um acidente de barco há muitos anos. Eu e minha irmã sobrevivemos por um milagre: ficamos boiando por horas até finalmente sermos encontrados.
Depois desse dia, nunca mais consegui entrar no mar — nem mesmo em uma piscina. É como se, sempre que me aproximo da água, eu visse meus pais afundando junto com o barco.
Agora estamos no cemitério, diante do túmulo dos meus pais. Cada um de nós segura um buquê de flores.
— Feliz aniversário de casamento, papai e mamãe — digo, com a voz triste, enquanto coloco o buquê sobre o túmulo.
— Obrigada por ter vindo. Sei o quanto é difícil para você vir aqui — diz minha irmã, me abraçando com carinho.
— Você vai ficar para o almoço ou já vai voltar? — pergunta minha avó.
— Eu tenho que ir. Preciso resolver algumas coisas no restaurante — respondo.
— Volte com segurança, meu filho — diz minha avó, me abraçando forte.
Já é noite quando estou de volta ao restaurante. Faz algum tempo que voltei do interior, mas as lembranças dos meus pais não saem da minha cabeça. Toda vez que vou ao cemitério, as memórias vêm com tudo, como se eu revivesse aquele dia mais uma vez.
A cena do barco afundando enquanto a correnteza me levava para mais longe passa repetidamente pela minha mente. Minhas mãos tremem enquanto corto os legumes. De repente, sinto uma quentura na mão.
— Meu Deus, chefe, o senhor está bem?! — grita Rayssa, desesperada.
Olho para a minha mão e percebo que cortei o dedo. Está sangrando muito.
Todos na cozinha entram em desespero.
— Temos que levá-lo ao hospital — diz a subchefe, preocupada.
— Não foi nada demais — digo, enquanto amarro um lenço no dedo.
— Como assim "nada demais"? Seu dedo está sangrando muito! — diz um dos garçons, alarmado.
— Eu estou de moto, posso levar o senhor ao hospital — oferece o outro garçom.
— Está bem, então. Você assume o comando — digo, olhando para a subchefe.
— Sim, senhor — responde ela prontamente.
Fico esperando do lado de fora enquanto o garçom vai buscar a moto.
— Estrela da cozinha, o que aconteceu com a sua mão?! — pergunta Joel, desesperado, correndo até mim.
— Tive um pequeno acidente — respondo, sem encará-lo diretamente.
— Veio fazer sua rotina diária de jantar aqui? — acrescento, olhando para a rua.
— Sim, vim com a galera da universidade — diz Joel, enquanto segura minha mão. Assim que ele me toca, meu coração começa a acelerar. Ele analisa minha mão com cuidado.
— Tá bom, você já viu meu ferimento o suficiente — digo, puxando a mão.
— O que houve com seu celular? — pergunta Joel, curioso. — Por acaso te roubaram? — acrescenta, agora preocupado.
— Meu celular quebrou — minto descaradamente.
— Sério? — diz Joel, chocado. — Como?
— A culpa foi sua — digo, cruzando os braços. — Fui ver sua mensagem de manhã e ele caiu... e quebrou.
— Eu te dou um novo, amor — diz Joel, me olhando com os olhos brilhando.
— Não precisa — respondo, desviando o olhar antes que meu coração acelere.
— Vamos, chefe — diz o garçom, aproximando-se com a moto.
— Eu te levo ao hospital — diz Joel, firme.
— Não precisa, doutor — respondo.
— Sem mais uma palavra — diz Joel, antes de me pegar no colo.
— Eu vou levar o chefe — acrescenta, olhando para o garçom.
— O que você pensa que está fazendo? — digo, incrédulo. — Me põe no chão, doutor! Eu machuquei a mão, não o pé — completo, sentindo meu rosto esquentar.
Não acredito que esse nerd está me fazendo corar numa situação dessas.
— Eu vou voltando para o restaurante, então — diz o garçom, com um sorriso sem graça, enquanto se afasta.
— Você perdeu muito sangue? — pergunta Joel, preocupado, enquanto me leva até o carro.
— Você é muito exagerado, doutor. O que está pensando? Que vou precisar de transfusão de sangue? — digo, incrédulo, passando os braços em volta do seu ombro.
— Temos que considerar todas as possibilidades — responde Joel, me segurando firme com um braço enquanto abre a porta do carro com o outro.
— Nossa... — murmuro, enquanto ele me ajuda a sentar no banco.
Joel me leva até o hospital, mas, quando estaciona, algo nele parece diferente. Ele está estranho... desconfortável.
— Eu vou te esperar aqui no carro — diz Joel, desviando o olhar.
— O quê? Você não vai comigo? — digo, incrédulo.
— Até um momento atrás você estava me carregando no colo.
— É que... — ele começa, mas não termina.
— Nossa — digo, frustrado, enquanto abro a porta do carro.
— Cadê aquele nerd romântico? — acrescento antes de fechar a porta.
Entro no hospital e sigo até a recepção para preencher a ficha.
— Veio sozinho? — pergunta a recepcionista, enquanto digitava as informações.
— Sim... — respondo, hesitante.
— Não — diz Joel, aproximando-se rapidamente.
— Ele está com acompanhante. Eu sou o responsável por ele — acrescenta, com um sorriso claramente forçado.
— Mas o caso dele nem é grave — comenta a recepcionista, incrédula diante do exagero de Joel.
— Não liga pra ele, ele é um pouco exagerado — digo, tentando disfarçar o riso.
— Por ali, senhor. Vá até a sala de curativos — orienta a recepcionista, apontando para o corredor.
— Obrigado — digo, seguindo pelo corredor.
Olho para trás e vejo Joel parado na recepção.
— Ei, acompanhante! — chamo, acenando.
Joel me olha, visivelmente desconfortável, e, depois de alguns segundos, vem até mim.
O que está acontecendo com ele? Por que está assim?
Entro na sala de curativos, e o médico começa a limpar o ferimento. Joel se senta ao meu lado, ainda tenso e inquieto.
— Pronto — diz o médico, enquanto coloca a gaze.
— Agora vou aplicar a anestesia — acrescenta, aproximando a injeção do meu dedo.
— Aaaaahhh!!! — grita Joel, apavorado ao ver a agulha. Em seguida, fecha os olhos, com as mãos tremendo.
— Joel?! — digo, assustado com a reação dele.
— Por acaso você tem medo de agulha? — pergunta o médico.
— N-não ligue para mim... pode continuar — diz Joel, com a voz trêmula.
— Se o senhor não se sente confortável, pode esperar lá fora — sugere o médico.
— Eu sou o acompanhante... e vou ficar com ele até o fim — afirma Joel, ainda tremendo, mas firme.
Fico observando Joel. Ele está visivelmente nervoso, o corpo tenso. Cobre os olhos com força enquanto o médico faz os pontos. Mesmo assim, não se levanta, não recua.
Quando tudo termina, caminhamos em silêncio até o carro.
Crio coragem e digo:
— Me desculpa, Joel... eu não devia ter feito você passar por isso...
— Está tudo bem... você não sabia — responde ele, abrindo a porta do carro.
Durante todo o percurso até o restaurante, Joel permanece sério, sem dizer uma palavra. Estou me sentindo culpado. Eu devia ter percebido os sinais.
Quarta-feira, 18 de março de 2026
É de manhã. Ainda estou pensando no Joel. Não sabia que ele tinha medo de agulhas. Mas a culpa é dele — ele que se ofereceu para ir comigo. Em nenhum momento coloquei uma arma na cabeça dele e o obriguei a ir.
De repente, alguém toca a campainha.
Levanto do sofá e vou até a porta. Ao abrir, me deparo com Joel.
— Bom dia, minha estrela da cozinha — diz ele, com um sorriso.
Percebo que está com as mãos para trás das costas. Tem algo ali.
— O que você está escondendo aí? — pergunto, desconfiado.
— Para você, amor — diz ele, mostrando uma caixinha. É a caixa de um celular. — Como fui o responsável pelo seu celular ter quebrado, me senti na obrigação de te dar um novo.
— Joel, eu disse aquilo brincando — digo, chocado, pegando a caixa. — Não era para você levar ao pé da letra.
Olho melhor para a embalagem e me surpreendo. É de uma marca cara.
— Será que eu sou digno de entrar e tomar café com você? — pergunta Joel, um pouco receoso.
— Pode entrar — respondo, com um sorriso, dando espaço para ele.
Joel entra, tira os sapatos e fica só de meia.
— Agora você não vai ter desculpas para responder minhas mensagens — diz ele, confiante, enquanto se senta no sofá. — A não ser que o celular quebre de novo.
— Desculpa por ontem. Se eu soubesse que você tinha medo de agulhas, eu não teria...
— Tá tudo bem, chefe — Joel me interrompe rapidamente. — É um assunto sensível para mim, então... vamos mudar de assunto.
— Olha, quero deixar uma coisa bem clara: eu não gosto de você — digo com convicção. — Só voltamos a nos ver por causa da minha rotina.
— Eu sei... a nossa rotina de 15 anos. Você não quer quebrá-la de uma vez — diz Joel, sem tirar os olhos de mim.
— Exatamente. Temos que deixar de nos ver aos poucos — respondo, com naturalidade.
— A teoria do impacto emocional realmente faz sentido — diz Joel, todo bobo.
— Ah, não... de novo com essa história? — retruco, frustrado.
— Você já me amava, Ariel — diz Joel, com firmeza na voz. — A bolada só quebrou o cadeado onde o amor estava aprisionado.
— Para de dizer isso — falo, sentindo o rosto esquentar.
— Aceita ir a um encontro romântico comigo? — pergunta Joel, decidido. — Vou provar que você me ama.
— Eu não... — respondo, incrédulo.
— Eu sabia — interrompe Joel, com um sorriso satisfeito. — Você está na fase de negação.
— Tá bom, eu aceito — digo, com a voz cansada. — Mas tem que ser hoje.
— Sério?! — grita Joel, incrédulo.
— Hoje eu não vou para o restaurante — explico, olhando para ele. — Que horas fica bom para você?
Joel para, e começa a pensar sério, como se estivesse resolvendo um problema complexo.
— Bom... eu saio do laboratório às 17h — começa ele. — Tempo médio até minha casa: 25 minutos, considerando trânsito moderado.
Banho: 15 minutos.
Escolher roupa adequada para um encontro com você... — ele faz uma pausa dramática — pelo menos 20 minutos.
Ele faz contas no ar com os dedos.
— Então temos:
T = 17h + 0,42h (deslocamento) + 0,25h (banho) + 0,33h (preparação emocional e estética).
Ele sorri satisfeito com o próprio cálculo.
— Resultado final: estarei pronto exatamente às 18h. Margem de erro de dois minutos, no máximo.
— Meu Deus, ele fez uma equação para sair comigo... — digo, sem acreditar.
— Às 18h eu passo aqui para te buscar — diz Joel, com confiança na voz.
— Então, fechado. Às 18h teremos nosso primeiro e último encontro romântico — afirmo, com convicção.
— É o que vamos ver — responde Joel, com firmeza. — Eu vou te fazer corar, eu prometo.
Nossa... ele me olha com tanta certeza, como se já tivesse ganhado o grande prêmio — que, no caso, sou eu.