Sábado, 14 de março de 2026
É de manhã, e as palavras do Ariel ainda ecoam na minha mente.
Ele disse que tem nojo de mim.
Só de lembrar disso, meus olhos se enchem de lágrimas.
— Acho melhor eu desistir do Ariel… — digo com a voz trêmula, enquanto abraço o travesseiro.
Eu amo o Ariel há 15 anos.
Sou um incômodo na vida dele há 15 anos.
Eu preciso seguir em frente.
— Eu vou te superar, Ariel — digo, com firmeza, enquanto me sento na cama. — Você não merece minhas lágrimas.
Enxugo o rosto, tentando me recompor.
Pego meu caderno — o mesmo onde escrevi a teoria do impacto emocional.
— Isso não passa de uma teoria sem fundamento — murmuro, frustrado, enquanto caminho até a lixeira.
Abro o caderno, pronto para arrancar as folhas.
Mas, de repente, meu celular vibra.
— Quem será? — digo, com a voz cansada, enquanto caminho até ele.
Assim que desbloqueio a tela, meu corpo se arrepia.
É uma mensagem do Ariel.
— Será que estou sonhando? — digo, incrédulo, enquanto coloco os óculos. — Não pode ser! — completo, chocado.
Eu estava bloqueado no celular do Ariel há muito tempo.
Mas por que ele me desbloqueou?
Abro a mensagem.
"Oi, nerd. Bom dia. Eu gostaria de me desculpar com você. Eu não queria dizer aquelas coisas. Falei da boca pra fora. Eu não tenho nojo de você."
— Eu não acredito… — digo, ainda incrédulo. — Ele está se desculpando? É isso mesmo?
Com certeza o celular dele foi hackeado. Não tem outra explicação.
— Quem é você? Isso é algum golpe? — escrevo, com as mãos trêmulas.
— Para de graça, nerd 🙄 — escreve Ariel.
— Desculpa… — escreve novamente.
— Você quer se desculpar? É isso mesmo? 🥹 — escrevo.
— Sim, eu peguei pesado ontem 😥 — responde Ariel.
— Para falar a verdade, ainda não acredito que é você 🤔 — escrevo.
— Sou eu — responde Ariel.
— Só vou ter certeza quando eu ouvir isso da sua boca — escrevo.
— Tá bom, então. Vamos nos encontrar — responde Ariel.
— Onde? — escrevo.
— Me encontra na lanchonete aqui perto de casa — responde ele.
— Indo — escrevo, com as mãos trêmulas.
— O Ariel está com remorso… — digo, incrédulo, enquanto olho para o meu caderno.
— Eu vou ter um encontro com o Ariel! — grito, correndo para o banheiro.
Depois de tomar um banho, peguei meu carro e fui voando até a lanchonete. Chego lá e me sento.
Meu coração está acelerado.
— Joel, se acalma… — digo, levando a mão ao peito. — Mesmo que o Ariel queira se desculpar, ele não gosta de mim… — completo, com a voz triste.
Peço uma torta salgada e começo a comer, tentando me distrair.
— Bom dia.
Reconheço a voz na mesma hora. Levanto o olhar. Ariel está vindo na minha direção. Ele se aproxima e se senta à minha frente.
— Diga logo o que você queria dizer — falo, um pouco frio.
— Me desculpa por ter dito aquelas coisas — diz Ariel, de cabeça baixa.
— Mas você disse, não disse? — respondo, com um leve rancor na voz.
— A culpa é sua, Joel. Você fica fazendo essas declarações em público — diz Ariel, me olhando. — Você sabe muito bem que eu não gosto disso.
— Tudo bem, então. A partir de hoje, não vou mais te incomodar — digo, antes de levar o garfo à boca.
— O quê? — diz Ariel, chocado, incrédulo.
— É o que você quer, não é? — pergunto, surpreso com a reação dele.
— Sim. É o que eu mais quero — diz Ariel, com firmeza. — Você sabe muito bem que eu não sinto nada por você.
Ouvir isso faz meu coração se despedaçar.
— Tudo bem, então… A partir de hoje, não te incomodo mais — digo, com a voz trêmula, tentando segurar o choro.
— Desculpa, Joel. Você é um cara legal — diz Ariel, com cuidado. — Mas você não faz meu tipo.
— Tudo bem, Ariel. Você não precisa pedir desculpas — respondo, olhando para a torta. — Eu finalmente percebi que fui muito inconveniente com você.
Respiro fundo.
— Eu te persegui por quinze anos…
— Espero que você encontre alguém que te ame muito — diz Ariel, com um sorriso fraco. — Para que você possa dar todo esse amor que você guarda.
— Obrigado pelas palavras, Ariel — digo, enquanto me levanto.
— Tá bom, então… — responde Ariel, também se levantando. — E… desculpa mais uma vez.
— Adeus — digo, com a voz trêmula, enquanto saio dali.
Entro no carro e já não consigo mais conter as lágrimas.
— Ariel… — sussurro, chorando, enquanto apoio a testa no volante. — Eu te amo…
Pego meu celular e abro a conversa com ele. Fico olhando para a foto de perfil por alguns segundos.
Abraço o celular contra o peito… e choro ainda mais.
É de tarde. Acabei de terminar mais um experimento e agora estou indo à casa do doutor Prado levar o relatório.
Chego lá e o encontro com seu filho. É Augusto Prado, um ator bem famoso, que já fez inúmeras novelas e programas de sucesso.
— Boa tarde, senhor — digo, enquanto me aproximo. — Vim trazer o relatório do teste.
— Boa tarde, doutor Martins — responde o doutor Prado, com um sorriso. — Olha quem veio visitar o pai — acrescenta, colocando o braço ao redor dos ombros de Augusto.
— E aí, doutor Martins — diz Augusto, forçando um sorriso.
Cadê toda aquela simpatia que vejo na televisão?
— Boa tarde — respondo, um pouco sem jeito diante da reação dele.
— Você quer ir jantar com a gente? — pergunta o doutor Prado, pegando o relatório da minha mão. — Fiz uma reserva no restaurante do chef Ariel.
— É melhor não — digo, desconfortável. — Não quero atrapalhar vocês.
Na verdade, eu só não quero ver o Ariel. Se eu o vir, tenho medo de não me segurar. Prometi a ele que não o incomodaria mais.
— Deixa de bobagem, Joel — diz o doutor Prado, passando o braço pelos meus ombros. — Você sabe que não me incomoda.
O doutor Prado insiste tanto… que eu acabo cedendo.
É de noite. Chego em casa, tomo um banho e logo vou me encontrar com eles no restaurante do Ariel.
Nós três nos sentamos à mesa. De repente, Ariel surge. Ele abre um sorriso assim que vê Augusto Prado.
— Boa noite — diz Ariel, sorrindo enquanto se aproxima. — Que honra tê-los aqui.
— É que eu falei tanto da sua comida para o meu filho que ele ficou curioso para provar — diz o doutor Prado.
— Quero confirmar se é tudo isso que o papai diz — comenta Augusto, cheio de si.
— Tenho certeza de que será do seu agrado — responde Ariel, com confiança.
Fico olhando para a mesa, tentando ao máximo evitar qualquer contato visual com ele.
— Chefe — chama um dos funcionários.
— Com licença, preciso voltar à cozinha — diz Ariel, afastando-se. — Fiquem à vontade.
Depois de um tempo, a comida chega. Augusto se surpreende e elogia.
— Nossa… é realmente muito bom — diz, incrédulo.
— Eu te falei — responde o doutor Prado, satisfeito.
— Com licença — diz uma mulher, aproximando-se da mesa. Ela está com o celular nas mãos.
— Se for para tirar foto, não perca seu tempo — diz Augusto, com arrogância. — Não estou com vontade no momento.
— Mas eu não vim por causa do senhor — rebate a mulher.
— O quê? — diz Augusto, incrédulo.
— Eu posso tirar uma foto com você? — pergunta ela, tímida, virando-se para mim. — É que eu sou muito fã do seu trabalho, doutor Martins.
— Ah, sim, claro — digo com um sorriso.
— Obrigada — diz ela, se aproximando para tirar a foto. — Ficou perfeito! — comenta, encantada, ao olhar a imagem no celular.
— Obrigada, doutor — acrescenta, antes de se afastar.
Augusto começa a me olhar com julgamento. Acho que ele não gostou do fato de a mulher ter pedido uma foto comigo, e não com ele.
— Eu vou ao banheiro, já volto — digo, levantando-me.
Caminho até o banheiro e, assim que entro, Augusto vem logo atrás de mim.
— Você se acha muito, né, doutor? — diz ele, incrédulo.
— Não estou entendendo — respondo, confuso.
— Se acha famoso… um bonitão — provoca Augusto.
— E por que eu não poderia ser? — retruco, ainda sem entender. — Sou um doutor de prestígio. Qual é o problema em tirar fotos com pessoas que admiram o meu trabalho?
— Não acredito que alguma mulher consiga te ver como homem — diz Augusto, friamente.
Antes que eu possa responder, a porta do banheiro se abre de repente. Ariel entra.
— Por que você está dizendo essas coisas para o doutor Martins? — pergunta Ariel, confuso, aproximando-se.
— Eu só estou sendo realista. O doutor Martins estava agindo como uma celebridade — responde Augusto.
— E por que ele não pode ser? — retruca Ariel. — O doutor já fez grandes coisas pela física e já deu entrevistas na televisão e em podcasts. Ele é, sim, uma celebridade.
Ouvir isso aquece meu coração. Não acredito que o Ariel está me defendendo.
— Pode até ser… mas ele nunca vai fazer sucesso com as mulheres — debocha Augusto. — Meu corpo é perfeito.
— Eu não preciso virar um padrão metido para aquecer o coração de alguém — rebato, incrédulo.
— Não me faça rir. Acha mesmo que, se tivesse uma mulher aqui, ela preferiria sair com você em vez de mim? — diz Augusto, em tom de julgamento. — Chefe Ariel, você é gay, não é? Se tivesse a oportunidade de sair com um de nós dois, quem escolheria? Eu ou o doutor Martins? — acrescenta, olhando para Ariel.
— Você está falando sério? — pergunta Ariel, totalmente incrédulo.
— Sim. Então diga… se tivesse a chance, com quem sairia? — insiste Augusto, confiante. — Quem você escolheria?
Ariel não responde. Apenas fica em silêncio, olhando para nós dois.
Mas é em Augusto que o olhar dele parece se fixar por mais tempo.
A resposta já está clara.
É óbvio que ele escolheria alguém como Augusto — bonito, confiante, perfeito.
Não alguém como eu.
Um magricela qualquer.