Quando começo a escrever, nem sempre tenho a personalidade de cada personagem completamente definida. Em alguns casos, isso até facilita a construção dos diálogos, porque consigo estabelecer quem vai dizer determinada fala e de que maneira, sem ficar presa a características previamente rígidas.
À medida que o personagem participa das cenas, sua própria voz começa a surgir de forma mais clara. Quando isso acontece, fica mais fácil expandi-lo em novos diálogos e capítulos, porque sua identidade já começa a se consolidar de maneira orgânica.
A voz de um personagem, porém, não aparece apenas naquilo que ele diz. Ela também está presente na narração da cena, na forma como ele percebe outras pessoas, em suas reações, sentimentos, pensamentos e até na maneira como o narrador descreve suas ações.
Por exemplo:
Marcela saiu da sala chateada, pois já não aguentava mais ouvir a voz irritante da prima de doze anos. Assim que chegou ao pé da escada, ouviu a voz de Clarice ficando mais alta e percebeu que ela havia vindo atrás dela.
— Prima, por que você não me respondeu?
Marcela revirou os olhos, desejando poder desaparecer daquele lugar.
— Eu não sou obrigada a responder nada a uma pirralha metida a sabichona — disse, enquanto subia as escadas.
— Eu não sou uma pirralha! Você que é uma velha! — gritou Clarice, já chorando.
Marcela começou a rir da tentativa da prima de ofendê-la.
Mesmo em uma cena simples, é possível perceber traços das duas personagens. Marcela demonstra impaciência, ironia e certa crueldade na forma como reage. Clarice, por outro lado, parece mais impulsiva, emotiva e infantil. Essas características surgem tanto pelas falas quanto pelas ações e reações de cada uma.