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Colecionador de ruínas

unglamorous
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I

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NunoParreira

Só quando voltei ao início dei pela criança. Na primeira parte ela está na lista como mais uma coisa guardada, entre a caneta sem tinta e a carta por acabar, e só na parte II se percebe que é o miúdo que ele foi. Isso deixou-me a olhar para a lista inteir

Só quando voltei ao início dei pela criança. Na primeira parte ela está na lista como mais uma coisa guardada, entre a caneta sem tinta e a carta por acabar, e só na parte II se percebe que é o miúdo que ele foi. Isso deixou-me a olhar para a lista inteira de outra maneira, como se tudo o resto fosse o que ficou à volta dele.

Conteúdo da publicação

Antologia de Órion

I

Uma caneta sem tinta eu guardo.

Uma nota já apagada eu guardo.

Um par de meias trocadas eu guardo.

Um panfleto daquele dia eu guardo.

Uma foto de outrem eu guardo.

Um arranjo de flores secas eu guardo.

Uma carta inacabada eu guardo.

Uma prosa de outrora eu guardo.

Um rosto que não conheço eu guardo.

Uma memória tortuosa eu guardo.

Um nome que já beijei eu guardo.

Um rastro de amor passado eu guardo.

Um sonho tão íntimo eu guardo.

Um desejo tão obscuro eu guardo.

Um questionamento de fatos eu guardo.

Uma morte idealizada eu guardo.

Uma criança que se foi eu guardo.

II

Ao vasculhar minhas memórias, eu terminei vendo o menino que já fui.

Tímido. Sonhador.

— deslocado.

Ele sempre fora deslocado, estranhamente não pertencíamos. Ao ponto da minha tia me chamar de esquisito.

— esquisito.

Essa criança se tornou pra si, e somente a si ela se confessou. Saiu sem abrir a porta. E nunca mais retornou.

Sonhador sempre fui, ao ponto de sonhar sonhos que minha criança não sonhou.

Infelizmente, essa criança escutou:

“talvez você não esteja preparado pra viver o seu sonho”

Com essas palavras, de uma amiga que nunca me alcançou, me vi flagelado enquanto protegia a criança que já se foi.

Quando eu finalmente abri uma janela, fui invadido por ideais de alguém que não me atravessa.

Fechei a janela.

Voltei a mim.

– me deixem dormir.

Eu falei enquanto me pus a sonhar e voltar, a talvez, sorrir.

III

Estou preso no conceito de esvair,

no presente que me vejo a cair.

Para bem longe eu preciso sumir,

surgir tenho pra poder me despir.

Sou um colecionador de ruínas,

tão lindas que se tornaram sinas,

com toque daquela seda tão fina,

que desbota nessa vida que termina.

IV

Eu sei quem eu preciso ser

Aquele que já fui, há muito,

Movido às paixões do mundo,

Eterno pela estrada afora.

Me encontro pensando que talvez

Eu seja apenas uma lembrança

Nas memórias dos meus amantes,

Vívido com todas aquelas dores.

Eu sou o que já fui?

Fechei os olhos.

O verão acabou.

Órion se foi.

De fato, eu já fui.

Não sei quem sou.

Mas sonho em quem serei.

Thoughts

  • brunocosta

    Fiquei parado aqui.

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  • Rui_Salgueiro

    As meias trocadas, pá.

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  • RenataAlmeida

    No hemisfério sul o Órion é a constelação das noites de verão, e vai desaparecendo do céu quando a estação acaba. Agradou-me muito perceber que aqueles três versos finais batem certo com o céu de verdade.

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  • NunoParreira

    Só quando voltei ao início dei pela criança. Na primeira parte ela está na lista como mais uma coisa guardada, entre a caneta sem tinta e a carta por acabar, e só na parte II se percebe que é o miúdo que ele foi. Isso deixou-me a olhar para a lista inteira de outra maneira, como se tudo o resto fosse o que ficou à volta dele.

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  • Ovid

    O menino tímido e sonhador que sai sem abrir a porta me fez pensar em quanta gente chega aqui carregando essa mesma criança. Aposto que a coleção de ruínas ainda vai ganhar peças, e que quem você vai ser aparece nelas. Bem-vindo ao Seavien, e obrigado por começar com esse poema!

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  • versoAlheio

    Cara, eu guardo, eu guardo, eu guardo... na terceira estrofe eu já tava repetindo junto. Você tem mais poemas sobre esse menino tímido e sonhador?

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