O menino tímido e sonhador que sai sem abrir a porta me fez pensar em quanta gente chega aqui carregando essa mesma criança. Aposto que a coleção de ruínas ainda vai ganhar peças, e que quem você vai ser aparece nelas. Bem-vindo ao Seavien, e obrigado por começar com esse poema!
Colecionador de ruínas
I
Em séries
In groups
Pensamento
O menino tímido e sonhador que sai sem abrir a porta me fez pensar em quanta gente chega aqui carregando essa mesma criança. Aposto que a coleção de ruínas ainda vai ganhar peças, e que quem você vai ser aparece nelas. Bem-vindo ao Seavien, e obrigado por
Conteúdo da publicação
Antologia de Órion
I
Uma caneta sem tinta eu guardo.
Uma nota já apagada eu guardo.
Um par de meias trocadas eu guardo.
Um panfleto daquele dia eu guardo.
Uma foto de outrem eu guardo.
Um arranjo de flores secas eu guardo.
Uma carta inacabada eu guardo.
Uma prosa de outrora eu guardo.
Um rosto que não conheço eu guardo.
Uma memória tortuosa eu guardo.
Um nome que já beijei eu guardo.
Um rastro de amor passado eu guardo.
Um sonho tão íntimo eu guardo.
Um desejo tão obscuro eu guardo.
Um questionamento de fatos eu guardo.
Uma morte idealizada eu guardo.
Uma criança que se foi eu guardo.
II
Ao vasculhar minhas memórias, eu terminei vendo o menino que já fui.
Tímido. Sonhador.
— deslocado.
Ele sempre fora deslocado, estranhamente não pertencíamos. Ao ponto da minha tia me chamar de esquisito.
— esquisito.
Essa criança se tornou pra si, e somente a si ela se confessou. Saiu sem abrir a porta. E nunca mais retornou.
Sonhador sempre fui, ao ponto de sonhar sonhos que minha criança não sonhou.
Infelizmente, essa criança escutou:
“talvez você não esteja preparado pra viver o seu sonho”
Com essas palavras, de uma amiga que nunca me alcançou, me vi flagelado enquanto protegia a criança que já se foi.
Quando eu finalmente abri uma janela, fui invadido por ideais de alguém que não me atravessa.
Fechei a janela.
Voltei a mim.
– me deixem dormir.
Eu falei enquanto me pus a sonhar e voltar, a talvez, sorrir.
III
Estou preso no conceito de esvair,
no presente que me vejo a cair.
Para bem longe eu preciso sumir,
surgir tenho pra poder me despir.
Sou um colecionador de ruínas,
tão lindas que se tornaram sinas,
com toque daquela seda tão fina,
que desbota nessa vida que termina.
IV
Eu sei quem eu preciso ser
Aquele que já fui, há muito,
Movido às paixões do mundo,
Eterno pela estrada afora.
Me encontro pensando que talvez
Eu seja apenas uma lembrança
Nas memórias dos meus amantes,
Vívido com todas aquelas dores.
Eu sou o que já fui?
Fechei os olhos.
O verão acabou.
Órion se foi.
De fato, eu já fui.
Não sei quem sou.
Mas sonho em quem serei.
Thoughts
-
PermalinkFiquei parado aqui.
-
PermalinkAs meias trocadas, pá.
-
PermalinkNo hemisfério sul o Órion é a constelação das noites de verão, e vai desaparecendo do céu quando a estação acaba. Agradou-me muito perceber que aqueles três versos finais batem certo com o céu de verdade.
-
PermalinkSó quando voltei ao início dei pela criança. Na primeira parte ela está na lista como mais uma coisa guardada, entre a caneta sem tinta e a carta por acabar, e só na parte II se percebe que é o miúdo que ele foi. Isso deixou-me a olhar para a lista inteira de outra maneira, como se tudo o resto fosse o que ficou à volta dele.
-
PermalinkO menino tímido e sonhador que sai sem abrir a porta me fez pensar em quanta gente chega aqui carregando essa mesma criança. Aposto que a coleção de ruínas ainda vai ganhar peças, e que quem você vai ser aparece nelas. Bem-vindo ao Seavien, e obrigado por começar com esse poema!
-
PermalinkCara, eu guardo, eu guardo, eu guardo... na terceira estrofe eu já tava repetindo junto. Você tem mais poemas sobre esse menino tímido e sonhador?
Related posts
-
Amar fora de estação
Nunca houve promessa de pertencimento, senão a certeza do inevitável distanciamento. Uns se conformaram com o fato do esvaecimento, outros sabotaram por receio do afastamento.
-
Uma jornada de exaustão
Prometo.
-
Cheiro de ciao
O sal que consome o ferro
-
Uníssono - Capítulo 1
Antologia de Órion
-
Uníssono - Capítulo 2
Antologia de Órion
-
A palavra liberta a alma; o silêncio aprisiona e corrói o espírito.
A maior verdade que temos é que nada podemos sobre o outro.
-
EROS E TÂNATOS
EROS E TÂNATOS
-
Colecionador de poesias - Catarse do eu
Depois do sufoco resta aquilo que