Nossa, papibaquígrafo. Fui procurar no dicionário e voltei rindo, uai. Gostei demais de achar essa palavra no meio de tanto Dionísio.
Colecionador de poesias - Catarse do eu
Depois do sufoco resta aquilo que
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Pensamento
Nossa, papibaquígrafo. Fui procurar no dicionário e voltei rindo, uai. Gostei demais de achar essa palavra no meio de tanto Dionísio.
Conteúdo da publicação
depois do sufoco resta aquilo que não pôde ser dito.
Catarse
Ciclos finamente encerram
O tempo que fora para sonhar
Sobre aqueles que tanto erram
Restou apenas sonhos a delirar.
.
Catarse essa que avassala
Quem era posto como vassalo
Na sala do destino incongruente,
Daquele tempo inconsequente.
.
Cultura vívida eu fiz parte,
Me deixando completamente aparte
Do âmago que fora estrutura,
Resultando nesse ser de loucura.
.
Cruel tornei-me inerente
Ao próprio ser existente.
O preço precisa ser pago
Para de volta ter aquele afago.
.
Expurgar
Compulsões e desilusões,
Por que tantas alienações.
Repetindo tanto feito uma canção,
Me desculpando já de antemão.
.
Escuto aquela cantiga de ninar
Me atraindo para o temido limiar.
Porém observo a querer chorar
Por não conseguir enxergar… ou seria perdoar?
.
“Navegue até mim”, escuto,
Porém o destino é obscuro.
Drenado por promessas anciãs
Vindas de ideias supostamente sãs.
.
Azul celeste o si se despede
Ao abissal, ele se inverte.
O frio espinhal me anuncia.
Para a catacumba meu ser se submete.
.
“Navegue até mim”, ainda escuto
Enquanto faço este expurgo.
Expurgo de algo que não sei,
Mas que supostamente saberei.
.
Baco
Sabe o que é engraçado?
Eu ter me tornado um degradado.
Porém ternura sempre fui,
Tomado pela nudez que me expus.
.
A Baco sempre fora associado
Enquanto nevava no deserto árido.
Branco, esse cheio de resplendor,
A escamotear o próprio prestidigitador.
.
Dionísio dissera que era festa.
Fui tragado até o que não me resta.
Cultura criada por um mito,
Escravo me tornei daquele rito.
.
Nebuloso é o tempo que se fora,
Apagado pela névoa afora.
Tornado-me vassalo daquele bendito.
Maldito veneno se tornou Dionísio.
.
Tordo
Articulado por um idólatra
Em ventríloquo ele torce minha forma
E deforma meu ser em um sonho idiólatra
— minha voz presa numa redoma
.
Sem enxergar em mim o desejo de voar
juntei as ruínas e me refiz
à imagem daquele tordo
que voava nas janelas do entorno
.
Para longe do ideal de outrem
Pus-me a planar em pêndulo
Ensandecido em rumar ao infinito
longe do proscênio daquele mito
.
Aquele tordo que sempre estivera a voar
viu em mim um igual a se aproximar
veio ao encontro e se estraçalhou na vidraça
enquanto eu, preso ao fio, contemplava outra carcaça
.
Utopia
Encharcado pelo pulsar das vísceras
Vislumbrando as supostas víboras
À entropia estou ascendendo
Ao compasso da retrotopia vou descendo
.
Âmago e âmbar veem em uníssono
Por motivos nebulosos de antônimos
Cristalização do subconsciente
Fricção hedônica dolente
.
No paço antigo em que outrora fui vassalo
no fosso escuro inda assinalo o moço
sibila o limiar que abre ao insone
veneno e verso, a mesma dor que me consome
.
Nesse Parnaso guardo inteiro o meu eu
fiel ao deus do belo que antes foi seu
mínimo, humilde, singelo e franco
imploro à utopia um fim, um remanso
.
Entropia
Spinoza, essa prosa tentará ser
e na disfunção da ordem irão ver
poesia e mitos moldados em função
de um conceito que vem na contramão
.
Serpentino as serpentinas das eras
Serpentinas inerentes àquelas festas
Serpenteando os sentidos internos
Serpente a serpentear infernos
.
Maculado pelo falso deus me tornei
Imaculado na fé desse ser finquei
Profanando o algoz emproado
Deificando-se no suposto simulacro
.
No beco das vielas me encontro
Mais uma vez preso no desencontro
Entre o fascínio e o declínio do ego
Papibaquígrafo de sentido inverso
.
Linhas em branco
Em rito me fiz de mito
Para uma muralha erguer
Mal sabia que o que era dito
Seria o fardo de me abster
.
O que antes era concreto
Se tornou uma redoma
Estilhaçando-se sob o teto
De vidro que a ilusão retoma
.
Os cacos produziram cicatrizes
Brancas como aquelas linhas
A fissurar enquanto maldizes
Vício de outrora deveras minhas
.
Catarse do eu
Baco fora embora trotando,
Deixando o menino se matando.
Algo realmente precisou morrer
Para que ele pudesse entender.
.
Na tratativa desse reencontro,
Sinto falta do meu encanto.
Olhando pra trás, eu invoco
Aquele vulto cheio de foco.
.
Clamo pelo sujeito de outrora,
Outrem que já fora embora.
Afora, se danou a esvair,
Surgir eu tive para me despir.
.
Oco do oco no sem fim,
Já dizia o bendito Serafim.
Insolente ao destino me fiz;
No final, vassalo me desfiz.
.
Retrotopia
No centro do antigo planalto árido
Névoa de ouro e diamante reluz
Sobre esse ser que fora ávido
Ao inescrutável que seduz.
.
Cintila a centelha de morte,
Pútrida e nevada pela mortalha.
Invisível aos errantes que ovacionam
A cultura morta de outrora.
.
Prestidigitador ele se faz,
Cheio de graça e de travessura,
Epifanias e catarses em entropia —
Mas a quem ele ludibria?
Encontra-se ainda na retrotopia
Thoughts
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PermalinkO tordo que se estraçalha na vidraça enquanto o outro fica preso ao fio me fez pensar em quem vê um amigo se soltar primeiro e continua ali, no mesmo lugar, olhando. Aposto que esse foi o poema mais difícil de colocar no meio da coleção, porque é o único com um bicho de verdade dentro. Obrigado por juntar tudo aqui :)
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PermalinkNossa, papibaquígrafo. Fui procurar no dicionário e voltei rindo, uai. Gostei demais de achar essa palavra no meio de tanto Dionísio.
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