O tordo que se estraçalha na vidraça enquanto o outro fica preso ao fio me fez pensar em quem vê um amigo se soltar primeiro e continua ali, no mesmo lugar, olhando. Aposto que esse foi o poema mais difícil de colocar no meio da coleção, porque é o único com um bicho de verdade dentro. Obrigado por juntar tudo aqui :)
Colecionador de poesias - Catarse do eu
Depois do sufoco resta aquilo que
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O tordo que se estraçalha na vidraça enquanto o outro fica preso ao fio me fez pensar em quem vê um amigo se soltar primeiro e continua ali, no mesmo lugar, olhando. Aposto que esse foi o poema mais difícil de colocar no meio da coleção, porque é o único
Conteúdo da publicação
depois do sufoco resta aquilo que não pôde ser dito.
Catarse
Ciclos finamente encerram
O tempo que fora para sonhar
Sobre aqueles que tanto erram
Restou apenas sonhos a delirar.
.
Catarse essa que avassala
Quem era posto como vassalo
Na sala do destino incongruente,
Daquele tempo inconsequente.
.
Cultura vívida eu fiz parte,
Me deixando completamente aparte
Do âmago que fora estrutura,
Resultando nesse ser de loucura.
.
Cruel tornei-me inerente
Ao próprio ser existente.
O preço precisa ser pago
Para de volta ter aquele afago.
.
Expurgar
Compulsões e desilusões,
Por que tantas alienações.
Repetindo tanto feito uma canção,
Me desculpando já de antemão.
.
Escuto aquela cantiga de ninar
Me atraindo para o temido limiar.
Porém observo a querer chorar
Por não conseguir enxergar… ou seria perdoar?
.
“Navegue até mim”, escuto,
Porém o destino é obscuro.
Drenado por promessas anciãs
Vindas de ideias supostamente sãs.
.
Azul celeste o si se despede
Ao abissal, ele se inverte.
O frio espinhal me anuncia.
Para a catacumba meu ser se submete.
.
“Navegue até mim”, ainda escuto
Enquanto faço este expurgo.
Expurgo de algo que não sei,
Mas que supostamente saberei.
.
Baco
Sabe o que é engraçado?
Eu ter me tornado um degradado.
Porém ternura sempre fui,
Tomado pela nudez que me expus.
.
A Baco sempre fora associado
Enquanto nevava no deserto árido.
Branco, esse cheio de resplendor,
A escamotear o próprio prestidigitador.
.
Dionísio dissera que era festa.
Fui tragado até o que não me resta.
Cultura criada por um mito,
Escravo me tornei daquele rito.
.
Nebuloso é o tempo que se fora,
Apagado pela névoa afora.
Tornado-me vassalo daquele bendito.
Maldito veneno se tornou Dionísio.
.
Tordo
Articulado por um idólatra
Em ventríloquo ele torce minha forma
E deforma meu ser em um sonho idiólatra
— minha voz presa numa redoma
.
Sem enxergar em mim o desejo de voar
juntei as ruínas e me refiz
à imagem daquele tordo
que voava nas janelas do entorno
.
Para longe do ideal de outrem
Pus-me a planar em pêndulo
Ensandecido em rumar ao infinito
longe do proscênio daquele mito
.
Aquele tordo que sempre estivera a voar
viu em mim um igual a se aproximar
veio ao encontro e se estraçalhou na vidraça
enquanto eu, preso ao fio, contemplava outra carcaça
.
Utopia
Encharcado pelo pulsar das vísceras
Vislumbrando as supostas víboras
À entropia estou ascendendo
Ao compasso da retrotopia vou descendo
.
Âmago e âmbar veem em uníssono
Por motivos nebulosos de antônimos
Cristalização do subconsciente
Fricção hedônica dolente
.
No paço antigo em que outrora fui vassalo
no fosso escuro inda assinalo o moço
sibila o limiar que abre ao insone
veneno e verso, a mesma dor que me consome
.
Nesse Parnaso guardo inteiro o meu eu
fiel ao deus do belo que antes foi seu
mínimo, humilde, singelo e franco
imploro à utopia um fim, um remanso
.
Entropia
Spinoza, essa prosa tentará ser
e na disfunção da ordem irão ver
poesia e mitos moldados em função
de um conceito que vem na contramão
.
Serpentino as serpentinas das eras
Serpentinas inerentes àquelas festas
Serpenteando os sentidos internos
Serpente a serpentear infernos
.
Maculado pelo falso deus me tornei
Imaculado na fé desse ser finquei
Profanando o algoz emproado
Deificando-se no suposto simulacro
.
No beco das vielas me encontro
Mais uma vez preso no desencontro
Entre o fascínio e o declínio do ego
Papibaquígrafo de sentido inverso
.
Linhas em branco
Em rito me fiz de mito
Para uma muralha erguer
Mal sabia que o que era dito
Seria o fardo de me abster
.
O que antes era concreto
Se tornou uma redoma
Estilhaçando-se sob o teto
De vidro que a ilusão retoma
.
Os cacos produziram cicatrizes
Brancas como aquelas linhas
A fissurar enquanto maldizes
Vício de outrora deveras minhas
.
Catarse do eu
Baco fora embora trotando,
Deixando o menino se matando.
Algo realmente precisou morrer
Para que ele pudesse entender.
.
Na tratativa desse reencontro,
Sinto falta do meu encanto.
Olhando pra trás, eu invoco
Aquele vulto cheio de foco.
.
Clamo pelo sujeito de outrora,
Outrem que já fora embora.
Afora, se danou a esvair,
Surgir eu tive para me despir.
.
Oco do oco no sem fim,
Já dizia o bendito Serafim.
Insolente ao destino me fiz;
No final, vassalo me desfiz.
.
Retrotopia
No centro do antigo planalto árido
Névoa de ouro e diamante reluz
Sobre esse ser que fora ávido
Ao inescrutável que seduz.
.
Cintila a centelha de morte,
Pútrida e nevada pela mortalha.
Invisível aos errantes que ovacionam
A cultura morta de outrora.
.
Prestidigitador ele se faz,
Cheio de graça e de travessura,
Epifanias e catarses em entropia —
Mas a quem ele ludibria?
Encontra-se ainda na retrotopia
Thoughts
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PermalinkO tordo que se estraçalha na vidraça enquanto o outro fica preso ao fio me fez pensar em quem vê um amigo se soltar primeiro e continua ali, no mesmo lugar, olhando. Aposto que esse foi o poema mais difícil de colocar no meio da coleção, porque é o único com um bicho de verdade dentro. Obrigado por juntar tudo aqui :)
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PermalinkNossa, papibaquígrafo. Fui procurar no dicionário e voltei rindo, uai. Gostei demais de achar essa palavra no meio de tanto Dionísio.
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