“Toda organização nasce de um medo. A E.C.P.O. nasceu de um presságio.” — Ninjha
A noite estava imóvel quando Ninjha reuniu os primeiros. Não em um salão, não em um palácio — mas nas ruínas de um forte abandonado nas montanhas do Cáucaso, onde o vento uivava como um animal ferido e a neve nunca derretia por completo.
Eram poucos. Onze ao todo.
Homens e mulheres que ainda tinham coragem de olhar o desconhecido nos olhos. Chamavam-se entre si apenas por códigos, números, siglas, sombras. Seus nomes verdadeiros haviam sido enterrados junto com suas antigas vidas.
Entre todos ali, havia alguns que se destacavam: Agni, ex-inquisidora que queimara seu próprio convento depois que os crucifixos começaram a sussurrar. Mael, um ladrão que tentara roubar um livro proibido em Constantinopla e vira a biblioteca inteira ganhar olhos. Yuki, uma samurai sem senhor que matara seu próprio clã depois que eles se ajoelharam diante de uma sombra que não projetava luz.
E havia Ninjha. Código 00. O primeiro. O Imortal.
Eles estavam sentados ao redor de uma fogueira azulada. A cor estranha vinha do chão, onde brasas de batalhas antigas ainda queimavam sem consumir a terra.
Ninjha falou por último. Sua voz saiu baixa, mas cada palavra ecoou como um martelo em metal oco:
“O mundo está doente. Não de guerra, não de fome. De algo mais velho. O Inferno Negro não é uma lenda. É um território. E suas fronteiras estão se movendo.”
Ele ergueu a mão direita. A cicatriz que atravessava sua palma óssea — aquela que nunca fechava por completo — brilhou por um segundo.
“Nos últimos cem anos, eu vi coisas que nenhum de vocês acreditaria. Cidades onde os mortos andavam porque o tempo havia se quebrado. Florestas que sangravam quando alguém as cortava. Crianças nascendo com palavras escritas nos olhos… E eu matei a maioria dessas coisas. Mas estou ficando velho. Não no corpo. Na alma. Preciso de mais mãos.”
Agni, a ex-inquisidora, inclinou a cabeça:
“Você quer criar um exército?”
“Não. — Ninjha negou devagar. — Exércitos são barulhentos. Exércitos podem ser corrompidos. Eu quero algo menor. Mais silencioso. Mais mortal.”
Yuki ajustou a katana no colo:
“Uma seita?”
“Uma Entidade. Com regras. Com hierarquia. Com um único objetivo: conter aquilo que não deveria existir. Proteger os que ainda podem ser salvos. E, quando necessário, operar o que não pode ser contido.”
O vento uivou mais forte. As chamas azuis dançaram.
Mael, o ladrão, riu sem humor:
“E quem vai pagar por isso? Quem vai nos dar poder? Reis? Papas?”
“Ninguém.” Ninjha olhou para o fogo. “Nós vamos tomar o que precisamos. Dos mortos. Dos esquecidos. Dos lugares que o mundo já não ousa pisar. Existem arsenais adormecidos embaixo de desertos. Existem bibliotecas enterradas sob vulcões. Existem coisas que os impérios enterraram com medo de que alguém as encontrasse. Nós vamos encontrá-las primeiro.”
Silêncio.
Foi Orkhan — sim, o mesmo Orkhan das estepes, que sobrevivera à prisão mameluca e agora, décadas depois, estava ali, o rosto mais marcado, os cabelos inteiramente brancos — quem falou:
“E se falharmos?”
Ninjha demorou a responder.
“Então não haverá ninguém para lembrar que tentamos.”