"Antes do primeiro som, antes da primeira luz, houve apenas o nada. E desse nada nasceu o Medo."
No princípio, não existiam céus para serem contemplados, nem terras para serem pisadas. Não havia mares, montanhas ou estrelas. Não existia sequer o conceito de existência. O que viria a ser chamado de universo permanecia adormecido em uma condição tão antiga que o próprio tempo ainda não havia aprendido a fluir.
Havia apenas o Vazio Negro.
Mas chamá-lo de vazio seria uma simplificação imperfeita.
O Vazio Negro não era ausência. Era excesso.
Era um oceano infinito de possibilidades sem forma, uma vastidão sem margens onde incontáveis fragmentos de realidade surgiam e desapareciam em um único instante. Correntes invisíveis colidiam umas contra as outras em movimentos eternos, gerando estruturas momentâneas que se desfaziam antes mesmo de compreenderem a própria existência.
Nada permanecia. Nada possuía identidade. Nada era capaz de resistir.
O caos dominava tudo.
Não um caos destrutivo, pois ainda não havia nada para destruir. Era um caos primordial, absoluto e inevitável, uma força que consumia qualquer tentativa de permanência.
Por eras incomensuráveis, o infinito permaneceu assim.
E então algo aconteceu.
Em meio às tempestades de energia informe, uma consciência surgiu.
Não era uma mente como as que existiriam no futuro. Não possuía pensamentos, desejos ou memórias. Era apenas uma centelha de percepção, uma anomalia destinada a desaparecer como todas as outras.
Mas ela não desapareceu.
Enquanto incontáveis consciências eram engolidas pelo caos, aquela permaneceu.
Resistiu.
Não porque fosse mais poderosa. Não porque fosse escolhida. Mas porque a própria natureza do caos exigia um oposto.
O infinito necessitava de limites.
O movimento eterno necessitava de um ponto imóvel.
A desordem necessitava de algo contra o qual pudesse se chocar.
E assim, pela primeira vez desde o início sem início, algo persistiu.
A consciência despertou.
Seu nome não foi dado, mas sim conquistado. Um nome que representa poder, terror e ambiguidade, podendo interpretá-lo em múltiplos sentidos a aqueles que o conhecem: Azathoth.
Seu despertar não produziu uma explosão de criação.
Nenhuma estrela nasceu. Nenhum mundo surgiu. Nenhum deus anunciou sua chegada.
O que ocorreu foi algo muito mais profundo.
Ondas invisíveis atravessaram o Vazio Negro como o impacto de uma pedra lançada sobre um oceano sem fim. Regiões inteiras do caos foram empurradas para longe. Outras se comprimiam. Algumas colapsaram sobre si mesmas.
Foi nesse instante que os primeiros observadores surgiram.
Consciências ancestrais despertaram nas regiões mais distantes do infinito e testemunharam o fenômeno.
Elas compreenderam que algo impossível havia acontecido.
O caos havia produzido permanência.
E permanência significava poder.
Azathoth tornou-se, assim, um dos Deuses do Caos.
Não o primeiro.
Não o último.
Mas aquele cujo domínio viria a abrigar acontecimentos capazes de alterar o destino de incontáveis realidades.
E então, todo o espaço foi-se dividido, não pelo poder, ganância e muito menos por ideais de salvação, mas por necessidade. Nesses tempos antigos, o cosmos era um lugar extremamente anárquico e, pela primeira vez, o anárquico possuía território. Possuíam leis. Possuíam… controle. Pois ele não havia sido a única consciência a ter despertado. Havia outros seres pelo universo. Seres que fariam história muito posteriormente.
O cosmos não havia sido criado. Havia sido dividido. E a divisão ecoou pelo finito.
Muito tempo depois, em uma região remota de seu território, existiria um pequeno planeta chamado Terra.
Mas ainda não.
Ainda faltavam eras.
Ainda faltavam deuses.
Ainda faltava a própria luz.