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CAPÍTULO IV — O HOMEM QUE MATOU A PRÓPRIA CARNE

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"Há dores que curam, e há dores que nos arrancam daquilo que chamamos de humano."

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"Há dores que curam, e há dores que nos arrancam daquilo que chamamos de humano."

O mundo havia esquecido seu nome.

Reinos que o conheceram tornaram-se ruínas. Impérios que testemunharam sua passagem foram reduzidos a poeira carregada pelo vento. línguas nasceram, prosperaram e desapareceram sem deixar vestígios.

Mas ele permaneceu. Enquanto a história avançava, ele continuava caminhando. Sozinho. Imutável. Eterno.

Atravessava desertos onde nenhuma pegada permanecia por mais de um dia. Cruzava montanhas cujos picos jamais haviam sido alcançados por homens comuns. Caminhava por florestas tão antigas que as árvores pareciam recordar o nascimento do mundo.

Poucos o viam. Menos ainda sobreviviam ao encontro. Entre aqueles que falavam sobre sua existência, um nome tornou-se comum. O Silencioso. Pois seus passos não produziam som. Sua presença não perturbava o vento. Sua respiração parecia inexistente. Era como se a própria realidade abrisse espaço para sua passagem. Mas o vento, que percorria os continentes e sussurrava entre as eras, ainda se lembrava.

Seu verdadeiro nome era Ninjha.

Durante séculos, ele perseguiu um inimigo que nenhum guerreiro podia derrotar com espadas.

O medo.

Não o medo dos monstros. Não o medo da morte. Mas o medo primordial. Aquele que habita o coração dos homens. Aquele que os faz hesitar diante do impossível. Aquele que os convence a aceitar seus limites.

Ninjha recusou-se a aceitá-los.

Cada sombra tornou-se um mestre. Cada fracasso tornou-se uma lição. Cada dor tornou-se uma ferramenta. Quando os músculos rasgavam, ele continuava. Quando os ossos quebravam, ele continuava. Quando a exaustão consumia seu corpo, ele continuava. E quando não havia mais nada que o mundo pudesse ensinar, voltou sua atenção para algo ainda mais profundo.

A morte.

Buscou-a nos lugares onde nenhum homem ousava permanecer. Nos Vales de Cinza enfrentou tempestades capazes de despedaçar a carne. Ventos cortantes arrancavam fragmentos de sua pele enquanto relâmpagos negros incendiavam o horizonte. Ele resistiu.

Nas Montanhas do Eco enfrentou a fome. Anos inteiros sem alimento. Anos inteiros sem companhia. Anos inteiros ouvindo apenas os próprios pensamentos. Ele resistiu.

No Abismo do Sono Eterno mergulhou em um estado entre a vida e a morte. Seu coração parava. Seu corpo esfriava. Sua consciência afundava na escuridão. E então retornava. Novamente. E novamente. E novamente.

Até que a morte deixou de parecer um mistério. Até que a morte deixou de parecer uma inimiga. Até que a morte tornou-se apenas mais uma porta.

Certa vez, observando as próprias mãos marcadas por incontáveis cicatrizes, ele falou:

— O corpo é um cárcere.

O vento permaneceu em silêncio. Então ele completou:

— E eu sou o prisioneiro e o carcereiro.

As palavras desapareceram no horizonte. Mas algo as ouviu. Naquele instante, o mundo mudou. O ar tornou-se pesado. Os pássaros cessaram seu canto. Os rios interromperam seu curso. O próprio tempo pareceu hesitar. Diante dele, a terra começou a se partir.

Primeiro uma rachadura. Depois uma fenda. Então um abismo. Profundo. Escuro. Infinito. Das profundezas surgiu uma voz. Não era um som. Era uma presença. Uma ideia. Uma verdade antiga infiltrando-se na realidade.

"O que buscas, mortal?"

Ninjha não hesitou. Não abaixou a cabeça. Não desviou o olhar.

— Força.

A voz permaneceu em silêncio.

Então perguntou:

"Para conquistar?"

— Não.

"Para governar?"

— Não.

"Para destruir?"

— Não.

A escuridão pareceu se mover.

"Então por quê?"

Ninjha ergueu os olhos.

— Para existir.

Pela primeira vez, algo semelhante a uma risada atravessou o vazio. 

As montanhas estremeceram As pedras racharam. E rios inteiros tornaram-se negros como tinta.

"E o que estás disposto a sacrificar?"

A resposta veio sem demora. Sem medo. Sem arrependimento.

— Tudo.

A fenda abriu-se completamente. E o mundo o engoliu. Nas profundezas, o ritual começou. Não havia céu.  Não havia chão. Não havia tempo. Apenas fogo. As chamas do Inferno Negro envolveram seu corpo. Não eram chamas comuns. Queimavam conceitos. Consumiam identidades. Destruíam aquilo que tornava alguém humano. Sua carne evaporou. Seu sangue transformou-se em vapor escarlate. Mas sua alma permaneceu.

Brilhando.

Resistindo.

Recusando-se a desaparecer.

Durante sete anos o fogo o devorou. Sete anos de dor. Sete anos de agonia. Sete anos enfrentando a própria extinção. E durante todo esse tempo, uma única coisa permaneceu intacta.

Sua vontade.

Quando as chamas finalmente se extinguiram, o silêncio dominou as profundezas. Então uma figura emergiu. Alta. Imponente. Irreconhecível. O homem havia desaparecido.

As suas características humanas haviam sido deixadas para trás. Onde antes existia carne, agora existia algo maior. Uma entidade moldada pela determinação. Um guerreiro forjado pela própria morte. Seu corpo ultrapassa dois metros de altura. Mantos rasgados moviam-se ao redor dele como sombras vivas. Seu rosto havia desaparecido. No lugar da face existia apenas um crânio pálido. Antigo. Eterno. Sem expressão. Sem fraqueza. Sem medo.

A carne havia morrido. Mas a vontade continuava pulsando. E naquele instante nasceu Ninjha, o Imortal. Aquele que rejeitou a morte. Aquele que matou a própria humanidade para transcender seus limites. Quando ergueu o olhar para os céus, as estrelas pareciam estremecer.

Uma sombra colossal moveu-se além delas. Azathoth observava. Por incontáveis eras, o Rei do Inferno Negro assistira ao nascimento e à queda de civilizações. Mas agora contemplava algo diferente. Algo raro. Algo digno de atenção.

— Finalmente...

A voz ecoou através do vazio.

— Algo digno do meu olhar.

Ninjha ergueu a cabeça. Mesmo diante da entidade que inspirava terror em mundos inteiros, permaneceu imóvel.

— Você é o abismo que tantos temem.

A escuridão respondeu:

— E você é o eco daquilo que a humanidade jamais deveria ter criado.

O silêncio que se seguiu foi longo. Antigo. Profundo. Então Azathoth compreendeu. O equilíbrio que buscava havia finalmente surgido. Mas o equilíbrio não nasce completo. Ele precisa ser forjado. Precisa sofrer. Precisa sangrar. E, acima de tudo, precisa possuir uma origem.

Muito antes daquele ritual. Muito antes da imortalidade. Muito antes do nome Ninjha ecoar pelas eras. Existia apenas um menino. Um menino chamado Mustafa. E seu coração ainda batia com a inocência daqueles que jamais conheceram o verdadeiro peso do medo.


Thoughts

  • Rui_Salgueiro

    Quando diz que ele transcendeu os limites, a vontade dele continua a mesma de antes ou é outra vontade dentro do corpo novo?

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  • atepagina50

    A fenda no chão, o abismo... imaginava uma coisa muito específica e depois percebi que não descreveu a cor das chamas. Mas eu já via ela preta.

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  • vqueiroz90

    Aquele diálogo com a escuridão é tipo conversa de madrugada no carro: você sabe que é 'não', mas ele insiste pra confirmar que tá mesmo maluco.

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  • Simao

    Não sei, achei que ele devia ter ficado com medo em algum ponto mas parecia que quanto mais impossível ficar, mais ele se recusava. Acho que funciona assim mesmo.

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  • tresPaginas

    A parte do corpo como cárcere e ele sendo os dois... vi isso acontecer na noite de segunda pra terça.

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  • Marina

    Você vai voltar pro Mustafa? O menino dele, tipo, ainda tá ali em algum lugar dentro do Ninjha, ou foi completamente queimado nos sete anos?

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  • tmoreira93

    Esses vales de cinza e relâmpagos negros... lembrei de um campo perto de Taquaralto onde quase deixei a moto. Lá não tinha entidade vindo oferecer imortalidade.

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  • sofadasala

    O 'ele continuava' repetindo... vi ali a mãe criando filho quando o corpo já pede pra parar. Mustafa soube desde o começo que ia mudar, ou foi descobrindo?

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