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CAPÍTULO III — O HOMEM QUE DESAFIOU O ABISMO

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"A luz não nasceu para vencer o escuro, mas para que o escuro pudesse vê-la morrer."

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"A luz não nasceu para vencer o escuro, mas para que o escuro pudesse vê-la morrer."

Quando o primeiro fogo ergueu-se sobre a Terra, os homens o chamaram de vida.

Reuniram-se ao seu redor para afastar o frio, cozinhar alimento e iluminar as longas noites que pareciam não ter fim. Para eles, aquela chama representava esperança. Era a prova de que o mundo podia ser dominado, ainda que por breves instantes.

Mas, muito além das estrelas, uma consciência antiga observava. Dos confins do Inferno Negro,  Azathoth contemplou o nascimento daquele fogo.

E, aos seus olhos, não havia esperança alguma naquela luz.

Havia apenas uma ferida. Uma pequena rachadura aberta no tecido da criação. Uma abertura pela qual os vivos podiam ser observados. Uma abertura pela qual o abismo podia respirar.

E ele respirou.

Lentamente.

Pacientemente.

Como uma criatura adormecida que desperta após uma eternidade.

A humanidade jamais percebeu.

Enquanto aprendia a erguer aldeias, cultivar campos e registrar os primeiros símbolos sobre pedra, algo rastejava além daquilo que seus olhos eram capazes de enxergar.

Nas regiões mais profundas das sombras surgiram os Sombrios. Seres deformados pela influência do Inferno Negro. Criaturas sem forma definida, capazes de assumir contornos diferentes conforme os medos daqueles que observavam.

Onde havia terror, eles prosperavam. Onde havia sofrimento, eles se fortaleciam. E onde havia morte, eles celebravam.

Mas os Sombrios eram apenas os mais fracos. As verdadeiras entidades do abismo raramente interferem.

Observavam.

Esperavam.

Alimentavam-se do medo como reis observando seus domínios.

Cada pesadelo humano tornava-se um banquete. Cada desespero fortalecia as trevas. Cada lágrima derramada alimentava um reino invisível. E, pouco a pouco, a Terra tornou-se um campo fértil para o Inferno Negro.

Os séculos avançaram. Reinos surgiram. Impérios dominavam continentes. Monumentos foram erguidos para a adoração de deuses mentirosos e gananciosos.

E todos eles caíram. Pois o homem possuía um talento singular: Transformar esperança em guerra.

O sangue tornou-se um idioma universal. Espadas cruzaram-se em nome de reis. Exércitos marcharam em nome de deuses. Cidades foram reduzidas a cinzas em nome de promessas que jamais seriam cumpridas.

E sempre que uma batalha terminava, Azathoth observava.

A humanidade era frágil. Ainda assim, insistia em sobreviver. Era uma espécie fascinante. Quanto mais sofria, mais lutava. Quanto mais perdia, mais sonhava.

Era como se existisse dentro dela algo que nem mesmo o Inferno Negro compreendia completamente. E então, após incontáveis eras de observação, algo inesperado aconteceu.

Pela primeira vez, o olhar de Azathoth encontrou algo que não conseguia explicar.

Um homem. Apenas um homem. Não era rei. Não era profeta. Não possuía exércitos. Não carregava títulos. Seu nome perder-se-ia nas areias do tempo.

Mas havia algo nele.

Algo que atraía a atenção do próprio abismo. Sozinho entre montanhas esquecidas, ele treinava. Dia após dia. Ano após ano. Década após década. Seu corpo quebrava. E ele continuava. Seus ossos fraturavam. E ele se levantava. Sua carne rasgava. E ele agradecia pela dor. Porque enxergava em cada sofrimento uma oportunidade. Uma escada invisível. Um caminho para além da condição humana.

Enquanto reis buscavam poder sobre nações, ele buscava poder sobre si mesmo. Enquanto sacerdotes imploravam aos céus, ele desafiava os próprios limites. Enquanto guerreiros treinavam para derrotar inimigos, ele treinava para derrotar a morte.

E o mais impressionante… Era que ninguém o obrigava. Nenhuma profecia o guiava. Nenhum deus o escolheu. Nenhuma entidade o auxiliava. Ele caminhava sozinho. Movido apenas por sua própria vontade. 

O tempo passou. Dez anos. Vinte anos. Quarenta anos. Sessenta anos. Oitenta anos. E aquilo que um dia havia sido um homem começou a se transformar em algo impossível.

Sua presença tornou-se pesada. Seu olhar tornou-se profundo. Seu espírito cresceu além dos limites da carne. A própria realidade parecia hesitar ao seu redor. Como se o mundo já não soubesse classificá-lo.

Humano. Monstro. Lenda. Nenhuma dessas palavras era suficiente. Então nasceu um novo nome. Ninjha. O Guerreiro Eterno. Aquele que atravessou os limites da humanidade apenas pela força da própria determinação.

Até que Azathoth quis testá-lo.

Era em uma noite escura em que Ninjha se encontrava. Ele ainda treinava, pois descanso era algo quase blasfemo para ele. E então o teste veio. Não era nada demais, apenas um Sombrio, observando nas sombras, como um predador caçando sua presa. Sedento, não por sangue, mas pelo medo.

 A criatura não passava de um ser totalmente negro, com no máximo um metro e vinte de altura, mas com a força comparável a de um elefante, senão mas forte do que um. Então veio a investida.

A criatura pulou em direção a Ninjha, desembainhando garras de seus dedos, ou o que pareciam ser dedos.

Ninjha reage numa velocidade surpreendente, quase que instantânea. Rapidamente ele pega a criatura pelo pulso, e em um movimento automático, leva o corpo do ser diretamente ao chão, com uma força surpreendente, tal que a parte frontal ficou totalmente desfigurada e quase que indistinguível do chão, coberto por ao que parece ser o sangue da criatura, negro como seu corpo.

Instantaneamente, Azathoth envia mais um ser ao encontro de Ninjha, dessa vez não um Sombrio, mas sim uma criatura de poder maior, portanto, de uma hierarquia superior, mas não tão longe da baixa cadeia alimentar do Inferno Negro. Um Corrupto.

Esse nível de ser é totalmente diferente, pois, diferente dos Sombrios, os Corruptos são racionais. Também eram conhecidos como Engenheiros no Inferno Negro, por suas habilidades com ferramentas e portais

Era agora de manhã. Ninjha estava sentado em uma pedra, localizada em seu acampamento simples, constituído de uma barraca improvisada de couro e uma fogueira de tamanho pequeno. Ele tinha em suas mãos uma carne assada de coelho, fruto de suas caças noturnas.

A criatura esperava pacientemente por uma brecha. Carregava uma espada de ferro e roupas de couro, tudo vindo de suas vítimas ao longo do planeta Terra.

No momento que Ninjha se levanta e começa a andar na direção de um riacho que havia logo ali perto de seu acampamento para se hidratar, a criatura ataca silenciosamente. Mas o Guerreiro havia adquirido, após décadas de treinamento, a percepção das coisas. Ele rapidamente desviou e ficou cara a cara com a criatura, em completo silêncio, analisando cada centímetro do ser. A criatura avança novamente. Mas desta vez ele reage.

Sua mão tornou-se uma lâmina. Os dedos alinharam-se numa rigidez impossível, e o golpe atravessou o ar antes mesmo que o Corrupto compreendesse o movimento. E com precisão, atinge a criatura no abdômen, fazendo com que sangrasse. 

Num ato de desespero, o Corrupto tenta fugir. Ele abre um portal perante ao acampamento e quase consegue fugir para seu habitat natural, o Inferno Negro. Mas o guerreiro o agarra pela canela. A entidade solta um olhar de desespero para o homem. Temendo perder a sua vida, ele suplica por misericórdia. Mas a misericórdia já não habitava Ninjha. Desde aquele fatídico dia sua fé, seu amor, sua… humanidade já havia se esvaído. Ele simplesmente finaliza a criatura e joga seu corpo no chão úmido da floresta.

Então, após remover o sangue negro de suas mãos, ele olhou. Contemplou o Inferno Negro sem recuar.

Olhou o abismo. E o abismo olhou de volta. O silêncio que se seguiu ecoou através dos planos da existência. Então Ninjha falou.

Sua voz não carregava arrogância. Não carregava desafio. Carregava apenas verdade.

— Eu também sou feito do medo dos homens.

Pela primeira vez desde o nascimento das eras, Azathoth permaneceu em silêncio. Não havia raiva. Não havia desprezo. Não havia desejo de destruição. Existia apenas algo que o Rei do Inferno Negro jamais imaginara sentir. Respeito.

Porque diante dele estava um ser que não havia recebido poder. Não havia herdado poder. Não havia roubado poder. Ele havia conquistado cada fragmento dele.

E naquele instante, o fogo que testemunhara toda a história da humanidade tremulou. Como se compreendesse algo que os homens jamais compreenderiam. Pois um dia, inevitavelmente, aquelas duas forças se encontrariam.

O Rei do Vazio.

E o Guerreiro Eterno.

E quando esse encontro acontecesse, o mundo voltaria a arder. Não por fé. Não por ódio. Não por vingança. Mas porque o próprio equilíbrio da existência exigiria isso.

Thoughts

  • Simao

    Ninjha virou tão forte que nem os gods conseguem entender o que ele é. tipo aquele colega que levanta cedo e nunca desiste

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  • Rui_Salgueiro

    aquele trecho de oitenta anos treinando é de arrepiar mesmo. tipo, dedicação total sem volta

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  • Marina

    gostei muito do Ninjha. personagem que ganhou força pelo próprio esforço é sempre legal

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  • vqueiroz90

    qual é o próximo capítulo? porque esse encontro entre o Rei do Vazio e o Guerreiro Eterno tá me deixando curioso demais

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  • tresPaginas

    a parte que ele fala que sou feito do medo dos homens. caramba, isso é profundo. tipo, ele se tornou tão forte que virou uma lenda

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  • tmoreira93

    mas aí, esse Corrupto que atacou durante a manhã era só um teste? ou tem história dele também?

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  • sofadasala

    que homem, cara. sozinho na montanha treinando por sessenta anos. isso é loucura e determinação ao mesmo tempo

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  • paginadobrada

    então o Ninjha acaba ficando amigo do Azathoth? ou é mais tipo um respeito do que uma amizade mesmo?

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