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CAPÍTULO X — A PROVA FINAL

KingBoost

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“O sol poente tingia de sangue as pedras do círculo de treinamento.”

O sol poente derramava uma luz rubra e densa sobre as antigas pedras do círculo de treinamento, como se o próprio firmamento vertesse sangue em silencioso testemunho do que ali se consumaria. Alp Arslan, o mestre de cabelos brancos como neve eterna e olhos que carregavam o peso de séculos incontáveis, observava seu discípulo com uma frieza incomum, quase solene, destituída de qualquer traço de afeto paternal.

“Você bebeu a poção, Mustafa. Agora compreende o que significa viver além do tempo. Todavia, saber viver não é o mesmo que saber lutar. Mostre-me, pois, tudo o que aprendeu.”

Mustafa hesitou. Embora fosse um lutador endurecido por décadas de sofrimento, nunca havia encarado Alp como um verdadeiro adversário. O mestre sempre representara uma montanha inalcançável, um pilar de ferro forjado no fogo mais impiedoso.

“Não desejo feri-lo, mestre” disse ele, a espada ainda repousando na bainha.

Alp sorriu, mas o sorriso era vazio, desprovido de qualquer calor humano. Num movimento tão veloz que os olhos mal conseguiam acompanhar, desembainhou sua lâmina e desferiu o golpe. Mustafa desviou por puro instinto, rolando sobre a terra poeirenta. A lâmina passou raspando sua orelha, deixando um fio quente de sangue escorrer pela pele.

“Você não tem escolha” declarou Alp, avançando novamente com golpes rápidos e letais como víboras famintas.  “Lute ou morra.”

Foi então que Mustafa compreendeu a gravidade do momento. Aquilo não era um mero treino. Tratava-se de um rito de passagem definitivo. A poção da longevidade, os longos anos de dor e disciplina, tudo convergia para aquele instante singular.

Ele sacou a espada. O entrechoque de aço ecoou pela planície deserta como um sino fúnebre, ressoando contra as colinas distantes. Alp era mais rápido, mais experiente, portador de uma sabedoria ancestral que transcendia a mera técnica. Cada ataque seu constituía uma lição viva, cada defesa um poema de precisão mortal. Mustafa recuava, o suor escorrendo pelo rosto, sentindo o peso esmagador de quarenta e nove anos de carne mortal contra os milênios de experiência que o mestre carregava nas articulações envelhecidas.

“Ainda hesita?” cuspiu Alp, num ataque de fúria calculada. Sua espada abriu um corte profundo no braço de Mustafa. “A poção não lhe concederá coragem!”

O sangue escorria quente pelos dedos do discípulo, pingando sobre a terra árida. No entanto, em vez de dor lancinante, Mustafa sentiu uma clareza cristalina tomar conta de sua mente. Algo havia despertado dentro dele desde o momento em que engolira o elixir misterioso. Os movimentos do mestre, antes borrões indistintos no ar, agora pareciam mais lentos, quase previsíveis. Ou seria ele, Mustafa, quem se tornara mais rápido?

Ele parou de recuar.

Quando Alp avançou com um golpe vertical devastador, Mustafa não desviou. Deu um passo à frente, penetrando audaciosamente na guarda do mestre, e golpeou com o cabo da espada o pulso de Alp. A lâmina do velho rodopiou no ar e caiu longe, fincando-se na terra. Fez-se um silêncio profundo.

Alp olhou para a própria mão vazia, depois para o discípulo. Um filete de sangue escorria de seu antebraço. O golpe desarmador fora certeiro e implacável.

“Acabou, mestre” ofegou Mustafa, mantendo a ponta da espada a meros centímetros do pescoço de Alp.

O velho mestre, pela primeira vez em décadas, sorriu de verdade, um sorriso carregado de orgulho e resignação.

“Não, rapaz. Agora, sim, começa.”

Mustafa baixou a espada e ofereceu a mão. Alp a apertou com firmeza, e os dois se entreolharam não mais como mestre e discípulo, mas como iguais — dois guerreiros que haviam atravessado o fogo e emergido transformados.

Nos dezenove anos seguintes, o treinamento assumiu contornos quase espirituais. Alp Arslan, já com noventa e oito anos, mal conseguia erguer o bastão. Ainda assim, sentava-se sobre uma pedra antiga e observava em silêncio. Mustafa treinava sozinho, repetindo cada golpe, cada postura, cada respiração até que o movimento se fundisse à sua alma. O velho mestre corrigia apenas com palavras roucas e precisas:

“Mais lento. Mais preciso. Até que a própria morte não consiga encontrá-lo.”

Na última noite, Alp Arslan deitou-se no chão frio da casinha simples e soube que não se levantaria mais. Antes de fechar os olhos pela derradeira vez, olhou para o homem que um dia fora o menino Mustafa e sussurrou com voz fraca, quase inaudível:

“Você renasceu. A partir de hoje, seu nome é Ninjha.”

Ninjha permaneceu ao lado dele até o último suspiro, envolto em um silêncio reverente e doloroso.

No dia seguinte, carregou o corpo do mestre para as campinas abertas onde haviam treinado por quase oito décadas. Cavou a cova com as próprias mãos, devagar, com profundo respeito, cada punhado de terra carregando o peso de uma vida inteira de dedicação. Enterrou Alp Arslan sob o mesmo céu vasto que testemunhara tanta dor, tanto sangue e tanta transformação. Em seguida, fincou a espada longa do Leão Seljúcida na terra, bem acima do túmulo. A lâmina ergueu-se reta e brilhante ao sol, como uma sentinela eterna velando o descanso do guerreiro.

Ninjha permaneceu de pé diante da espada por longas horas, imóvel como uma estátua.

Setenta e nove anos de ossos quebrados.

Setenta e nove anos de fome insaciável, noites sem sono e um silêncio que devorava a alma.

Setenta e nove anos em que, dia após dia, o menino que outrora sentia o coração palpitar diante do sorriso tímido de Maya fora lenta e meticulosamente assassinado.

Quando o sol começou a mergulhar no horizonte, tingindo o céu de tons avermelhados, Ninjha virou as costas para o túmulo e iniciou sua caminhada. O que restara era apenas Ninjha — uma lâmina viva, forjada no fogo mais cruel. E ele ainda não havia terminado de se tornar forte.

Aos 89 anos, Ninjha encerrou o início de seu verdadeiro treinamento.

Thoughts

  • Ovid

    A espada do Leão Seljúcida fincada em cima do túmulo tem cara de coisa que alguém vai encontrar mais adiante na história. E com a poção, o Ninjha começa de verdade aos 89 anos, então ele vai durar mais que todo mundo que conheceu antes, a Maya inclusive. Imagino que essa solidão ainda vai pesar mais que o treino.

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  • tresPaginas

    Passei das três páginas, o Alp a deitar-se no chão da casinha não me deixou adormecer. Oitenta e nove anos, a Maya ainda anda por aí?

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“O sol poente tingia de sangue as pedras do círculo de treinamento.”

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