“O não lugar que era lugar, era uma ideia materializada pelo Medo e pela percepção do desconhecido”
Antes do início de seu governo, Azathoth recebeu um presente do próprio Caos Absoluto, poderes vindos de além da imaginação e do conceito de criação, as quatro partes do caos. Cada uma com sua função e escala de poder.
Mas ele ainda não era um ser formado, apenas uma consciência móvel que vagava pelos seus domínios. E para governar, ele precisaria de um modelo físico de seu poder, e então, iniciou-se o processo de Ressignificação.
As Auroras foram partidas, estrelas e supernovas foram reduzidas ao pó. Até o próprio corpo do Universo foi arrancado para tal finalidade. Num contínuo e concentrado processo chamado Corpo do Caos, um dos presentes dados pelo Caos Absoluto.
No final da transformação, Azathoth possuía uma aparência que desafiava qualquer conceito conhecido de vida, parecendo menos um ser vivo e mais uma manifestação física do próprio vazio cósmico.
Sua forma humanoide é apenas superficial, servindo como uma estrutura sobre a qual forças incompreensíveis se moldaram. Seu corpo alto, imponente e perfeitamente equilibrado transmite uma sensação de poder absoluto, que sugere uma força muito além de qualquer medida concebível.
Apesar da musculatura bem definida, ela não é composta de carne, mas de uma substância negra semelhante a fumaça condensada, matéria escura e fragmentos do próprio espaço, que se movem incessantemente sob sua superfície como galáxias girando em silêncio.
No centro superior de sua face persiste um enorme olho dourado, brilhando como um pequeno sol, enquanto outros olhos menores emergem das sombras ao redor da cabeça, aparecendo e desaparecendo como estrelas ocultas por nuvens cósmicas.
Esses olhos não possuem aparência biológica; cada um lembra um sistema estelar em miniatura, cercado por espirais semelhantes a nebulosas.
No centro de seu peito repousa o elemento mais impressionante de toda a criatura: uma esfera de energia dourada extremamente intensa, semelhante a uma estrela comprimida dentro de seu corpo.
Essa luz pulsa lentamente, e a cada batida ilumina o interior da entidade, revelando por breves instantes veias compostas por galáxias, poeira estelar e constelações inteiras.
Esse então era Azathoth. Contemplar essa entidade não desperta apenas medo, mas uma profunda sensação de insignificância. Sua presença transmite a impressão de que todas as formas de vida, todas as civilizações e até mesmo o próprio universo são apenas acontecimentos passageiros diante de sua existência.
Ele não parece um deus, um demônio ou um monstro, mas uma força primordial, anterior ao tempo, ao espaço e à própria criação. Sua simples existência faz parecer que a realidade é apenas uma camada frágil sobre um abismo infinito, e que essa criatura sempre esteve ali, observando silenciosamente o nascimento e a morte de incontáveis universos.
E então, ao final desse procedimento, foi-se formando involuntariamente um planeta, ou o que parecia ser um.
Lá não era um reino de fogo e enxofre, mas a manifestação máxima do vazio absoluto e do isolamento da alma. Imagine um local dominado por uma escuridão tão densa que consome qualquer tentativa de luz, gerando uma desorientação espacial imediata.
O ambiente é governado por um frio penetrante que congela a alma e por uma gravidade opressiva, que faz o próprio ar parecer pesado e esmagador. O silêncio ali é ensurdecedor, alternando apenas entre o vácuo absoluto e sussurros distorcidos que parecem ecoar de dentro da própria mente.
Ao avistar aquele lugar, Azathoth compreendeu que ali repousaria. Então ele pousou no pequeno planeta e o batizou de Inferno Negro.
Ele caminhava pelo lugar, apreciando o cenário, que lembra a desolação de um buraco negro cósmico, um ponto sem retorno de onde nem a luz nem a esperança conseguem escapar.
Nessa imensidão vazia, a ordem é mantida por uma hierarquia rígida e implacável de entidades, onde o nível de poder determina a casta e o controle de cada ser.
Toda a vida e a estrutura desse planeta originaram-se de uma das forças primordiais: a Alma do Caos. Azathoth foi o responsável direto pelo surgimento de todas as suas entidades.
Os espíritos mais fracos e fragmentados habitam a base, esmagados pelo peso do ambiente e pela vontade dos superiores. Acima deles, entidades colossais e soberanas governam faixas inteiras desse vácuo, extraindo sua força da própria escuridão. Quanto mais poderosa a entidade, maior é sua capacidade de distorcer o espaço ao seu redor e subjugar a mente dos inferiores, tornando a submissão o único meio de sobrevivência nessa pirâmide de opressão.
Neste lugar, o sofrimento abandona a dor física e se torna puramente psicológico e espiritual. É o tormento do remorso, do esquecimento eterno e da separação total de qualquer forma de amor ou divindade.
Na ausência completa de estímulos e de luz, o indivíduo perde gradualmente a própria identidade, desfazendo-se até se fundir por completo à negridão eterna do ambiente e à vontade dessas forças dominantes.
E seria naquele momento em que Azathoth iniciaria seu governo, observando seus domínios de seu trono naquele pequeno planeta amaldiçoado.
Então, é moldado pela própria natureza uma centelha de vida, num pequeno planeta chamado pelos habitantes de Terra. E Azathoth observou, entretido, a evolução daqueles seres, que posteriormente seriam chamados de humanos.