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CAPÍTULO VIII — OS 79 ANOS DE FOGO

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“Setenta e nove anos não foram de treinamento. Foram de assassinato lento do menino que ainda restava.”

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“Setenta e nove anos não foram de treinamento. Foram de assassinato lento do menino que ainda restava.”

Mustafa fez o pedido numa manhã cinzenta, com os olhos fixos nos de Alp Arslan. Não havia súplica em sua voz, apenas uma determinação gélida. E assim começou o inferno.

Os primeiros dez anos foram feitos de carne e pedra. O menino corria descalço sobre rochas afiadas até as solas dos pés se transformarem em farrapos sangrentos. Quando caía, exausto, Alp Arslan o erguia pelo braço sem piedade e o devolvia ao círculo de treino. “Levanta”, ordenava o mestre com voz rouca e implacável. “O inimigo não espera você acordar.” Os ossos rachavam. A pele se abria. A dor tornou-se sua nova linguagem, constante e sem trégua. Cada amanhecer trazia novos tormentos: escalar penhascos, carregar pesos impossíveis, lutar até o limite da consciência. O menino que outrora corria pelos becos de Jerusalém aprendia, aos poucos, que o mundo não recompensava a fraqueza.

Dos dez aos vinte e cinco anos, o treinamento mergulhou em crueldade ainda mais profunda. Mustafa aprendeu a lutar sem dormir por dias a fio. Alp Arslan o acordava no meio da noite com chutes violentos, e eles combatiam no escuro, sob chuva torrencial ou sob o sol que queimava a pele como ferro em brasa. O braço esquerdo de Mustafa quebrou quatro vezes; o mestre o colocava no lugar com as próprias mãos calejadas e ordenava que continuasse. Cada erro era pago com fome, frio ou isolamento nas montanhas. A esperança morreu primeiro, sufocada lentamente. Em seu lugar, restou apenas uma determinação silenciosa e sombria.

Dos vinte e cinco aos quarenta, o menino desapareceu por completo. Restou uma máquina de dor e precisão. Cicatrizes cobriam quase toda a sua pele, mapas de sofrimento gravados na carne. Ele carregava pedras enormes nas costas enquanto corria pelas colinas áridas, aprendia a matar com as mãos nuas, com facas enferrujadas ou mesmo com os dentes. Quando falhava em um golpe, o castigo era severo: dias amarrado ao frio cortante, sem comida ou água. A fome tornou-se uma velha companheira, silenciosa e familiar. A raiva inicial deu lugar a um vazio gélido. Mustafa já não sonhava mais com risadas no pátio. Sonhava apenas com lâminas e sobrevivência.

Aos trinta e nove anos, Alp Arslan decidiu conceder-lhe um presente singular.

“Venha cá” chamou o mestre, segurando um pequeno frasco de vidro escuro na palma da mão. “Beba. É uma poção de longevidade. Ganhei de uma anciã cuja vida poupei em batalha. Em troca, ela me ofereceu algo que me permitiria viver milênios. Guardei-a por precaução.”

Mustafa hesitou por um breve instante, fitando o líquido viscoso. Em seguida, tomou o frasco e o esvaziou de um só gole. A dor veio imediatamente — lancinante, como um punhal atravessando o crânio e incendiando cada veia. Ele caiu de joelhos, pressionando o peito com as mãos, o corpo inteiro contraído em um silêncio tenso e agonizante. O ar ao redor pareceu rarefazer-se. Alp Arslan observava sem interferir.

Aos poucos, a dor cedeu. Mustafa respirou fundo, ergueu-se lentamente e, pela primeira vez em décadas, sentiu o peso esmagador dos anos transformar-se em algo semelhante à leveza. Enquanto seu corpo se cobria de cicatrizes sobre cicatrizes, a poção queimava em suas veias como uma segunda alma. Alp Arslan envelhecia com o passar do tempo. Mustafa, não. O tempo parou de marcá-lo da mesma forma, embora o sofrimento acumulado pesasse mais que qualquer idade.

Dos quarenta aos sessenta anos, o silêncio tornou-se absoluto. Mustafa quase não falava mais. Seus olhos estavam mortos, vazios de qualquer luz. Executava cada movimento com precisão mecânica, repetindo os mesmos exercícios até alcançar a perfeição absoluta. Não havia mais raiva. Não havia tristeza. Apenas a vontade fria e dura como ferro forjado no fogo mais impiedoso. Ele se tornara uma arma viva, afiada e sem remorso.

Os anos seguintes estenderam-se numa sucessão inexorável de dor, disciplina e solidão. Sob a orientação implacável de Alp Arslan, Mustafa atravessou desertos, montanhas e campos de batalha, absorvendo não apenas técnicas de combate, mas a própria essência da guerra. Cada gota de suor, cada osso quebrado, cada noite de fome e isolamento esculpia nele um homem que pouco lembrava o menino que outrora brincara de pega-pega com Maya.

Setenta e nove anos de fogo.

Quando o período chegou ao fim, o que restava de Mustafa era algo inteiramente novo — e terrível. O menino que chorara em silêncio atrás de um muro de pedra havia sido assassinado com lentidão meticulosa. Em seu lugar, erguia-se um guerreiro eterno, marcado pela tragédia, endurecido pela dor e movido por uma única força inabalável.

A vontade que sobrara.