Os dias seguintes foram envoltos em um silêncio pesado.
Mustafa passava a maior parte do tempo sentado no chão da casinha de pedra, o olhar perdido na parede áspera à sua frente. As horas se arrastavam, lentas e vazias. Alp Arslan saía pouco, quase sempre ao amanhecer, e retornava com comida, água e, às vezes, feixes de lenha seca. Quase não trocavam palavras. O homem respeitava o silêncio do menino, e o menino não pedia mais do que isso.
Na quarta manhã, muito antes do sol nascer, Mustafa levantou-se. O ar ainda estava frio e úmido. Alp Arslan estava sentado à mesa, afiando metodicamente a espada longa. O som ritmado da pedra de amolar contra o metal ecoava pelo cômodo como um coração batendo devagar.
Mustafa parou diante dele. A voz saiu rouca, mas firme:
— Me treine.
Alp Arslan interrompeu o movimento. Ergueu os olhos escuros e observou o menino por um longo tempo, como se medisse algo além da carne e dos ossos.
— Treinar você para quê?
— Para ficar mais poderoso.
O homem apoiou a espada sobre a mesa e cruzou os braços. Sua voz saiu calma, porém carregada de peso:
— E por que você quer ficar mais poderoso, garoto? Para proteger os mais fracos? Para defender quem você ama?
— Todos que eu um dia amei já morreram. Minha mãe. Meu pai. Maya. Eu só quero ser mais forte para sobreviver.
O silêncio que se seguiu foi denso. Alp Arslan sustentou o olhar do menino. Não havia pena em seus olhos — apenas uma compreensão fria, quase respeitosa.
— Sobreviver não é o mesmo que viver — disse ele, por fim.
Mustafa não respondeu. Continuou encarando-o, imóvel. Alp Arslan soltou um longo suspiro, pegou novamente a espada e passou o polegar pela lâmina.
— Muito bem. Se é só sobrevivência que você busca… eu vou te treinar. Mas saiba de uma coisa, garoto: a força que você está pedindo não vem fácil. Ela cobra um preço alto. E o preço é tudo o que ainda resta de humano dentro de você.
Mustafa assentiu uma única vez. Não havia medo em seu rosto. Apenas aquela coisa fria e dura que havia nascido no peito.
— Quando começamos?
Alp Arslan levantou-se devagar. Pela primeira vez, um leve sorriso cansado curvou seus lábios.
— Agora.
O homem pegou a espada e caminhou até a porta. Mustafa o seguiu sem dizer mais nada. Lá fora, o céu ainda estava escuro, mas uma linha fina de luz começava a surgir no horizonte. O vento frio soprou contra seus rostos, carregando o cheiro de terra molhada e pinheiros distantes.
Não era um recomeço cheio de esperança.
Era apenas o primeiro passo.
E, pela primeira vez desde a trombeta, Mustafa sentiu que o vazio dentro dele tinha um propósito.