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CAPÍTULO XIII — A PRIMEIRA CONSTELAÇÃO Sensível

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Pensamento

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Simao

Epá, aquele negrume com dois olhos de brasa ficou-me cá. A Constelação já lá estava antes da poção?

Epá, aquele negrume com dois olhos de brasa ficou-me cá. A Constelação já lá estava antes da poção?

Conteúdo da publicação

“A fúria primordial não apaga o mundo. Ela o queima vivo, para que nada reste além do que merece nascer de novo.” — Ninjha

Amanhecer cinzento. O vale ainda cheirava a sangue seco de Ain Jalut.

Os guardas mamelucos arrastaram os prisioneiros mongóis para o centro da praça. Correntes tilintavam contra as pedras. Orkhan mancava. Jelme tinha o rosto inchado. Subotai, febril, mal conseguia ficar de pé.

Ninjha foi o primeiro da fila.

Empurraram-no para o chão. Joelhos na terra. Mãos amarradas atrás das costas. A nuca exposta. O carrasco, peito nu, músculos marcados, machado já erguido. Sorriu com desprezo.

“O Imortal mongol… Vamos ver se a imortalidade para no pescoço.”

Ninjha não fechou os olhos. Não falou. Apenas respirou. O machado desceu.

Algo antigo, primordial, que dormia dentro dele desde o dia da poção, desde os setenta e nove anos de dor, desde o massacre de Jerusalém, despertou.

Não foi vontade. Foi fúria. O corpo de Ninjha escureceu por completo.

Pele, cicatrizes, roupas, tudo se tornou um negrume absoluto, como se a noite tivesse engolido o homem. Apenas os olhos restaram: dois pontos de fogo laranja-negro, ardendo como brasas nascidas no coração da antiguidade.

A Constelação Arquétipo do Gênese despertou. A tessitura primordial se rasgou. Selos invisíveis se partiram. A autoridade existencial de Ninjha se acendeu. O machado desceu. E parou no ar.

O carrasco gritou quando suas mãos viraram carvão vivo. A multidão recuou, aterrorizada.

Ninjha levantou-se. Não era mais ele quem comandava o corpo. A Constelação o dominava completamente. A fúria da antiguidade explodiu. Não é o vazio que apaga. Era a fúria primordial que queima, que esmaga, que destrói com as próprias mãos.

Ninjha deu um passo.

O chão rachou sob seus pés e chamas negras brotaram das fendas como veias vivas. Ele estendeu a mão e agarrou o carrasco pelo pescoço. O homem queimou vivo em segundos — pele estalando, olhos explodindo em fogo, corpo se contorcendo como uma tocha humana. Ninjha o arremessou contra a multidão como se fosse um trapo em chamas.

Então ele começou a destruir a cidade com as próprias mãos.

Ele correu.

Cada soco contra uma parede fazia a pedra explodir em chamas vivas. Cada chute contra uma porta transformava a madeira em fogueira rugidora. Ele agarrou um soldado pela cintura e o bateu contra o chão até o corpo virar uma pira crepitante. Pulou sobre um telhado e, com um grito gutural que não era sua voz, arrancou uma viga inteira e girou-a como um bastão, incendiando tudo que tocava.

As casas pegavam fogo sozinhas ao redor dele. Não era fogo comum. Era fogo vivo, furioso, que se alimentava da própria destruição. Chamas laranja-negras subiam pelas muralhas, lambiam as torres, devoravam os mercados. O ar ficou espesso de fumaça e gritos que morriam antes de terminar.

Os prisioneiros mongóis viram a brecha.

“CORRE!” berrou Orkhan.

Jelme e Subotai não pensaram duas vezes. As correntes já estavam queimadas. Os três correram entre as chamas, desviando de paredes que desabavam, enquanto Ninjha — ou o que restava dele — continuava sua fúria cega.

Ele pulou de um telhado para outro, arrancando telhas e arremessando-as como discos de fogo. Agarrou um mameluco que tentava fugir e o esmagou contra uma coluna até os ossos virarem brasa. A cidade inteira virava uma fogueira viva. O céu acima da praça ficou vermelho-escuro, como se o próprio firmamento sangrasse.

Horas, ou minutos se passaram dentro daquele inferno. Só quando restavam ruínas ardentes e o som de chamas crepitando Ninjha sentiu a Constelação recuar.

O negrume se dissolveu. A cor voltou à pele, às roupas rasgadas. Os olhos voltaram ao opaco habitual.

Ele caiu de joelhos no meio das brasas, ofegante, o corpo coberto de fuligem e sangue alheio.

Pela primeira vez em mais de um século e meio, Ninjha sentiu um frio verdadeiro na espinha.

Não era medo dos inimigos. Era medo de si mesmo. Ele olhou para as próprias mãos que ainda tremiam.

As unhas estavam pretas de carvão. O cheiro de carne queimada enchia suas narinas.

“Isso…” murmurou para as chamas que ainda dançavam ao seu redor. “não é força. É algo que pode me consumir.”

Ao longe, nas colinas, ele viu três silhuetas correndo: Orkhan, Jelme e Subotai. Eles haviam escapado.

Ninjha levantou-se devagar. Virou as costas para a cidade que agora era apenas uma fogueira viva e começou a caminhar na direção oposta.

Sozinho. A Primeira Constelação havia despertado. E mesmo o homem que matara a própria carne, que bebera a poção da longevidade, que sobrevivera a oitenta anos de inferno… sabia que aquela fúria era mais perigosa que qualquer exército.

Porque ela não vinha de fora.

Ela vinha de dentro.

E queria mais.

Thoughts

  • TintaEAvesso

    Fiquei dividido com a Constelação assumindo o corpo inteiro. Se não é mais ele quem comanda, a cidade queimada pesa menos nas costas do Ninjha do que podia pesar.

    Pra mim o momento mais forte vem depois, ele de joelhos nas brasas com medo de si mesmo. Aposto que o capítulo seguinte vai cobrar dele se uma parte daquela fúria era vontade dele mesmo.

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  • Simao

    Epá, aquele negrume com dois olhos de brasa ficou-me cá. A Constelação já lá estava antes da poção?

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  • sofadasala

    O Ninjha olhando pras próprias mãos tremendo no fim, com medo dele mesmo. Aposto que ele vai evitar os três de propósito agora, pra não queimar justamente quem escapou.

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  • tresPaginas

    Esta não me deixou dormir, fiquei com as mãos pretas de carvão na cabeça. Afinal o machado nem lhe tocou.

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  • paginadobrada

    Errei feio, apostei que o Subotai não saía vivo da execução e ele saiu correndo no meio do fogo. Ainda bem!

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