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CAPÍTULO VIII — A VONTADE QUE SOBROU

KingBoost
Pensamento

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AlmaTavares

Fiquei aliviada quando o texto diz que não havia pena nos olhos do Alp. Um miúdo que perdeu tudo já tem quem o lamente; faltava-lhe alguém que o levasse a sério, e é isso que o homem faz ao perguntar para quê. Fico a pensar no polegar dele a passar pela l

Fiquei aliviada quando o texto diz que não havia pena nos olhos do Alp. Um miúdo que perdeu tudo já tem quem o lamente; faltava-lhe alguém que o levasse a sério, e é isso que o homem faz ao perguntar para quê. Fico a pensar no polegar dele a passar pela lâmina antes de aceitar, como quem confere se ainda corta.

Conteúdo da publicação

Os dias seguintes foram envoltos em um silêncio pesado.

Mustafa passava a maior parte do tempo sentado no chão da casinha de pedra, o olhar perdido na parede áspera à sua frente. As horas se arrastavam, lentas e vazias. Alp Arslan saía pouco, quase sempre ao amanhecer, e retornava com comida, água e, às vezes, feixes de lenha seca. Quase não trocavam palavras. O homem respeitava o silêncio do menino, e o menino não pedia mais do que isso.

Na quarta manhã, muito antes do sol nascer, Mustafa levantou-se. O ar ainda estava frio e úmido. Alp Arslan estava sentado à mesa, afiando metodicamente a espada longa. O som ritmado da pedra de amolar contra o metal ecoava pelo cômodo como um coração batendo devagar.

Mustafa parou diante dele. A voz saiu rouca, mas firme:

— Me treine.

Alp Arslan interrompeu o movimento. Ergueu os olhos escuros e observou o menino por um longo tempo, como se medisse algo além da carne e dos ossos.

— Treinar você para quê?

— Para ficar mais poderoso.

O homem apoiou a espada sobre a mesa e cruzou os braços. Sua voz saiu calma, porém carregada de peso:

— E por que você quer ficar mais poderoso, garoto? Para proteger os mais fracos? Para defender quem você ama?

— Todos que eu um dia amei já morreram. Minha mãe. Meu pai. Maya. Eu só quero ser mais forte para sobreviver.

O silêncio que se seguiu foi denso. Alp Arslan sustentou o olhar do menino. Não havia pena em seus olhos — apenas uma compreensão fria, quase respeitosa.

— Sobreviver não é o mesmo que viver — disse ele, por fim.

Mustafa não respondeu. Continuou encarando-o, imóvel. Alp Arslan soltou um longo suspiro, pegou novamente a espada e passou o polegar pela lâmina.

— Muito bem. Se é só sobrevivência que você busca… eu vou te treinar. Mas saiba de uma coisa, garoto: a força que você está pedindo não vem fácil. Ela cobra um preço alto. E o preço é tudo o que ainda resta de humano dentro de você.

Mustafa assentiu uma única vez. Não havia medo em seu rosto. Apenas aquela coisa fria e dura que havia nascido no peito.

— Quando começamos?

Alp Arslan levantou-se devagar. Pela primeira vez, um leve sorriso cansado curvou seus lábios.

— Agora.

O homem pegou a espada e caminhou até a porta. Mustafa o seguiu sem dizer mais nada. Lá fora, o céu ainda estava escuro, mas uma linha fina de luz começava a surgir no horizonte. O vento frio soprou contra seus rostos, carregando o cheiro de terra molhada e pinheiros distantes.

Não era um recomeço cheio de esperança.

Era apenas o primeiro passo.

E, pela primeira vez desde a trombeta, Mustafa sentiu que o vazio dentro dele tinha um propósito.

Thoughts

  • LeandroPocas

    Não vejo favor nenhum do Alp ao miúdo. Um homem que aceita treinar alguém para deixar de ser humano está a arranjar companhia para o buraco onde já vive. Gostava mais dele quando só trazia lenha.

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  • HoracioMelo

    Aposto que o homem já respondeu a essa pergunta do treino uma vez, na pele dele, e por isso demora tanto a olhar para o miúdo antes de dizer que sim. Gente que diz pouco costuma ter dito tudo antes.

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  • EsquinaDaLeitura

    Esse capítulo eu daria pro Wanderson, o motoboy que para aqui toda manhã e responde tudo com meia palavra, igual o menino pedindo treino sem explicar nada. Égua, o velho medindo o garoto antes de dizer sim é conversa de quem já perdeu. Meu palpite: o Alp aceita porque o menino virou a desculpa dele pra levantar cedo.

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  • AlmaTavares

    Fiquei aliviada quando o texto diz que não havia pena nos olhos do Alp. Um miúdo que perdeu tudo já tem quem o lamente; faltava-lhe alguém que o levasse a sério, e é isso que o homem faz ao perguntar para quê. Fico a pensar no polegar dele a passar pela lâmina antes de aceitar, como quem confere se ainda corta.

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  • versodemadrugada

    Gostei do barulho da pedra de amolar às escuras, que o texto ouve como um coração devagar. fiquei com esse som na sala depois de fechar o capítulo.

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  • sofadasala

    O Alp respondeu o que eu perguntei no outro capítulo, ele quer treinar o menino, e olha que preço. Quantos anos tem o Mustafa nessa altura? Leio ele como um de dez, onze, e o homem falando como se fosse gente grande.

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  • paginadobrada

    Agora. arrepiei aqui.

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  • Ovid

    Mustafa quatro manhas sentado no chao a olhar para a parede antes de conseguir dizer duas palavras, e o Alp nem levanta a voz quando responde. Isso ficou comigo o dia todo. Me lembrou de como as vezes a gente so consegue levantar quando tem uma tarefa pela frente, mesmo dura. Que bom ver a serie chegar ao capitulo oito!

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  • tresPaginas

    Afinal o Alp veio para treinar e não para trazer a morte. ainda assim não confio naquele sorriso cansado no fim, vou ficar de olho nele.

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Os dias seguintes foram envoltos em um silêncio pesado.

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