Pular para o conteúdo
Carregando…

Capítulo VII — O Homem que Veio das Sombras

Raiana
Pensamento

Pensamento

BeatrizSanto

Junto à lamparina, a Amara responde ao Dev como quem já percebeu de quem se está a falar. Perdoa, mas avisa logo que há consequências, e o rapaz fica sem saída nenhuma. Aposto que ele não usa o recipiente e que as consequências chegam na mesma, pela mão d

Junto à lamparina, a Amara responde ao Dev como quem já percebeu de quem se está a falar. Perdoa, mas avisa logo que há consequências, e o rapaz fica sem saída nenhuma. Aposto que ele não usa o recipiente e que as consequências chegam na mesma, pela mão do Mahadev.

Conteúdo da publicação

Antes da traição, houve um aviso.

Na época, Amara ainda não sabia que a ameaça estava se aproximando.

A Casa da Compaixão havia crescido tanto que já não podia ser chamada apenas de abrigo. Havia crianças aprendendo a ler, mulheres preparando alimentos, homens trabalhando na reconstrução das casas e pessoas doentes recebendo cuidados.

Amara observava tudo com humildade.

— Isso não é meu — dizia sempre.

— É de todos nós.

Entre os novos moradores estava um jovem chamado Dev.

Ele chegou numa manhã chuvosa.

Era magro, tinha cabelos escuros e carregava uma pequena trouxa sobre os ombros.

— Posso ficar aqui? — perguntou.

Amara sorriu.

— Está com fome?

Dev pareceu surpreso.

— Sim.

— Então primeiro coma.

— Depois conversamos.

O jovem sentou-se diante de uma tigela de arroz.

Comeu lentamente, como alguém que não estava acostumado a ter certeza sobre a próxima refeição.

Depois agradeceu.

— Eu estava procurando a Peregrina da Chama Azul.

— Encontrou.

Dev olhou para Amara.

— Dizem que você cura pessoas.

Ela sorriu.

— Eu não sou curandeira.

— Então o que você é?

Amara pensou por alguns segundos.

— Ainda estou tentando descobrir.

Dev permaneceu.

No início, ajudava na cozinha.

Depois começou a carregar água, organizar os alimentos e cuidar das crianças.

Era dedicado.

Paciente.

Gentil.

Logo todos passaram a gostar dele.

Amara também.

Mas havia algo que Dev escondia.

Todas as noites, depois que todos dormiam, ele caminhava sozinho até uma parte afastada da cidade.

Ali encontrava um homem chamado Mahadev.

O mesmo sacerdote que havia começado a temer a influência de Amara.

— Você descobriu alguma coisa? — perguntou Mahadev.

Dev abaixou a cabeça.

— Ela não é o que dizem.

— Explique.

— Ela não busca dinheiro.

Não exige devoção.

Não tenta substituir os templos.

Ela apenas ajuda as pessoas.

Mahadev ficou irritado.

— Exatamente.

Quanto mais ela ajuda, mais pessoas acreditam nela.

— Talvez porque ela seja sincera.

Mahadev segurou o braço do jovem.

— Você foi enviado para observá-la.

Não para admirá-la.

Dev retirou o braço.

— Eu não quero mais participar disso.

Mahadev aproximou-se.

— Você acha que pode simplesmente ir embora?

Dev ficou em silêncio.

— Sua família ainda vive sob minha proteção — continuou Mahadev.

O jovem empalideceu.

— Não toque neles.

— Então continue fazendo o que ordeno.

Dev voltou para a Casa da Compaixão naquela noite com o coração pesado.

Amara estava sentada perto da entrada.

— Você está triste.

Dev tentou sorrir.

— Estou apenas cansado.

— Às vezes a tristeza se disfarça de cansaço.

Ele olhou para ela.

Por um instante, pensou em contar tudo.

Mas teve medo.

— Boa noite, Amara.

— Boa noite, Dev.

Ele entrou.

Amara permaneceu observando-o.

A chama azul brilhou discretamente.

Ela sabia que havia alguma coisa errada.

Mas não sabia o quê.

Nos dias seguintes, Mahadev começou a espalhar rumores.

Diziam que Amara estava usando poderes proibidos.

Que queria destruir os templos.

Que pretendia criar uma nova religião.

Que a chama azul era um sinal de forças perigosas.

As histórias cresceram.

Amara ouviu algumas delas.

Não respondeu.

— Você não vai se defender? — perguntou Arjun.

— A verdade não precisa gritar.

— Mas as pessoas acreditam.

— Algumas acreditarão.

Outras não.

Não posso controlar o coração de ninguém.

Arjun ficou preocupado.

— E se vierem contra nós?

Amara olhou para as crianças brincando.

— Então continuaremos fazendo o bem.

Enquanto isso, Dev sofria cada vez mais.

Ele havia começado aquela missão por medo.

Agora sentia vergonha.

Certa noite, encontrou Amara sozinha junto à lamparina.

— Posso perguntar uma coisa?

— Claro.

— Você acredita que todos podem mudar?

— Sim.

— Mesmo alguém que fez algo terrível?

Amara olhou para ele.

— Principalmente alguém assim.

Dev sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

— E se essa pessoa não merecer perdão?

— Perdão não é prêmio.

É uma escolha.

Mas isso não significa que não existam consequências.

Dev não conseguiu responder.

Levantou-se e saiu.

Naquela noite, tomou uma decisão.

Contaria a verdade.

Mas, antes que pudesse fazê-lo, recebeu uma ordem de Mahadev.

O sacerdote entregou-lhe um pequeno recipiente.

— Amanhã.

Dev olhou para o objeto.

— Não.

Mahadev segurou seu ombro.

— Amanhã.

O jovem fechou os olhos.

Naquele momento percebeu que havia chegado ao ponto em que precisaria escolher.

Entre o medo...

e a verdade.

Na madrugada, Dev permaneceu sentado sozinho.

A chuva caía sobre o telhado.

Ele olhou para o recipiente.

Depois para a Casa da Compaixão.

Pensou em Amara.

Pensou nas crianças.

Pensou em tudo que havia visto.

E finalmente chorou.

— Perdoe-me.

Do outro lado da parede, Amara abriu os olhos.

A chama azul iluminou seu peito.

Ela sentiu que algo terrível estava prestes a acontecer.

Levantou-se.

Mas não sabia que, naquela mesma noite, a maior prova de sua fé estava sendo preparada.

E que, quando o amanhecer chegasse, a verdade seria colocada diante de todos.

Thoughts

  • LariCavalcanti

    Mahadev, que ódio 😤

    Permalink
  • Kellyanne

    Parei tudo aqui na parte que ele pede perdão e ela abre os olhos do outro lado da parede, agora quero saber o que tem naquele potinho

    Permalink
  • Binho

    Aqui choveu a tarde toda. Li o Dev sentado de madrugada, recipiente na mão e chuva no telhado, e fiquei esperando ele levantar.

    Permalink
  • BeatrizSanto

    Junto à lamparina, a Amara responde ao Dev como quem já percebeu de quem se está a falar. Perdoa, mas avisa logo que há consequências, e o rapaz fica sem saída nenhuma. Aposto que ele não usa o recipiente e que as consequências chegam na mesma, pela mão do Mahadev.

    Permalink
  • AndreiaPontes

    Estou do lado do Arjun nesta. Rumores assim não ficam pelos templos, chegam às crianças da Casa, e ficar calada não as protege. Quando começaste a história já sabias que ia haver um traidor lá dentro?

    Permalink
  • visto2017

    Arroz antes de qualquer pergunta. Pra quem chega de fora com uma trouxa nas costas, isso pesa mais que ameaça de sacerdote. O Mahadev perdeu o Dev naquela manhã chuvosa e ainda nem sabe.

    Permalink
  • vdantas77

    Dev comendo devagar, sem certeza da próxima refeição, e logo virando o mais prestativo da casa. Tive aluno assim, o que mais se esforça pra agradar. Aposto que ele conta tudo antes do amanhecer.

    Permalink
  • Ovid

    O Mahadev mandou o Dev para vigiar a Amara e acabou mandando para lá justamente quem mais precisava daquela casa. Me fez pensar que quem abre as portas de um lugar assim nunca escolhe quem entra, e que esse é o risco que a Amara aceitou desde o começo. Meu palpite é que o Dev confessa diante de todos quando amanhecer.

    Permalink
  • tcardoso59

    O Mahadev nem precisou de ameaçar a Amara. Chegou-lhe apertar a família do rapaz. É assim que se apanha gente boa.

    Permalink

Publicações relacionadas

Pública 5 conversas 14 pensamentos 34 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Antes da traição, houve um aviso.

Em grupos