Gots — No Retorno
O trem blindado avançava pela noite, como um verme metálico rasgando o solo gelado entre Ceres e Arcádia.
Dentro do vagão reservado para a delegação arcadiana, o silêncio era denso, pontuado apenas pelo tilintar dos copos e pelo bater monótono das rodas nos trilhos.
Gots, sentado sozinho num canto, encarava o copo de uísque pela metade.
Ainda sentia o cheiro daquela mulher.
A voz dela ainda ecoava como uma lâmina fria cravada no estômago:
"Nossa vagina produz filhos."
Ele engoliu seco, sem coragem de dar outro gole.
Não sabia se estava com raiva, vergonha ou medo. Talvez um pouco de tudo.
Ela tinha razão, pensou.
Cada sílaba dela parecia enfiar-lhe o dedo numa ferida que já sangrava há séculos.
Ceres havia se tornado o que Arcádia deveria ter sido.
E ela tripudiava sobre ele, sobre todos eles, como um deus cruel fingindo dar lições.
Os bastardos haviam se tornado donos da casa.
E ele... ele não teve resposta.
Sentado ali, percebeu: não soube responder.
Os cães.
Os cães negros ainda estavam lá, soltos em Ceres.
Era uma das últimas cartas de Gots.
Uma pequena vingança. Uma experiência, como os cientistas chamaram.
Animais envenenados de ódio e doença, soltos nas ruas limpas da cidade.
Um toque de caos. Uma mancha.
Mas agora, no silêncio do vagão, nem isso lhe parecia suficiente.
Ele sequer sabia se as feras encontrariam alguém, ou se morreriam sozinhas, famintas e esquecidas nos becos.
— Maldito bicho… maldita mulher. — murmurou para si, a voz embargada, quase um suspiro.
Abaixou o olhar para as mãos — as mesmas que apertaram o botão para destrancar a caixa do cão.
Quis sentir orgulho, mas só sentia o peso da derrota.
Sabia que Arcádia não se levantaria tão cedo. Nem com mil cães raivosos.
E ela…
Ela continuaria lá.
Sorrindo com aquele desprezo que parecia maior que o continente.
Chutando deuses.
E ainda fazendo com que todos sonhassem em ser metade do que ela era.
Gots recostou-se no assento, fechou os olhos e sussurrou, para ninguém ouvir:
— Um dia, Ceres… um dia.
E o trem seguiu para a escuridão.
O refeitório estava cheio logo cedo, ainda no embalo da goleada da noite anterior.
Todos vinham cumprimentar os jogadores que estavam à mesa. Palmas, toques nos ombros, sorrisos orgulhosos.
Cors, Gene e Dark se gabavam sem pudor. Cors gesticulava contando um lance impossível, Gene sorria com o ar de quem tinha feito história, e Dark… bem, Dark zombava até do time adversário:
— E aquele camisa 8? Um tanque no primeiro tempo, uma criancinha no segundo! Deve estar mamando até agora na mãe dele! — gargalhou.
O Daime, como sempre, não deixou de soltar sua piada infame:
— Ô Theo… tu ajudou o cara a levantar duas vezes, hein? Só faltou mandar flores depois. Quer casar com ele também? — e explodiu em risadas, para desespero de todos na mesa.
Dru, sentada um pouco mais distante, não escondia o orgulho nos olhos. Ana também, de braços cruzados, com um meio sorriso contido no canto da boca. Era impossível não sentir a vibração daquela vitória em toda Ceres.
Foi então que as portas do refeitório se abriram.
Um silêncio se espalhou, pouco a pouco, conforme os olhares se viravam para a entrada.
Ceres entrou, caminhando com a calma costumeira.
E ainda assim, parecia outra pessoa.
O cabelo longo e negro que ela sempre ostentara — mesmo nos seus piores dias, mesmo quando a encontraram debilitada — havia desaparecido.
Agora os fios terminavam retos, pouco abaixo dos ombros, com uma franja longa, pesada sobre a testa.
E, presa à cabeça, uma faixa branca com uma leve mancha de água oxigenada, idêntica àquela que Theo usava no jogo.
Ela caminhou firme até a mesa, sem olhar para os lados.
Os sussurros no salão eram quase reverentes.
Era como se todos estivessem vendo Ceres inteira pela primeira vez desde que ela… quebrara.
Sentou-se ao lado de Dru e Ana sem dizer nada.
Os dois não conseguiram evitar olhar para ela com surpresa — e uma pontinha de orgulho contido.
Dark até abriu a boca para provocar, mas a intensidade do olhar de Ceres o fez engolir as palavras.
Havia algo novo naquela garota.
Algo que não era só o corte de cabelo.
E Theo, do outro lado da mesa, ergueu o olhar, encontrou os olhos dela por um segundo — e, em silêncio, assentiu.
O corte, a faixa branca, a postura: Ceres estava inteira.
Pela primeira vez em muito tempo.
Ceres não ficou muito tempo sentada ao lado de Dru e Ana.
Poucos minutos depois, levantou-se com a mesma calma glacial, ajeitando a faixa branca sobre os cabelos recém-cortados.
O salão inteiro ficou em suspense, como se ninguém quisesse respirar alto demais.
Ela caminhou até a mesa onde Theo estava com Cors, Gene, Dark e Daime.
Cada passo fazia os rapazes se encolherem um pouco mais.
Não era só a beleza dela — era algo nos olhos.
Aqueles olhos.
Azuis como o céu mais limpo que já existiu, e ainda assim gélidos como um inferno congelado.
Olhos que caçavam almas.
Ceres parou diante de Theo.
Os outros ficaram quietos, quase constrangidos, desviando o olhar para as próprias bandejas.
Dark tentou forçar um sorriso debochado, mas a intensidade do olhar de Ceres o silenciou sem que ela precisasse dizer nada.
Ela inclinou levemente a cabeça, deixando a franja pender sobre a testa.
E, então, sorriu para Theo.
Um sorriso pequeno, afiado, porém sincero — de um jeito que ninguém ali jamais tinha visto antes.
— Parabéns. — A voz dela soou baixa, mas firme, como um selo sobre a vitória dele.
Theo ergueu os olhos devagar para ela, sustentando o olhar sem hesitar.
E, pela primeira vez desde que se lembrava, sentiu aquela sensação estranha:
como se a própria alma dele estivesse sendo caçada…
… e ao mesmo tempo, libertada.
Havia algo magnético naquele instante.
Como um trato silencioso selado entre eles dois, ali, diante de todos.
Os outros sentiram.
Mesmo sem entender, sentiram.
E lá atrás, sentada ainda ao lado de Ana, Dru também sentiu.
Sentiu cada centímetro daquele olhar que não a pertencia.
Recuou, encolhendo-se na cadeira, os olhos marejando num orgulho silencioso.
Por dentro, doía. Mas ela entendeu.
Entendeu a mensagem: Theo não era dela. Nunca seria dela.
E, mesmo assim, sentiu-se feliz por ele.
Porque naquele momento, ao menos um deles tinha sido libertado.
O sorriso de Ceres se apagou num instante.
Os olhos azuis se tornaram ainda mais frios.
Sem sequer olhar para os outros rapazes à mesa, ela endireitou a postura e falou num tom que não admitia contestação:
— Ana. Dru. Kat. Gene. Agora.
Gene arregalou os olhos, atônito.
— Eu? — perguntou, apontando para si, surpreso.
— Sim. Você. — respondeu Ceres, sem sequer piscar, já caminhando para fora do refeitório, esperando que eles a seguissem.
Ana resmungou, cruzando os braços antes de se levantar.
— Você me prometeu, Ana… — murmurou para si mesma, quase num aviso, quase numa confissão.
Ceres se virou só o suficiente para lançar a Ana um olhar que a fez engolir seco.
— Você já sabe. — disse Ceres, com voz baixa, mas que ecoou no silêncio ao redor.
As duas se olharam por um longo segundo.
Era um duelo mudo. Um lembrete. Um acordo antigo.
E Ana cedeu, como sempre cedia a Ceres, soltando um suspiro irritado e se levantando atrás dela.
Kat levantou-se em seguida, cabisbaixa, mas atenta, e por fim Gene, ainda sem entender absolutamente nada, olhando para os outros como se pedisse socorro.
Foi então que Daime, no auge da sua língua afiada, comentou alto o bastante para todos ouvirem:
— Vão comer o fígado do Gene e jogar a carcaça fora!
Alguns riram nervosamente, mas Theo só manteve os olhos fixos em Ceres enquanto ela saía do refeitório com sua pequena comitiva.
Ele não ria. Não havia nada de engraçado ali.
Aquela mulher… era capaz de tudo.
E lá fora, talvez Gene fosse descobrir isso da pior maneira possível.
Na salinha da coordenação, o clima era de espera e tensão.
Kat estava sentada no meio do banco de madeira, os dedos entrelaçados no colo, balançando levemente as pernas como se isso pudesse afastar o nervosismo.
Ao lado dela, Gene parecia completamente perdido. Olhava para um lado, para o outro, como se esperasse alguém explicar o que ele fazia ali.
— Mas… eu nem sei o que tá acontecendo… — murmurou ele, virando-se para as meninas.
Dru abriu um pequeno sorriso, tentando desarmá-lo.
— Fica calmo, Gene. Não é com você.
Ana apoiou o cotovelo no encosto do banco e também sorriu, apesar do tom ácido:
— Relaxa. A única coisa que você precisa fazer é… ficar quieto e respirar. E nem isso é obrigatório.
Gene arqueou uma sobrancelha, confuso, mas antes que pudesse dizer algo, sentiu uma mão pousar levemente em seu ombro.
Ceres.
Em pé ao lado dele, ela não sorria, mas a voz soou baixa e firme, quase doce — quase.
— Não tenha medo, Gene.
Ela então se voltou para Kat, agachando-se diante dela para ficar na altura dos seus olhos.
Os olhos azuis de Ceres eram quase magnéticos agora, e Kat pareceu se acalmar só de encará-los.
— Nós estamos aqui por você, Kat. — disse Ceres, e dessa vez, sim, esboçou um sorriso breve, quase cúmplice. — Nós, meninas, cuidamos umas das outras. Não importa o que aconteça lá dentro… nós estamos com você. Fique tranquila.
Kat respirou fundo, tentando se firmar, e sentiu Dru e Ana sorrirem para ela, uma de cada lado, num gesto silencioso de apoio.
— Vai dar tudo certo. — murmurou Dru para a garota, desta vez sem a sombra de inveja nos olhos.
Do outro lado, Ana completou, com um tom entre sarcasmo e carinho:
— Se não der… bem, pelo menos vai ser divertido ver a cara da coordenadora quando a gente sair daqui.
Kat não pôde evitar um pequeno riso nervoso, sentindo-se, por um momento, menos sozinha naquele inferno que era o colégio.
E então, a porta se abriu.
A coordenadora — uma mulher elegante, com óculos de armação preta e expressão severa — apareceu no batente, segurando uma prancheta.
— Podem entrar.
Os cinco se levantaram em silêncio, mas, antes de Kat dar o primeiro passo, sentiu a mão de Ceres segurar a sua e apertar levemente.
Um aperto que dizia mais que qualquer palavra: “Não está sozinha. Eu garanto.”
E juntas, com Gene ainda perdido atrás delas, entraram na sala para enfrentar o que viesse.
Na sala da coordenação, o silêncio só era quebrado pelo arranhar da caneta da mulher elegante, preenchendo a prancheta como se fosse apenas mais um procedimento.
Kat, sentada ao centro, respirou fundo e olhou para Ceres antes de falar.
Quando abriu a boca, sua voz saiu baixa, quase solene:
— Eu… estou grávida. De… duas semanas.
O ar pareceu mudar na sala. Gene, ao lado dela, paralisou. Seu olhar ia de Kat para a coordenadora, depois para as outras garotas, como se esperasse alguém dizer que era piada.
Mas ninguém disse nada.
Gene balbuciou, confuso:
— O quê…? Como…?
Kat continuou, ainda sem olhar para ele, respondendo à coordenadora, que lia um checklist em tom impessoal:
— É a sua primeira vez?
— Sim.
— Sinais de complicações?
— Não.
— Sabe quem é o pai?
Kat finalmente olhou para Gene, que ainda estava em choque.
— Sim. — respondeu ela, firme.
A mulher anotou, satisfeita.
— Tudo certo, tudo certo.
Então ergueu os olhos para Kat e abriu um sorriso largo, inesperado — um sorriso genuíno, quase feliz demais para aquele tipo de situação.
— Querida… você vai adorar o que vem agora.
Gene, ainda atordoado, parecia incapaz de processar, mas não havia mais como negar. Estava feito.
A coordenadora fechou a prancheta e concluiu:
— Bem-vinda ao início do que somos. Ao início do que todos nós somos. Aqui é onde começa tudo, e veja só como estamos hoje. Vivos, fortes… porque alguém, um dia, foi Mãe.
Os olhares das meninas brilhavam de orgulho contido — elas sabiam. Todas elas sabiam o que significava ser uma das Mães de Ceres.
Gene apenas baixou a cabeça, meio sorrindo, meio perdido, tentando absorver aquela realidade esmagadora.
Foi então que Ceres se ergueu e tomou a palavra, com aquele tom frio e majestoso que ninguém ousava interromper.
Ela ergueu uma mão para o alto e começou o mantra, com voz quase ritual:
— Mãe Ceres… que nos alimenta, que nos educa…
E um a um, todos na sala responderam, como se aquilo fosse gravado na alma de cada cidadão:
— …e que nos devora.
Mais uma vez, em uníssono:
— Mãe Ceres… que nos alimenta, que nos educa, e que nos devora.
Gene repetiu junto, hesitante no começo, mas sentindo um arrepio percorrer seu corpo.
Ali, naquela sala, selava-se mais um destino, mais um elo na corrente.
Kat, pela primeira vez, esboçou um sorriso pequeno, tranquilo. Ela não estava mais sozinha — e não tinha mais medo.
Assim que o mantra cessou, a coordenadora largou a prancheta sobre a mesa, inspirou fundo… e sua expressão mudou como num estalar de dedos.
Aquela alegria quase maternal, calorosa — um transe quase sagrado diante de Kat — sumiu, substituída por uma máscara de rigidez burocrática.
O olhar, antes suave e orgulhoso para Kat, agora percorria o restante do grupo com desdém, quase nojo, como se os outros fossem apenas um fardo a suportar por obrigação.
Ela ergueu-se, caminhando até Kat e pousando as duas mãos sobre os ombros da garota.
— Você… — disse, num tom quase de adoração — vai ficar bem. É uma de nós. Eu cuidarei de tudo pessoalmente.
Depois, soltou os ombros de Kat e voltou ao tom neutro, profissional.
— Agora só restam os trâmites. Encaminharei você para os testes protocolares no posto médico hoje à tarde. Nada com que se preocupar — é apenas para confirmar oficialmente o que já sabemos. — E então, em dois dias… voltaremos a conversar.
Kat apenas assentiu, quase anestesiada pela mistura de medo e orgulho.
Gene tentou abrir a boca para dizer alguma coisa, mas a coordenadora já nem o olhava mais — para ela, ele não tinha importância alguma ali.
Ela voltou a folhear papéis, como se o grupo já estivesse dispensado.
Ceres, impassível, apenas se ergueu e fez um discreto gesto para as outras meninas.
— Vamos.
Uma a uma, Ana, Dru e Kat se levantaram. Kat parou por um momento antes de sair, olhando para a coordenadora, que já não lhe dirigia atenção, e depois para Gene, que parecia mais perdido do que nunca.
Ela forçou um sorrisinho para ele e murmurou:
— Eu vou ficar bem.
Gene a encarou em silêncio, engolindo em seco, incapaz de responder.
Quando saíram ao corredor, as meninas caminharam juntas, e todos os olhares que encontravam pelo caminho — colegas, funcionários — se voltavam para Kat, que seguia com a cabeça erguida.
Dru foi a primeira a quebrar o silêncio, com um sorriso maroto:
— Tá vendo? Vai dar tudo certo. A gente te falou.
Ana completou, num tom mais sério:
— Agora é só esperar os resultados.
Kat respirou fundo e olhou para frente, mais confiante do que antes.
— Dois dias.
Gene veio por último, um passo atrás, ainda tentando assimilar tudo. Mas dentro dele, algo já era certo:
Kat não era mais só “Kat”.
Ela agora pertencia a algo maior.
E ele também.
Quando as portas do colégio se abriram para o pátio externo, o sol da manhã já banhava as quadras e os jardins.
As cinco atravessaram em fila — Ceres à frente, Kat logo atrás, seguida por Ana, Dru e Gene — e o burburinho dos outros estudantes se calou à medida que os olhos se voltavam para eles.
Era um silêncio pesado, quase cerimonial.
Todos sabiam.
Todos entendiam.
Kat segurava a bolsa junto ao peito, os passos firmes, mas o coração disparado. Sentia os olhares queimarem sobre si — de medo, inveja, reverência.
Ceres caminhava ao lado dela, com a cabeça erguida e aquele magnetismo glacial. Parecia carregar Kat com o próprio olhar, como se dissesse, sem palavras: você já não é só você.
Daime, recostado numa mureta, foi o único a quebrar o silêncio com um comentário irônico:
— Lá vai ela… uma de Pietà.
Um grupo de meninas que estava por perto deu risadinhas nervosas e murmurou algo que Kat não conseguiu entender, mas pegou uma palavra clara no ar: mãe.
“Mãe de Ceres.”
Era assim que se referiam às que passavam por isso. E todos sabiam o que significava.
No coração subterrâneo da cidade, na parte mais protegida do Centro de Administração, havia um lugar que todos temiam e reverenciavam: Pietà.
Mais do que uma ala hospitalar, mais do que um abrigo… Pietà era quase uma cidade dentro de Ceres.
Os rumores diziam que tinha ruas próprias, jardins, dormitórios, hospitais, salas de aula, centros recreativos. Um útero artificial da própria Mãe Ceres, que acolhia aquelas escolhidas para dar continuidade à cidade.
Lá, as “mães” eram tratadas como tesouros nacionais — cuidadas, alimentadas, instruídas.
E, conforme também diziam os sussurros, devoradas, no fim, pela própria máquina que as protegia.
Era um destino ao mesmo tempo invejado e temido.
Kat sentia o peso desse mito se assentar sobre seus ombros enquanto cruzava o pátio, com todos os olhares colados nela.
Gene, por sua vez, sentia-se um intruso naquela procissão. Um mero espectador de um rito ao qual não pertencia.
Ele se perguntava, por baixo do choque e da confusão: será que ela ainda será a mesma Kat depois disso? Será que ainda é minha Kat? Ou agora é só dela?
Quando chegaram ao portão principal, Ceres parou, virou-se para Kat e, sem deixar de sorrir, murmurou:
— Pietà vai te acolher. Não tema.
Kat engoliu seco, mas pela primeira vez em todo aquele dia conseguiu sorrir de volta.
E, por um instante, pensou ter ouvido um eco distante, vindo de algum lugar profundo da cidade, como um cântico sussurrado:
Mãe Ceres… que nos alimenta… que educa… e que nos devora…
A sala de Doutrinação Sociológica estava cheia naquela manhã. Todos os alunos estavam presentes, até mesmo Cora e Tycho, que raramente apareciam juntos em algo que não fosse obrigatório. O projetor zumbia no canto, derramando uma luz fria sobre a tela branca.
A professora caminhava à frente da turma com um ar quase teatral, cruzando os braços. Então, interrompeu o burburinho com uma pergunta:
— Sabem qual foi o primeiro grande ladrão da humanidade?
O silêncio foi total. Ninguém ousou responder. Ela sorriu com desdém, como se já esperasse por isso.
— Foi o ser humano — disparou ela. — Que um dia pegou um pedaço de terra, cercou… e disse que era dele.
Alguns alunos trocaram olhares incômodos enquanto ela continuava, a voz carregada de sarcasmo:
— E lá estavam eles, escondidos em grandes palácios, cercados do mais puro mármore, onde a vegetação não alimentava ninguém. Não era para alimentar. Era para enfeitar.
A professora clicou no controle remoto, e a tela iluminou-se com imagens antigas de cidades opulentas.
— Aqui em Ceres — prosseguiu — aprendemos a lição. As árvores que plantamos têm propósito. São frutíferas, são medicinais. Nada em Ceres é só para enfeitar. Sabemos… controlar — repetiu a palavra com escárnio frio, lançando um olhar duro para a sala.
Fez uma pausa. Um sorriso quase cruel surgiu em seu rosto.
— Irônico, não? — disse, quase num sussurro. — A mãe natureza, essa que veneravam como deusa… foi superada. Mãe Ceres a venceu. Mãe Ceres não abandona ninguém.
Seu tom tornou-se mais professoral, com orgulho declarado:
— Nosso sistema educacional é eficiente. Noventa e cinco por cento. E vocês têm sorte, pois três exemplos desse sucesso vieram desta mesma geração… e dois estão sentados aqui nesta sala.
Apontou para Theo, que arqueou as sobrancelhas, sem se mover, o cabelo dividido pela faixa branca inconfundível.
— Olhem para ele — disse a professora, mordaz. — Com esse cabelo de gambá…
A sala inteira caiu na risada, ecoando pelo espaço estéril. Tycho, no fundo, também riu, mesmo sabendo o que viria a seguir.
— Sim, Theo já foi como o irmão dele, Tycho — continuou a professora. — Gordinho… tímido. E hoje é o que é.
Mais risos, mais olhares divertidos. Theo não esboçou reação.
A professora ergueu a mão, chamando a atenção para a tela novamente, onde uma foto se iluminou: Major Tomas, em traje cerimonial, sendo saudado por uma multidão.
— E o terceiro exemplo… Major Tomas.
A sala explodiu em aplausos e gritos. Todos sabiam quem ele era. Era uma lenda viva, o irmão que havia ido além.
— Major Tomas — disse a professora, solenemente — será o décimo terceiro astronauta a ocupar a estação espacial Ceres II.
Os olhares brilharam. As palmas demoraram a cessar.
A professora fechou o semblante e, finalmente, concluiu com a mesma solenidade cortante que marcara cada palavra:
— Este é o sistema de Mãe Ceres. Ela nos alimenta. Ela nos educa. Ela nos devora.
E, em uníssono, a sala inteira murmurou o mantra, como se fosse uma oração:
— …nos alimenta… nos educa… e nos devora.
O projetor mudou as imagens, preparando novas fotografias enquanto todos mantinham os olhos presos à tela, prontos para a próxima lição.
A professora fez uma pausa longa diante da turma, o projetor ainda zumbindo atrás dela, a luz pulsando na tela branca.
— Agora — disse, com um brilho quase proibido nos olhos — vou mostrar para vocês uma imagem que não deveriam ver tão cedo. Uma imagem… proibida.
A sala ficou em silêncio, a respiração dos alunos presa na garganta. Ela clicou no controle remoto. A nova imagem apareceu lentamente: a famosa estátua de mármore de Carrara, Pietà.
Na tela, surgia a figura monumental de Mãe Ceres, vestida de branco, o tecido esvoaçante como um manto de nuvens pesadas. O rosto oval, sem traços visíveis, como um escudo polido, ocultava a verdadeira face da Mãe — assim como todos a viam diariamente, sem jamais enxergá-la por completo. Em sua cabeça, uma coroa translúcida feita de cristais percorria a volta do rosto ausente.
Mesmo por baixo do vestido, era possível perceber as formas: seios generosos, pesados como frutos maduros; a barriga alta e firme, sugerindo vida germinando dentro dela. Nos braços, dois bebês dormiam, serenos, envoltos pelo manto branco. Aos seus pés, outros dois pequenos, despertos e famintos, estendiam as mãos implorando pelo leite da Mãe.
A base e o entorno da estátua eram de mármore negro, criando um contraste hipnótico e quase perturbador.
Era o único monumento da cidade com rostos. O único. Todos ali sabiam: aquela era Pietà, o coração da cidade das Mães de Mãe Ceres.
Kat, sentada no fundo da sala, prendeu a respiração por um instante. Ainda aguardava o resultado dos exames, mas a suspeita de que estava grávida pesava sobre ela como uma pedra.
A professora então parou a aula. Fitou Kat com intensidade e, num gesto solene, apontou para ela:
— Ressaltem Kat.
Toda a turma se ergueu em aplausos, os rostos virados para ela, sorridentes, celebrando o possível novo milagre. Gene, sentado ao lado, foi completamente ignorado, como se fosse apenas um detalhe dispensável naquela história.
A professora caminhou pela frente da sala enquanto falava:
— Todos vocês são dela. Todos nasceram lá. É assim que funciona. Nossos filhos ficam com a mãe até os dez anos de idade. Nesses anos, nós educamos, alimentamos e, enfim, colocamos nossos filhos aqui.
De repente, apontou para um garoto no canto da sala, que olhava fascinado para uma pequena aranha descendo pela parede.
— Vejam aquele jovem ali, Turk. Nem está prestando atenção, está olhando para um inseto. — A turma caiu na risada. — Aquele imbecil é meu filho.
O riso morreu. Um arrepio percorreu a turma: todos sabiam que, depois dos dez anos, nenhuma mãe voltava a ver seu filho.
— Sabem por que eu posso ver meu filho até os vinte anos? — perguntou ela, a voz gélida.
Ninguém ousou responder.
— Para vê-lo ser devorado pela Mãe Ceres.
A sala permaneceu muda. O projetor trocou as imagens, mas ninguém olhou para a tela.
— Em Ceres — continuou a professora —, por sorte e por azar, os cargos mais concorridos são os de auxiliares de limpeza, de manutenção, de professores do colégio. Sabem por quê?
Ergueu as mãos, como quem revela um segredo:
— Porque são os únicos que permitem aos pais ficarem perto de seus filhos. E os filhos sentem orgulho deles. Muito mais orgulho do que de um astronauta como Major Tomas. E sabem por quê?
Bateu o punho na mesa, a voz ecoando:
— Para ficarem perto de vocês. Para ficarem perto de vocês, seus ingratos.
Cora sorriu na fileira da frente, altiva.
— Vejam Cora — disse a professora, apontando para ela. — Mesmo cuidando do terreno de flores à frente do colégio, a mãe dela é engenheira de manutenção pública, urbanismo de Ceres. É ela quem cuida dos terrenos baldios em volta da cidade.
Mais sorrisos discretos.
— O sistema de Mãe Ceres é perfeito — disse a professora, baixando o tom, quase um sussurro. — Ele atinge todas as camadas horizontais da cidade. Todos somos iguais. Mas cada um tem sua função. Temos homens e mulheres. Temos pais e filhos.
Gene, no canto, engoliu em seco quando o olhar da professora recaiu sobre ele.
— É claro — continuou ela, com leve desprezo — que não priorizamos gravidez na adolescência. Mas queremos aprimorar o ser humano. Queremos desenvolver cada adolescente que passa por nossas mãos.
Ela ergueu o queixo e a voz, fazendo a sala repetir:
— Mãe Ceres… que nos alimenta…
— …que nos educa… — ecoaram os alunos.
— …e que nos devora.
O som da última palavra reverberou entre as paredes brancas, como um mantra inevitável, antes que o projetor trocasse para a próxima imagem.
Gene ergueu a mão devagar, como quem não tem certeza se deveria ser ouvido. A professora, de braços cruzados, parou diante do projetor, a sombra do seu rosto oval projetada na tela branca.
— Professora… — a voz dele soou firme, apesar do nó na garganta — e a liberdade? Nosso sistema… não sufoca a gente? Não sufoca nossos filhos?
A sala inteira virou-se para ele, como ondas silenciosas varrendo a praia. Ninguém parecia hostil. Pelo contrário: todos curiosos. Era como assistir a um espetáculo raro. Kat, ao lado dele, olhou-o com olhos marejados, talvez por orgulho, talvez por medo.
A professora sorriu. Um sorriso lento, sádico, e sem dizer nada clicou o controle remoto do projetor.
A nova imagem rasgou a tela: uma criança de três anos, nua e magra, pele colada aos ossos, caída num deserto sob um sol implacável. À sua sombra, um urubu esperava a morte, paciente.
O ar da sala pareceu sumir. Kat soltou um soluço alto, cobrindo a boca com as mãos. Vários recuaram nas cadeiras, como se quisessem fugir daquilo. O coração de Gene bateu tão forte que a própria imagem ficou turva aos seus olhos.
A professora finalmente falou, a voz baixa, quase doce:
— Gene... eu entendo. Você é jovem. Bonito. Cheio de colágeno nesses ossos. Vai ter muitos anos para viver. Vai ter filhos. E acha que liberdade é um presente bonito para dar a eles? É isso que você quer? A liberdade... de ver seu filho assim?
Ela apontou para a foto. Um silêncio pesado caiu sobre todos.
— Você sabe quem fez essa foto? — continuou. — Um cidadão de Ceres. Um homem que conheceu o “mundo livre”. Ele se matou depois de tirar essa foto. Pelas mazelas que presenciou. E mesmo assim, Mãe Ceres o perdoou. Mãe Ceres... que não perdoa suicidas. Nem estupradores. Nem espancadores de mulheres. Nem... traidores.
Ela caminhou devagar pelo corredor central, o salto ecoando seco no piso frio. Parou diante de Gene, quase maternal.
— Pense bem... que tipo de pai você quer ser? O que dá ao filho a liberdade... de morrer de fome?
Gene não conseguiu sustentar o olhar dela.
A professora endireitou-se, voltando ao tom calculado:
— Você pode ter esses questionamentos, Gene. Pode guardá-los para si. Mas sabe por que Mãe Ceres triunfa?
A sala, como um coral, murmurou:
— Porque funciona.
Ela ergueu o braço e comandou, firme:
— Repitam.
E a sala inteira ecoou o mantra, solene, quase como uma oração:
— Mãe Ceres, que nos alimenta, que nos educa, que nos devora.
A professora olhou para todos com um leve sorriso, antes de dizer:
— E aqueles que ainda desejam liberdade... e ousam lutar contra Mãe Ceres? Boa sorte.
Com um clique seco, a luz do projetor se apagou. A aula terminara.
Os aplausos vieram em seguida, intensos e uníssonos.
Gene ficou sentado em silêncio, os ouvidos zunindo. Kat apertava sua mão por baixo da mesa.
E, por um instante, até ele teve medo... de pensar diferente.
O som dos aplausos ainda ecoava nos corredores quando a turma começou a sair, um por um, em passos ordenados, como quem obedece um instinto antigo de não ficar para trás.
Gene permaneceu sentado, olhando para a tela branca já apagada. A imagem da criança faminta continuava lá, gravada nas retinas, mesmo com a luz voltando aos poucos à sala. Kat não o soltou. A mão dela, pequena e quente, ainda apertava a dele com força, como quem segura alguém à beira do abismo.
— Vem... — sussurrou ela.
Ele assentiu em silêncio. Quando se levantaram, notou alguns olhares em sua direção — não eram hostis, nem desdenhosos. Eram olhares... curiosos, como os de quem assistiu a um espetáculo ousado e aguardava para ver o que viria depois.
O corredor estava iluminado por lâmpadas frias. O som distante de outros estudantes ecoava, junto com o mantra repetido em vozes quase infantis:
“Que nos alimenta, que nos educa, que nos devora.”
Kat caminhava ao lado dele sem soltar sua mão. Gene sentia-se dividido: o estômago embrulhado pelo horror da foto, e um nó na garganta pelo peso da resposta. Mas também, bem lá no fundo, um fiapo de dúvida, incômodo e... vergonha.
Vergonha de si mesmo por ter feito a pergunta. Vergonha por, talvez, ter sido convencido pela resposta.
Quando chegaram ao pátio interno, Kat finalmente parou, ainda de mãos dadas. O vento balançava leve as flores plantadas nas jardineiras, brancas e vermelhas, que perfumavam o ar. Ela respirou fundo e soltou, quase num lamento:
— Você me assustou, Gene...
Ele olhou para ela, sem saber o que dizer. A voz que saiu foi baixa, rouca:
— Eu só... queria entender.
Ela sorriu triste, os olhos úmidos ainda do choro na sala.
— Não faz perguntas assim em voz alta... você não entende? As pessoas não querem ouvir respostas diferentes. A gente... — sua voz falhou por um instante — ...a gente só quer acreditar que Mãe Ceres cuida da gente.
Gene fechou os olhos, sentindo uma dor quente no peito. Não respondeu. O mantra continuava ecoando ao longe, como se a cidade inteira murmurasse ao mesmo tempo:
“Que nos alimenta, que nos educa, que nos devora.”
E, enquanto caminhavam juntos para fora do prédio, de mãos dadas, Gene se perguntou — sem ousar colocar em palavras — se o verdadeiro urubu não era a fome lá fora... mas algo aqui dentro, que ninguém queria enxergar.
Quando chegaram à escadaria que dava para o pátio principal, o som dos outros alunos já se dispersava pelos corredores laterais. Gene e Kat seguiram em silêncio, até que um vulto os esperava próximo à fonte central, sentado na mureta de pedra. Era Turk.
Turk tamborilava os dedos na pedra, distraído, os olhos fixos em algo no céu noturno entre as cúpulas iluminadas da cidade. Quando viu os dois, abriu um sorriso enviesado.
— Vocês foram corajosos lá dentro — disse, sem rodeios. — Você, principalmente, Gene.
Kat apertou mais forte a mão do rapaz, quase como um aviso para que ele não respondesse. Mas Gene apenas arqueou uma sobrancelha.
— Corajoso? Eu só... perguntei.
Turk riu, um riso seco.
— Em Ceres, fazer perguntas já é coragem suficiente pra muita gente. — Apontou para a fonte, onde a água caía calma, refletindo a luz branca das lâmpadas. — Eu fico aqui toda noite. Sabe por quê? Porque daqui dá pra ouvir as máquinas lá embaixo trabalhando, bombeando água, moendo o milho, girando a cidade inteira. E ainda assim... — abaixou a voz, como se confessasse um segredo — ...ainda assim eu tenho medo de que um dia parem de girar.
Kat olhou para ele com estranheza. Gene, por outro lado, sentiu-se menos sozinho ao ouvir aquilo. Turk não parecia louco — parecia apenas cansado.
— Você acha... — arriscou Gene, a voz baixa — ...que a gente devia mesmo ser grato por tudo isso? Mesmo sabendo o que custa?
Turk ergueu os olhos para ele, e por um instante o sorriso desapareceu do seu rosto.
— Grato? — repetiu, balançando a cabeça devagar. — A gente não escolhe ser grato. Só escolhe sobreviver.
Kat enfim soltou a mão de Gene e cruzou os braços, desconfortável.
— Vocês dois são idiotas. — E completou, a voz vacilando — Não se fala assim de Mãe Ceres. Não se pensa assim...
Turk não respondeu. Apenas voltou a olhar para o céu, a boca curvada num quase desprezo. Gene, por sua vez, sentiu uma raiva surda se misturar ao nó que já carregava na garganta desde a aula.
— É isso, então? — perguntou, quase para si mesmo. — A gente nasce pra ser alimentado... educado... e devorado?
Turk ergueu os olhos outra vez e sorriu.
— Bem-vindo a Ceres.
Gene ficou ali por mais um instante, sentindo a ironia da última frase ressoar em sua mente. Não soube se queria rir, chorar ou gritar. Tudo o que conseguiu foi inspirar fundo o perfume metálico da água da fonte e prometer a si mesmo que, se não podia mudar nada... pelo menos não deixaria de perguntar.
Kat já se afastava, olhando para trás, esperando que ele a seguisse. Gene lançou um último olhar para Turk, que já tinha voltado a encarar o céu, imóvel como uma estátua.
Então, virou-se, enfiou as mãos nos bolsos e caminhou atrás dela, os ecos do mantra ainda repetindo ao longe:
"Que nos alimenta, que nos educa, que nos devora."
Mas dessa vez, Gene não repetiu junto.
O Quarto de Gene
A noite em Ceres caía como um véu de vidro, translúcida, mas fria. Das enormes janelas do dormitório coletivo, as luzes distantes da cidade pintavam a escuridão com tons brancos e dourados. As ruas já estavam vazias, o toque de recolher havia soado há mais de uma hora.
Gene estava sentado na beira da cama, ainda vestido com o uniforme cinza da escola, encarando as mãos abertas sobre o colo. O dormitório já quase todo dormia. Só se ouvia a respiração pesada dos outros rapazes no cômodo, o zumbido das luzes de emergência e o leve gemido metálico da tubulação no teto.
Ele não conseguia dormir.
As palavras da professora giravam na mente dele como engrenagens enferrujadas. O olhar de Kat, primeiro curioso, depois duro, ainda pesava em seus olhos. E aquele maldito sorriso de Turk ainda ardia em seu orgulho.
"Você quer isso para o seu filho? Liberdade para passar fome?"
Gene respirou fundo. Sabia que a professora falava com razão — de um certo ponto de vista. Mas por que, então, quando mostraram aquela foto, seu coração se partiu não só pela criança faminta... mas também pela liberdade que aquela criança ainda tinha, mesmo à beira da morte?
Ele se levantou devagar, tentando não acordar ninguém. Caminhou até a janela, encostou a testa no vidro frio e olhou para fora.
Os campos de cultivo se estendiam à distância como um mar geométrico. As torres de irrigação iluminadas e a névoa baixa faziam tudo parecer... perfeito. Impecável. Um organismo vivo, pulsante, sem falhas.
Gene odiava o quanto tudo era perfeito.
— Isso não pode ser tudo... — sussurrou para si mesmo.
Abaixou os olhos para o pátio lá embaixo e, por um segundo, teve a impressão de ver alguém caminhando sozinho, fora do horário, uma sombra apressada sumindo numa das galerias de serviço. Um frio percorreu sua espinha.
"E se eu fosse lá fora? Só para ver. Só para... sentir."
Um turbilhão se agitava dentro dele — raiva, medo, dúvida, esperança. Ele não sabia ainda o que era. Só sabia que não conseguiria mais voltar a ser o mesmo Gene de antes. O mantra ecoava ainda nos corredores do colégio, mas desta vez ele não repetiria junto.
"Mãe Ceres que nos alimenta, que nos educa, que nos devora."
Gene sorriu, um sorriso quase amargo.
E murmurou, sozinho, para o vidro:
— Mas nem tudo que você devora... morre.
Ficou ali, com as mãos fechadas em punho, olhando para as luzes perfeitas de uma cidade que ele já começava a odiar — e a amar ao mesmo tempo.
No refeitório, a manhã acordava com um burburinho leve, quase uma disputa de vozes e risadas. Todos sentados à mesa do café, cada um com seu prato — simples, funcional, mas suficiente.
Daime, com aquele sorriso provocador, cutucava Gene:
— Liberdade? Liberdade são meus ovos! — soltou, fazendo uma pausa dramática enquanto todos riam.
Cora, rápida no gatilho, completou:
— Libertários são largados secos ao sol, só comem quando a Vanks dá uma força.
Vanks, com seu jeito prático, murmurou:
— Quando eles conseguem fazer uma boa refeição, claro.
Ana balançou a cabeça, séria:
— Liberdade não dá pra comer nem vestir, e nem serve como enfeite.
Dark, no canto, ficou em silêncio, mergulhado em sua própria indiferença.
Daime, ainda na brincadeira, levantou-se um pouco da cadeira e, com ar teatral, disse:
— Já que sou livre, que tal sairmos por aí cantando uma bela canção nos campos de flores? Posso até fazer isso no campo da Cora aqui em Ceres!
Cora, já na defensiva, retrucou:
— Sai do meu campo de flores!
Daime gargalhou, zombeteiro:
— Que isso? Campo não é seu, sua proletária das flores!
Theo, intervindo para apaziguar, falou:
— Deixa a Cora em paz. Ela cuida melhor dos cães e gatos do que das suas fraldas mal cheirosas.
Daime cruzou os braços, fingindo indignação:
— Me respeite, eu era dono do time, e você era meu reserva imediato. Esquenta banco!
Dark se levantou, enojado com aquela “família feliz” em plena manhã, e se afastou em silêncio.
O clima era uma mistura de provocação, afeto rústico e aquela convivência crua que só a rotina dura de Ceres podia proporcionar.