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Capítulo 5 — Frederic

SamanthaBruxa
Pensamento

Pensamento

NunoParreira

Fiquei preso a este Frederic sem emprego e sem casa que, mesmo assim, é o único adulto que pergunta à miúda se já comeu. No quintal ele pega noutro pedaço de madeira e senta-se ao lado dela, sem lhe ensinar nada. Desconfio do último parágrafo, das lembran

Fiquei preso a este Frederic sem emprego e sem casa que, mesmo assim, é o único adulto que pergunta à miúda se já comeu. No quintal ele pega noutro pedaço de madeira e senta-se ao lado dela, sem lhe ensinar nada. Desconfio do último parágrafo, das lembranças mais difíceis de suportar. Aposto que ele não sai desta história inteiro, e que a Charllotte vai continuar a defendê-lo mesmo assim.

Conteúdo da publicação

Frederic não chegou à vida de Charllotte como alguém importante.

Pelo menos, não no começo.

Quando apareceu pela primeira vez, era apenas um homem que começou a conversar com Margareth.

Ele não tinha dinheiro.

Não tinha emprego fixo.

Não tinha uma casa de verdade.

Vivia em um barraco simples, onde faltavam muitas das coisas que outras pessoas consideravam básicas.

Era o tipo de homem que carregava consigo uma vida desorganizada, feita de dificuldades e escolhas que nem sempre tinham dado certo.

Mas havia algo nele que Charllotte percebeu antes mesmo dos adultos perceberem.

Frederic não gritava.

E, para uma criança que estava acostumada a adultos que pareciam sempre ocupados demais, irritados demais ou preocupados demais com seus próprios problemas, isso significava alguma coisa.


Margareth começou a encontrar Frederic com frequência.

Primeiro eram conversas rápidas.

Depois encontros.

Depois, ele começou a aparecer cada vez mais na casa de madeira.

Charllotte observava tudo de longe.

Não sabia exatamente o que estava acontecendo.

Sabia apenas que sua mãe estava diferente.

Às vezes, Margareth sorria enquanto conversava com ele.

Charllotte estranhava.

Não porque nunca tivesse visto a mãe sorrir.

Mas porque parecia um sorriso diferente.

Mais leve.

Frederic também tratava Vitória com gentileza.

E tratava Charllotte da mesma maneira.

Isso chamou a atenção dela.

Naquela época, Charllotte ainda não entendia completamente a diferença entre carinho e obrigação.

Mas sabia reconhecer quando alguém olhava para ela de verdade.

Frederic olhava.

Quando ela falava, ele escutava.

Quando ela mostrava alguma coisa, ele prestava atenção.

Quando ela fazia uma pergunta, ele respondia.

Parecia pouco.

Para Charllotte, era muito.


Certa tarde, Charllotte estava sentada no quintal com um pedaço de madeira nas mãos.

Estava tentando transformar aquilo em uma pequena casinha para suas brincadeiras.

Frederic se aproximou.

— O que você está fazendo?

Charllotte levantou os olhos.

— Uma casa.

Ele se abaixou perto dela.

— Uma casa?

— É.

— E quem vai morar nela?

Charllotte pensou.

— Eu.

Frederic sorriu.

— Só você?

Ela olhou para o pequeno pedaço de madeira.

— Talvez a Vitória.

— E sua mãe?

Charllotte deu de ombros.

— Não sei.

Frederic percebeu a resposta, mas não fez perguntas.

Apenas pegou outro pedaço de madeira.

— Posso ajudar?

Charllotte olhou para ele, surpresa.

— Pode.

E os dois passaram alguns minutos tentando montar aquela pequena casa improvisada.

Não era bonita.

Não era perfeita.

Mas, para Charllotte, aquele momento ficou guardado.

Porque Frederic não tinha simplesmente passado por ela.

Ele tinha parado.


Com o passar do tempo, Frederic começou a fazer parte da rotina.

Ele passou a frequentar a casa cada vez mais.

Depois começou a ficar.

Até que, em determinado momento, já não era mais visita.

Era parte da família.

Charllotte não sabia exatamente quando aquilo aconteceu.

Talvez tenha sido aos poucos.

Um dia ele deixou algumas coisas na casa.

Depois começou a dormir ali.

Depois já havia roupas dele.

Um par de sapatos perto da porta.

Uma escova de dentes.

Uma presença constante.

Quando Charllotte percebeu, Frederic já fazia parte daquela casa de madeira.

E, apesar de tudo o que ela havia aprendido sobre adultos, não sentia medo dele.

Isso era importante.

Muito importante.


Frederic não era perfeito.

Charllotte descobriria isso com o tempo.

Ele tinha seus próprios problemas.

Tinha dificuldades para trabalhar.

Dependia dos outros em muitos momentos.

Não era um homem que tivesse conseguido construir uma vida estável.

Mas havia uma diferença entre ser imperfeito e ser cruel.

E Frederic, pelo menos com Charllotte, não era cruel.

Ele tinha paciência.

Quando ela derrubava alguma coisa, não gritava.

Quando ela fazia perguntas demais, não mandava que ficasse quieta.

Quando ela aparecia perto dele, não demonstrava irritação.

Às vezes, até perguntava:

— Já comeu?

Ou:

— Como foi a escola?

Perguntas simples.

Perguntas que Charllotte começou a esperar.

Porque gostava de responder.


Certa noite, Charllotte voltou da escola mais quieta do que de costume.

Tinha passado o dia ouvindo comentários sobre sua aparência.

Seu corpo magro.

Seus olhos grandes.

Suas roupas simples.

Ela entrou em casa sem falar.

Colocou a mochila no canto e sentou-se.

Margareth estava ocupada.

Vitória fazia outra coisa.

Frederic estava sentado próximo à porta.

Ele percebeu.

— O que aconteceu?

— Nada.

Frederic a observou por alguns segundos.

— Tem certeza?

Charllotte assentiu.

Ele não insistiu.

Apenas disse:

— Se quiser falar, eu estou aqui.

Charllotte olhou para ele.

Aquelas palavras ficaram dentro dela.

Não porque Frederic tivesse resolvido seu problema.

Ele não tinha.

Não poderia impedir os comentários das outras crianças.

Não poderia mudar suas roupas.

Não poderia fazer desaparecer a vergonha que ela sentia.

Mas ele tinha feito uma coisa que quase ninguém fazia.

Tinha deixado uma porta aberta.

E Charllotte começou a entender que talvez pudesse entrar por aquela porta quando precisasse.


Alguns dias depois, ela finalmente contou.

Não tudo.

Apenas uma parte.

— Eles ficam falando que eu sou muito magra.

Frederic ficou em silêncio.

— E falam dos meus olhos.

Ele respirou fundo.

— Criança às vezes fala coisas sem pensar.

Charllotte baixou a cabeça.

— Eu sou feia?

A pergunta saiu tão baixinho que quase desapareceu.

Frederic ficou sério.

— Não.

Ela olhou para ele.

— Não sou?

— Não.

— Então por que eles falam?

Frederic não tinha uma resposta perfeita.

Talvez ninguém tivesse.

Então respondeu apenas:

— Porque o que as pessoas falam nem sempre é verdade.

Charllotte ficou olhando para ele.

— Você acha meus olhos grandes?

Ele sorriu.

— Acho.

Ela ficou séria.

Então ele completou:

— E bonitos.

Charllotte sorriu pela primeira vez naquele dia.

Era uma coisa pequena.

Mas Frederic percebeu.


Depois daquele episódio, Charllotte começou a procurar Frederic quando precisava conversar.

Não o tempo todo.

Não sobre tudo.

Mas algumas coisas.

Às vezes, sentava perto dele sem dizer nada.

E Frederic não exigia explicações.

Essa talvez fosse uma das maiores formas de carinho que alguém já havia demonstrado a ela.

Ele sabia ficar em silêncio.

Um silêncio diferente daquele que Charllotte conhecia.

Não era o silêncio de quem ignorava.

Era o silêncio de quem permanecia.


Quando Margareth e Frederic decidiram se casar, Charllotte já estava acostumada com a presença dele.

A cerimônia foi simples.

Nada de luxo.

Nada de grandes festas.

A vida daquela família ainda era marcada pela falta de dinheiro.

Mas havia uma alegria pequena naquele dia.

Charllotte observava a mãe.

Observava Frederic.

Observava Vitória.

E sentia que alguma coisa estava mudando.

Talvez finalmente tivessem uma família.

Ou pelo menos era o que ela pensava.


Depois do casamento, Frederic passou a ocupar definitivamente seu lugar naquela casa.

Para Charllotte, isso significava que agora havia alguém para quem ela podia correr quando queria mostrar uma atividade da escola.

Alguém para quem podia contar uma história.

Alguém que perguntava se ela estava bem.

E, principalmente, alguém que não parecia irritado com sua existência.

Isso fazia diferença.

Porque Charllotte começava a perceber algo que uma criança não deveria precisar aprender tão cedo:

atenção não era uma coisa garantida dentro de uma família.

Algumas pessoas precisavam implorar por ela.

Outras recebiam naturalmente.

Vitória parecia recebê-la de Margareth.

Charllotte não.

Por isso, o carinho de Frederic adquiriu um peso enorme.


Quando Margareth descobriu que estava grávida, a casa mudou novamente.

Charllotte ficou curiosa.

Ela ainda era pequena demais para compreender todas as mudanças que uma gravidez traria.

Sabia apenas que teria outro irmão ou irmã.

Frederic parecia feliz.

Margareth também.

Vitória ficou animada.

E Charllotte começou a imaginar como seria o bebê.

— Será menino?

— Talvez — Frederic respondeu.

— E se for menina?

— Também pode ser.

— E você vai gostar dela?

Frederic riu.

— Claro.

Charllotte ficou pensativa.

— E de mim?

Ele olhou para ela.

— Claro que gosto de você.

A resposta veio sem hesitação.

Charllotte sorriu.

Talvez ela precisasse ouvir aquilo mais vezes do que admitia.


Quando Mia nasceu, Charllotte se apaixonou pela irmã.

Era um bebê pequeno, de pele clara, cabelos cacheados e um olhar tranquilo.

Charllotte queria ficar perto.

Queria ajudar.

Queria segurar sua mão.

Frederic permitia.

— Devagar — dizia ele.

Charllotte segurava Mia com cuidado.

— Ela é tão pequena.

— Todo mundo começa assim — Frederic respondeu.

Charllotte olhou para o bebê.

Depois olhou para Frederic.

E pensou que talvez aquela fosse a família que ela sempre quis.

Uma mãe.

Um pai.

Irmãs.

Uma casa.

Pessoas que cuidariam umas das outras.

Ela ainda não sabia que famílias podiam morar na mesma casa e, mesmo assim, estarem emocionalmente muito distantes.

Ainda não sabia que carinho e abandono podiam existir no mesmo lugar.

Ainda não sabia que Frederic seria, durante muito tempo, uma das poucas pessoas adultas diante de quem ela conseguiria baixar a guarda.

E também não sabia que, anos mais tarde, algumas lembranças daquela casa seriam muito mais difíceis de suportar do que outras.

Mas, naquele momento, Charllotte era apenas uma menina.

E Frederic era o homem que perguntava se ela tinha comido.

O homem que ouvia suas histórias.

O homem que dizia que seus olhos eram bonitos.

O homem que, sem perceber, havia conquistado um lugar especial no coração de uma criança que passara boa parte da vida se perguntando se alguém realmente a enxergava.

Para Charllotte, Frederic enxergava.

E isso bastava.

Thoughts

  • Oliviamar

    Casamento simples, sem festa, e a Charllotte a olhar para os três. Também casei assim, e essa alegria pequena aguenta mais anos do que as festas grandes.

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  • NunoParreira

    Fiquei preso a este Frederic sem emprego e sem casa que, mesmo assim, é o único adulto que pergunta à miúda se já comeu. No quintal ele pega noutro pedaço de madeira e senta-se ao lado dela, sem lhe ensinar nada. Desconfio do último parágrafo, das lembranças mais difíceis de suportar. Aposto que ele não sai desta história inteiro, e que a Charllotte vai continuar a defendê-lo mesmo assim.

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Frederic não chegou à vida de Charllotte como alguém importante.

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