Amme desviou o olhar por um instante.
Precisava pensar.
Talvez estivesse enxergando padrões onde eles não existiam.
Talvez Aras apenas fosse uma sotniana excepcional.
Ela expirou lentamente.
— Acho... que já treinamos o suficiente.
Aras inclinou a cabeça.
— Só isso?
— Só isso.
— Esperava algo mais difícil.
Amme soltou uma risada baixa.
— Eu também. — A eteriana caminhou até a porta e pousou a mão sobre o cristal que a mantinha fechada. Antes de abri-la, porém, voltou-se para Aras. — Há apenas uma última regra.
— Qual?
— Se alguém a cumprimentar levando a mão ao peito... — Amme demonstrou o gesto, tocando delicadamente o centro do próprio tórax. — ...faça o mesmo.
Aras repetiu o movimento.
— Assim?
— Perfeito.
— E o que significa?
Amme sorriu.
— “Reconheço a Luz que ainda vive em você.”
— É um cumprimento bonito.
— É antigo. — A expressão de Amme entristeceu levemente. — Quase ninguém lembra mais o significado verdadeiro.
Ela abriu a porta.
Os corredores da ala leste já estavam tomados pelo movimento do Luir.
Eterianos cruzavam o caminho em suas formas naturais.
Alguns tinham enormes galhadas cristalinas que pareciam florescer para trás da cabeça. Outros possuíam seis braços finos que carregavam bandejas de frutas luminosas. Havia asas rasgadas pelo tempo, caudas longas, rostos parcialmente cobertos por placas negras e olhos que brilhavam em diferentes tonalidades do Éter.
Nenhum deles escondia a própria corrupção.
Ali, aquelas cicatrizes não eram motivo de vergonha.
Eram parte de quem haviam se tornado.
Aras caminhava ao lado de Amme, observando tudo em absoluto silêncio.
Cada detalhe parecia contradizer tudo o que aprendera durante a vida.
Não havia gritos.
Nem soldados marchando.
Nem monstros sedentos por sangue.
Via famílias.
Via artistas.
Via idosos conversando junto aos pilares de Luz.
Via crianças correndo umas atrás das outras, rindo.
Ela franziu discretamente a testa.
— Eles parecem...
Não terminou a frase.
Amme completou por ela.
— Semelhantes a humanos?
Aras ficou sem resposta.
A eteriana sorriu com certa melancolia.
— Nós sempre fomos.
Continuaram andando.
Pouco a pouco, porém, o movimento ao redor começou a diminuir.
Um artesão interrompeu o trabalho sobre um cristal vivo.
Uma mulher de longos chifres abaixou lentamente o recipiente que carregava.
Duas crianças deixaram de correr.
As conversas foram desaparecendo.
Aras percebeu os olhares.
Abaixou um pouco a voz.
— Estão olhando para mim.
— Eu...
Amme também começava a notar.
Não era curiosidade por haver uma humana em Eferin, o que gerou um pequeno alívio nela.
Os olhares permaneciam fixos na postura de Aras.
Na maneira como caminhava.
Na forma como o tecido acompanhava seus movimentos.
Como se ninguém enxergasse a aparência humana.
Um eteriano muito idoso aproximou-se devagar.
Metade de seu corpo era coberta por placas negras endurecidas. Um dos chifres havia se quebrado há muito tempo, e uma das asas existia apenas como fragmentos cristalizados.
Ele parou diante de Aras.
Ergueu lentamente a mão deformada até a altura do peito.
Aras, lembrando-se do que Amme lhe ensinara poucos minutos antes, repetiu o cumprimento sem hesitar.
A mão sobre o peito.
Um leve inclinar de cabeça.
O velho fechou os olhos.
Sua respiração falhou e voltou, se sincronizando com a de Aras.
— Faz... tanto tempo...
Outro eteriano murmurou logo atrás.
— Eu já não me lembrava...
As palavras espalharam-se como pequenas ondas.
— Os movimentos...
— O jeito de olhar...
— A postura...
Amme permaneceu imóvel.
Seu coração acelerava a cada segundo.
“Não...”
“Eles também perceberam...”
Aras aproximou-se discretamente dela.
— Fiz alguma coisa errada?
Amme olhou para a princesa.
Depois para todos os eterianos ao redor.
Por fim, sorriu de forma quase emocionada.
— Não... — Sua voz saiu baixa. — Acho que fez exatamente o contrário. Parece com fome, conheço um lugar com deliciosa refeição. Me acompanha?
Amme abriu caminho novamente, e a pequena multidão acabou se dispersando aos poucos, embora muitos ainda lançassem olhares discretos para Aras.
— Eles realmente ficaram tão impressionados assim? — Aras perguntou, quase constrangida.
Amme demorou alguns segundos para responder.
— Acho que... eles se lembraram de alguém que perderam há muito tempo.
— Dos antigos eterianos?
A Segunda Guia apenas assentiu.
Poucos minutos depois, chegaram a um grande salão aberto.
Não havia mesas enfileiradas como nos reinos humanos.
O ambiente era formado por vários níveis circulares de pedra clara, separados por pequenos cursos de água luminosa. Cristais vivos cresciam entre os bancos, emitindo uma luz suave, enquanto plantas de folhas transparentes pendiam do teto.
O aroma era completamente diferente de qualquer cozinha humana.
Havia um perfume doce semelhante ao mel.
Outro lembrava pão recém-assado.
Mas também existiam cheiros minerais, parecidos com chuva sobre pedra quente.
Aras olhava para tudo.
Sobre uma bancada de cristal repousavam frutas translúcidas que lembravam lichias, mas brilhavam como pequenas luas.
Ao lado delas havia raízes azul-escuras mergulhadas num caldo fumegante cujo aroma lembrava cogumelos e castanhas.
Flores cristalizadas eram servidas ainda presas aos galhos.
E pequenos grãos dourados estalavam sozinhos dentro de recipientes de pedra, lembrando pipoca caramelizada.
Amme percebeu a expressão da princesa.
— Está assustada?
— Estou tentando descobrir o que... é comida?
A eteriana riu.
— Isso ajuda. — Pegou uma pequena fruta esférica, azul-clara. — Experimente.
Aras deu uma mordida.
A casca estalou como uma uva muito firme.
O interior era macio, lembrando pêssego, mas o sabor misturava pera, água de coco e um leve frescor de hortelã.
Ela arregalou discretamente os olhos e segurou o braço de Amme.
— Isso é... muito bom!
— Eu sabia.
Depois experimentou uma raiz mergulhada no caldo.
A textura lembrava batata-doce, mas era muito mais cremosa, enquanto o sabor se aproximava de uma mistura entre mandioquinha, cogumelos e manteiga.
Aras observava tudo com curiosidade crescente.
Foi então que algo chamou sua atenção.
Num canto mais silencioso do salão, cerca de uma dúzia de eterianos permanecia reunida.
Não havia pratos.
Nem tigelas.
Cada um segurava apenas uma pequena fruta vermelha.
Do tamanho de uma cereja.
Eles a comiam lentamente.
Uma única.
E depois voltavam a conversar.
Aras franziu a testa.
— Eles... não vão comer mais nada?
Amme acompanhou seu olhar.
Seu semblante tornou-se respeitoso.
— Não.
— Só isso?
— Eles pertencem aos Primevos.
— Primevos?
— Alguns dos eterianos mais antigos que ainda permanecem vivos.
Aras voltou a observá-los.
Eram muito diferentes dos demais.
A corrupção ainda existia, mas parecia mais discreta.
Como se seus corpos insistissem em lembrar daquilo que haviam sido.
— Quando Etérea ainda era sustentada pela Luz Primordial... — explicou Amme — alguns deles provaram o Fruto da Luz.
— O que ele fazia?
— Alimentava o corpo para sempre.
Aras desviou rapidamente o olhar para ela.
— Para sempre?
— Quase. — Amme sorriu. — Depois de provar o fruto pela primeira vez, a fome desaparecia.
— Então eles nunca mais precisavam comer?
— Precisavam. — Ela apontou para a pequena fruta vermelha. — Uma vez a cada século.
Aras abriu a boca, descrente.
— Apenas a mesma quantidade que comeram da primeira vez.
— Isso... parece tão pouco...
— É suficiente. — Amme olhou para os Primevos. — O corpo deles não depende mais da comida.
— Depende do fruto.
— Exatamente. — A eteriana respirou fundo. — Infelizmente... — Sua voz tornou-se mais baixa. — Muitos morreram.
— Por quê?
— Porque o fruto deixou de existir depois da guerra.
Aras sentiu um aperto discreto no peito.
— Eles sobreviveram durante séculos esperando encontrar outra árvore... Alguns esperaram tanto que, quando o século terminou... simplesmente adormeceram. — Amme fez uma breve pausa. — Seus corpos já não conseguiam permanecer vivos sem renovar aquilo que haviam recebido da Luz. — Amme voltou a sorrir. — Os demais eterianos funcionam de outra maneira. — Ela apontou para as mesas. — Nosso sistema digestivo mudou muito depois da corrupção.
— Como assim?
— Antes absorvíamos Éter tanto quanto alimento. Comer era um prazer, não uma necessidade constante.
— E agora?
— Agora fazemos os dois. — Ela pegou uma flor cristalizada. — Parte da energia ainda vem do Éter... — Depois mordeu delicadamente uma das pétalas. — ...mas nossos corpos aprenderam a depender mais da matéria.
Aras assentiu lentamente.
— Como se tivessem se tornado... mais humanos.
Amme sorriu.
— Um pouco.
Nesse instante, um pequeno eteriano passou correndo entre as mesas.
Na idade humana, devia ter seis ou sete anos.
Uma de suas pernas, coberta por placas cristalizadas, enroscou-se numa raiz que atravessava o piso.
Ele caiu.
A pequena fruta luminosa que carregava rolou para longe.
Antes mesmo que Amme dissesse qualquer coisa, Aras já havia se abaixado.
Pegou a fruta.
Depois estendeu a outra mão para a criança.
— Você está bem?
O pequeno hesitou.
Observou a mão diante dele.
Então a segurou.
Aras o ajudou a levantar com cuidado.
Ajoelhou-se para ficar na mesma altura.
Com delicadeza, limpou um pouco da poeira de suas roupas.
— Não se machucou?
O menino balançou a cabeça.
Ela sorriu discretamente.
— Ainda bem. — Então colocou a pequena fruta novamente em suas mãos. — Acho que ela é importante.
O menino permaneceu olhando para ela por alguns segundos.
Depois levou lentamente a mão livre ao peito.
O antigo cumprimento.
Aras respondeu da mesma maneira.
Ao redor delas...
Uma eteriana primeva levou a mão à boca.
Outro, cuja pele ainda conservava discretos reflexos cristalinos sob as placas da corrupção, fechou lentamente os olhos.
— Ainda existe...
Os outros olharam para ele e sorriram pela primeira vez em muitos anos.
— Pensei que tivéssemos perdido isso junto da Luz.
Amme observava a cena sem conseguir esconder a emoção.
Ela finalmente compreendia por que, mesmo incapaz de amar da forma como acreditava, Aras inspirava tanta devoção.
Bastava um gesto simples.
Ela enxergava alguém antes de enxergar um povo, uma raça ou um inimigo.
E sua gentileza reverbera, atingindo o próprio ambiente.