livro (trinta dias para a última lua)
— Hadria, para onde vamos agora? — perguntou Luiz, quase sem fôlego enquanto corriam.
— Para a Zona Perdida do Reino Demoníaco.
Luiz parou de correr no mesmo instante. Como ele ainda apertava a mão de Hadria, o solavanco abrupto a puxou para trás, fazendo-a chocar-se contra o peito do vampiro com um baque surdo.
— O que você disse? — indagou Luiz, com a voz carregada de preocupação. — O lugar que tem mais demônios assassinos do reino todo?
— Mas não vamos entrar na cidade — justificou ela rapidamente. — O colar está nas proximidades da cidade, dentro da Zona Perdida, em um castelo. Logo ali, perto daquelas rochas vermelhas, há um portal. O Ninho também tem portais, descobri isso quando estava dentro da biblioteca. Vamos usá-lo para chegar à Zona Perdida. Vem, eu tenho um plano. Vai dar tudo certo desta vez.
Hadria soltou a mão de Luiz e arrumou o cabelo, que estava amarrado em um rabo de cavalo meio bagunçado.
Luiz soltou um longo suspiro.
— Estou começando a ficar preocupado quando você diz que "tem um plano" e que "vai dar tudo certo" na mesma frase.
— Mas vai dar tudo certo. Eu já revisei tudo aqui na minha mente — disse Hadria. Ela apontou para a própria cabeça e sorriu, tentando encorajá-lo.
Luiz a olhou com atenção. Embora o poder de cura da garota estivesse em pleno funcionamento, o dano sofrido fora brutal: a esclera de seus olhos azuis estava avermelhada, ela exibia dois olhos roxos — um ligeiramente mais inchado que o outro —, um corte no supercílio e braços cobertos de hematomas. Ele se aproximou e segurou o rosto dela com as duas mãos, encarando-a com profunda preocupação e empatia. Sentia um misto amargo de culpa por não ter feito nada durante a luta, por tê-la deixado apanhar daquela forma para sustentar a aposta.
Hadria observou Luiz. Ele parecia prestes a chorar ao vê-la tão machucada. O toque em seu rosto era de uma delicadeza tão desconcertante que ela sequer soube nomear o que sentiu. Por instinto, apenas o empurrou para longe.
— Não precisa chorar, eu estou bem — disse apressada, erguendo suas defesas emocionais. — Na próxima vez, vou bater mais nelas.
Envergonhado com o empurrão repentino, Luiz apoiou as mãos na cintura e olhou para o céu, tentando disfarçar o constrangimento. Então, voltou-se para ela:
— Da próxima vez, não me aposte. Eu sou livre. E, quer saber? Eu não veria problema algum em viver no Ninho. Eu gostei daquele lugar — confessou ele, com incômoda sinceridade.
— Vou te levar para caminhar na Floresta Negra à noite... — rebateu Hadria, em tom de deboche.
— Hadria... — Luiz parou no meio da frase, olhando-a com falsa indignação. — Para que eles suguem a minha alma? Vampiros não têm alma! — completou, abrindo um sorriso irônico. — Eu iria fazer amizades por lá.
Ele lhe lançou uma piscadela descarada. Enquanto continuavam caminhando, momentaneamente distraídos do caos ao redor, ela disparou:
— Por que você pisca para todo mundo?
— Eu? — fez-se de desentendido.
— Sim, eu vi você piscando para a líder do esquadrão.
De repente, Hadria parou. Suas mãos voaram para o próprio peito. O colar de pedra começara a esquentar contra sua pele, pulsando em uma luz branca e frenética.
— Faz parte do meu charme... — Luiz ainda tentou brincar, antes de notar a mudança brusca no semblante da amiga.
— Vamos correr até o portal, Luiz. Agora! — ordenou Hadria com urgência cortante.
Entendendo a gravidade do aviso, o vampiro assentiu. Os dois dispararam em velocidade sobrenatural rumo às rochas vermelhas.