livro (trinta dias para a última lua)
O revoar pesado de asas na abertura da caverna quebrou o transe de Hadria. Ela estava ajoelhada ao lado de Luiz, que permanecia caído e desacordado no chão de pedra. Os olhos da garota haviam sido engolidos por uma escuridão absoluta, e suas mãos exibiam garras negras e afiadas, pairando perigosamente próximas ao pescoço do vampiro. O instinto gritava em suas veias, e ela decidia, naquele exato segundo, se deveria matá-lo pela traição da mordida.
Um dragão colossal pousou na entrada da gruta. Das costas da fera, uma mulher vestida com uma túnica preta de batalha saltou agilmente. Ela tinha cabelos ruivos trançados em um longo rabo de cavalo e intensos olhos âmbar. A expressão de tensão em seu rosto foi instantaneamente substituída por um alívio profundo ao enxergar a garota.
A escuridão sumiu dos olhos de Hadria e as garras recuaram, devolvendo-lhe a aparência normal. Ela reconheceu a mulher. Era uma de suas aias.
— Miriah! — gritou, levantando-se de um salto e correndo em sua direção.
As duas se fundiram em um abraço afetuoso. Por um momento, Miriah esqueceu a fúria que sentia pela desobediência e falta de prudência de sua pupila. Ela segurou o rosto de Hadria entre as mãos calejadas, forjadas nas batalhas, examinando-a. O alívio durou pouco. Ao notar a marca de mordida no pescoço da menina, de onde escorria um filete de sangue, seu rosto deu lugar a uma expressão severa.
— Você tem ideia do que fez? — repreendeu a aia, a voz trêmula de preocupação. — Não era hora de sair da Montanha Branca, uma guerra irá acontecer e não há mais como evitar. Você não está mais segura em nenhum lugar, Hadria. Nem mesmo na Montanha Branca. E você foi mordida por um vampiro?
A comandante deu um longo suspiro, a postura rígida cedendo ao peso do destino.
— Não era para ser assim... Não era o momento. Você ainda não está preparada para isso, ainda é uma criança. — Miriah a puxou para mais um abraço apertado, sussurrando contra os cabelos brancos da menina. — Você fez uma escolha. Acha que salvar aquele filhote de lobisomem vale a sua vida? O seu reinado?
Hadria assentiu lentamente com a cabeça, em silêncio. Ela se referia a Rowan, e sempre soube das consequências que sair da Montanha Branca poderia lhe trazer.
O dragão que trouxera Miriah grunhiu e levantou voo.
— Primeiro, vamos cuidar deste aqui — disse Miriah. Os olhos da guerreira ficaram negros, suas garras irromperam e ela caminhou em direção a Luiz, que continuava desacordado no chão.
Hadria se posicionou na frente de sua aia.
— Não! Ele é meu amigo.
— Saia da frente! — gritou Miriah.
Nesse momento, os olhos de Hadria também ficaram pretos e suas garras ressurgiram.
— Não. Ele é meu amigo.
Ela assumiu uma postura de ataque, formando uma parede viva em frente ao corpo do vampiro.
Miriah deu um longo suspiro. Como uma pessoa poderia ser tão teimosa e obstinada como a garota à sua frente? Uma raiva subiu pelo peito da comandante. Sam e eu fizemos alguma coisa errada na sua educação, Hadria, pensou.
Miriah deu mais dois suspiros longos, tentando acalmar sua raiva. Suas garras foram recolhidas e seus olhos voltaram ao normal, revelando o verde-esmeralda natural.
— Você sabe que neste mundo só existe senhor e servo, presa e caçador. Só o poder da força ou da magia pode manter você viva — disse Miriah, resignada. Guiada pela aia, Hadria caminhou até a beira da caverna e observou a paisagem. O mundo demoníaco estava à beira do caos. O mundo delas estava desmoronando.
No horizonte, sete majestosas montanhas vulcânicas despontavam, expelindo colunas contínuas de fumaça cinzenta. Nos céus avermelhados do Ninho, dezenas de dragões voavam em círculos complexos, dando rasantes e subindo em espiral, emitindo rugidos retumbantes que ecoavam por todo o mundo oculto.
— Por que eles estão fazendo isso? — perguntou Hadria, a curiosidade brilhando no olhar.
— A Rainha de Sangue de Dragão voltou — explicou Miriah, com um tom carregado de reverência e urgência. — Eles estão anunciando o seu retorno. A esta altura, todo o reino das Bruxas Negras já sabe. E a usurpadora do trono também sabe... e tentará matar você a todo custo.
Miriah olhou com profunda preocupação para Hadria. A garota, no entanto, parecia completamente alheia ao peso daquelas palavras e ao perigo iminente; exibia um sorriso maravilhado, hipnotizada pelo balé majestoso dos dragões nos céus. Era sua primeira vez no Ninho, a primeira vez que via tantos dragões juntos. Parecia que eles estavam dançando no céu.
A aia suspirou novamente, tocando o ombro da menina, como se dissesse em silêncio: eu estou aqui por você.