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Capítulo 07 – A Dança das Areias

BELADIA
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livro (trinta dias para a última lua)

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livro (trinta dias para a última lua)

Já era dia e o sol estava alto quando Hadria acordou. Ela havia sentido uma dor aguda na nuca antes de apagar, mas, como estava há dias sem dormir direito, a pancada acabou fazendo com que caísse em um sono profundo. Acordou revigorada, como se tivesse dormido em sua própria cama, sem qualquer preocupação.

Ela se espreguiçou e percebeu que estava presa em uma jaula de ferro.

— Até que enfim você acordou. Passou a noite roncando! Quem dorme assim depois de ser sequestrada? — resmungou Luiz. Ele estava trancado em uma jaula ao lado da dela. — Tentei a noite toda tirar as algemas, mas elas têm magia.

Os pulsos de Luiz sangravam de tanto que ele forçara as correntes na tentativa de se soltar.

Sem muito esforço, Hadria traçou um símbolo no ar, girou as mãos, e suas próprias algemas simplesmente evaporaram. O príncipe ficou de boca aberta, sem acreditar no que via.

Hadria, no entanto, já havia desviado a atenção. Estava olhando, encantada, para um nômade que manuseava um tapete com magia. Seus movimentos eram rítmicos e contínuos; ele traçava arcos longos com os braços e girava os pulsos com a graciosidade de um maestro regendo uma sinfonia silenciosa no ar. A cada oscilação precisa de seus dedos, o vento respondia de imediato, entrelaçando-se ao tecido rústico em espirais invisíveis que o erguiam do chão.

Ele conjurava feitiços que alteravam a própria essência do deserto. Sob o seu comando, as areias vermelhas e pretas perdiam sua natureza sólida, passando a vibrar e a se comportar como água corrente. Elas se erguiam em ondas sinuosas e pequenos redemoinhos perfeitos, reagindo à magia para mapear veios de energia que cruzavam a paisagem.

 Onde antes havia apenas um solo árido e irregular, estradas e rios invisíveis ganhavam forma e volume. As dunas obedeciam, moldando-se para criar corredores perfeitamente nivelados, canais por onde a areia fluía velozmente em um leito contínuo. O tapete não apenas voava; ele surfava sobre essas vias dinâmicas, deslizando macio e serpenteando pelas corredeiras de areia como uma pequena boia acompanhando o fluxo de um rio agitado. Hadria observava em completo transe, fascinada com a dança hipnótica entre o feiticeiro, as rajadas de vento e a terra viva em movimento.

— Hadria, está me ouvindo? Precisamos sair daqui! — insistiu o príncipe.

Despertando do transe, ela observou os arredores e notou um grupo de humanos acorrentados em fila indiana. Provavelmente seriam vendidos como escravos ou como comida em algum mercado clandestino. No acampamento, ao todo, havia seis nômades.

— Quanto tempo eu dormi? — perguntou ela.

— A noite inteira e metade do dia.

— Nossa, não tenho tempo a perder aqui... — Ela fez um novo movimento mágico com as mãos e a porta de sua jaula se abriu.

— Me solta, Hadria! — reclamou Luiz, impaciente.

Ela repetiu os gestos e, em um instante, tanto as algemas quanto a jaula do príncipe se abriram.

Livre, Luiz não hesitou. Usando sua supervelocidade, ele aniquilou dois dos nômades em um piscar de olhos. Hadria avançou logo em seguida e abateu os quatro restantes. Ambos agiram de forma ágil e letal, silenciando o acampamento em poucos segundos.

Enquanto limpava as mãos sujas na própria roupa, Hadria olhou para os corpos caídos na areia do deserto. Ela sabia muito bem como as coisas funcionavam: no mundo demoníaco, não havia espaço para bondade ou misericórdia. Se ela e o príncipe não haviam sido abatidos e devorados na noite anterior — como mandava a natureza daquelas tribos —, era apenas porque os nômades eram movidos por uma ganância ainda maior que a fome. Eles haviam calculado que poderiam lucrar muito mais vendendo a vida de um vampiro aristocrata e de uma garota com magia incomum no mercado clandestino do que simplesmente transformando-os em uma refeição.

Com os captores mortos, Luiz caminhou em direção à fila de escravizados, que assistia a tudo em um silêncio aterrorizado.

— E os humanos? Vamos soltá-los — decidiu o príncipe.

Com a mesma agilidade que usara na luta, ele rompeu as pesadas correntes de ferro que prendiam o grupo. Os humanos esfregaram os pulsos machucados e ensanguentados, ainda sem acreditar na própria sorte.

— Podem ir — disse Luiz, indicando a vastidão do deserto e concedendo-lhes a liberdade.

Os sobreviventes não precisaram ouvir uma segunda vez. Imediatamente, começaram a correr, dispersando-se o mais rápido que podiam pelas dunas de areia vermelha. Hadria acompanhou a fuga com o olhar, tombou a cabeça para o lado e virou-se para Luiz, com a testa franzida em uma curiosidade genuína.

— Você não quer guardar um humano para se alimentar? — perguntou ela, com a mesma naturalidade de quem oferece um lanche para a viagem.

Luiz ficou surpreso com a franqueza da garota. Ele sabia muito bem que era um predador, e ela não fazia a menor questão de ignorar esse fato.

— Não, não quero — respondeu o príncipe. — Posso ficar sem me alimentar por meses. Sou puro-sangue.

— Bom mesmo. Se você ousar tentar se alimentar do meu sangue, eu te mato — avisou Hadria, com os olhos fixos nele.

 — Eu nunca iria querer me alimentar do seu sangue demoníaco, esquentadinha! — retrucou Luiz, fazendo gestos dramáticos com as mãos, ofendido com a insinuação.

Ele parou de gesticular quando notou o que Hadria estava fazendo. A garota ignorava completamente a indignação dele e tentava recriar, com as próprias mãos, os movimentos exatos que havia visto os nômades fazerem para conjurar a magia do tapete.

— Você não vai conseguir recriar a magia demoníaca deles — alertou Luiz, suspirando e cruzando os braços. — Eles nasceram e viveram aqui. Essa magia que você viu faz parte da linhagem deles, da própria essência...

Mas ele não conseguiu terminar a frase.

Enquanto o príncipe discursava, Hadria girou os pulsos e a areia sob seus pés ganhou vida. O tapete subiu graciosamente no ar, sendo magicamente sustentado e levado pela correnteza de areia que se formara.

Os olhos de Luiz quase saltaram do rosto.

— Como você conseguiu recriar isso?! — gaguejou ele, perplexo. — Você só viu uma vez! Não é possível...

— Eu sou especial — respondeu Hadria com extrema sinceridade, abrindo um sorriso radiante e subindo feliz em cima do tapete flutuante.

— E agora, para onde vamos? — perguntou Luiz, acomodando-se de forma cautelosa sobre a tapeçaria que já deslizava suavemente pelas dunas.

— Para o ninho — respondeu ela, mantendo os olhos fixos na vastidão do deserto, guiando a areia com naturalidade.

— Para o ninho? — repetiu Luiz. A voz do príncipe falhou por uma fração de segundo, e a pouca cor que restava em seu rosto pálido pareceu esvair-se completamente. — Esse "ninho" a que você se refere, por acaso, é o Ninho dos Dragões Negros?