livro (trinta dias para última lua)
A aia suspirou novamente. Aquele momento de contemplação, no entanto, seria a única calmaria que teriam. Com Luiz desacordado no chão da caverna, mergulhado em um coma sombrio provocado pelo sangue primordial da menina, o tempo era algo que ela não tinha.
— Temos muito o que conversar. Você precisa me contar como foi a sua jornada até aqui e quem é este seu amigo estirado no chão. Vou levá-los para um esconderijo seguro, onde poderão ficar até que ele acorde. — Miriah abaixou-se e colocou em volta do pescoço de Hadria o colar com a pedra branca que a garota havia perdido. — Olha o que eu achei procurando por você no deserto!
Hadria segurou o pingente com força entre os dedos, respirando fundo, e ajeitou o colar de forma que ficasse seguro e protegido por dentro do casaco.
— Eu encontrei um bruxo de luz no deserto — falou Hadria com sua ingenuidade, os olhos relembrando o encontro. — Ele era assustador — concluiu ela —, mas conseguimos fugir. Luiz e eu. Ele me ajudou. Ele não é ruim.
A garota terminou a frase olhando com carinho para o corpo caído no chão, esquecendo-se completamente de que quase havia morrido enquanto seu sangue era freneticamente drenado pela mordida dele.
— Você encontrou um bruxo de luz no deserto quando estava sem o seu colar? — O coração de Miriah pulsava tão forte no peito que chegava a doer. Agora não era apenas o reino das bruxas que estaria atrás de Hadria, mas dois reinos inteiros.
Miriah andou de um lado para o outro, os pensamentos acelerados, traçando estratégias mentais para evitar o desastre.
— Vou levar você a um lugar seguro dentro do Ninho. Você não pode sair de lá. Vou ter que encontrar Sam para reportar essas informações. Você vai ficar nessa cabana até eu voltar, sem colocar os pés para fora. Entendeu? — Ela parou e segurou Hadria pelos ombros com firmeza. — Você promete?
A menina assentiu lentamente com a cabeça.
Miriah jogou o corpo desacordado de Luiz sobre os ombros com uma facilidade impressionante e olhou para a garota.
— Me siga — ordenou.
Com um salto ágil e veloz, a aia lançou-se para fora da caverna, movendo-se de forma furtiva enquanto se embrenhava na densa floresta negra que se estendia até onde os olhos podiam alcançar. Hadria correu logo atrás, atenta a cada passo.
O Ninho era um mundo dentro de outro mundo. As árvores ao redor eram colossais, com troncos escuros e retorcidos que pareciam arranhar os céus avermelhados. Suas folhas largas e em tons de ébano bloqueavam quase toda a luz, criando sombras espessas no chão forrado de raízes gigantescas. O ar ali era denso e carregava o cheiro pungente de terra úmida e ancestral, misturado ao odor forte e acre de fumaça e enxofre deixado pela presença constante dos dragões na região.
Uma magia tão antiga pulsava naquele lugar que fazia o corpo de Hadria formigar. Era algo profundo e escuro, uma energia crua que emanava da própria terra e do ar, acolhendo-a de uma forma estranhamente familiar.