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Capítulo 31: Caminhando Juntos

BELADIA
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livro (trinta dias para a última lua)

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livro (trinta dias para a última lua)

Hadria estava animada. Tinha conseguido encontrar o pergaminho para o colar azul, resolvido algumas pendências com sua aia e, agora, podia continuar sua jornada para salvar Rowan.

— Eu também tenho que te pedir desculpas. Quase cortei a sua garganta quando você me mordeu. Me desculpe — disse ela com sinceridade, enquanto caminhavam pela floresta negra.

Luiz ficou sem palavras por um momento. Ele sabia que era verdade, que Hadria poderia tê-lo matado, mas não o fez. Então, com um meio sorriso, estendeu a mão direita.

— Amigos? Vamos ser amigos? Vamos esquecer o que aconteceu e ser amigos.

Hadria abriu um largo sorriso, assentiu com a cabeça e apertou a mão do vampiro com firmeza.

— Amigos.

Os dois seguiram caminhando pela floresta negra, densa e fechada. Guiados por Hadria, aos poucos viram a paisagem se tornar menos opressiva e pesada, descendo em direção a uma planície aberta no coração do Ninho. O centro daquele santuário oculto revelou-se em uma geografia totalmente diferente da floresta: o local era dominado por árvores milenares e gigantescas, cujo ambiente não sufocava. As copas maciças formavam um teto vivo que filtrava a luz do céu, projetando sombras em forma de pequenas figuras pelo chão. Seus troncos espessos pareciam montanhas de madeira, com raízes tão altas que Hadria se sentia uma verdadeira formiguinha caminhando entre elas.

— A fonte fica logo ali na frente. Essas árvores se chamam Árvores do Amanhã — apontou a garota.

— Por que se chamam "Árvores do Amanhã"? — perguntou Luiz, intrigado com o quanto Hadria sabia sobre as engrenagens internas daquele lugar restrito.

— Foi a minha aia quem me ensinou. Eu tenho aulas todos os dias, sabia? Tenho o mapa do Ninho na minha cabeça, tive que aprender; eu tenho que estudar, é chato. — Hadria olhou com admiração para as flores translúcidas e prateadas que desabrochavam nos galhos mais baixos, exalando um perfume doce que inebriava o ar. — Elas têm esse nome porque o chá de suas flores tem o poder de revelar trechos do futuro, e elas só dão flores a cada cem anos. Só existem aqui no Ninho.

— Eu não tenho que estudar. Meus pais me deixaram sozinho no castelo, rodeado de servos. Eu só tinha uma biblioteca gigantesca... mas eu gosto de estudar. Eu gostaria de ter tido um tutor e aprendido sobre tudo. Quando eu for para as Terras Altas, vou procurar ser um jovem dedicado e cultivar a sabedoria com o passar dos anos — disse Luiz, revelando seus planos para o futuro.

— Você quer morar na Montanha Branca conosco?

— Não. Quando terminar a sua jornada, antes da última lua, eu vou para as Terras Altas conhecer o outro lado do mundo — retrucou Luiz, caminhando ao lado dela.

Hadria ficou triste por um momento após a revelação de que Luiz pretendia ir embora. Ela havia arquitetado todo um plano para pegar o colar e voltar para a Montanha Branca, e, em sua mente, Luiz já fazia parte de todos os seus planos futuros. Enquanto isso, o rapaz tagarelava sem parar, fazendo perguntas sobre os segredos do Ninho e sobre a biblioteca, um lugar que ele achou formidável e cuja perda de acesso lamentava profundamente por não ter tido a chance de conhecer enquanto estava desacordado.

— Se você se transformar em humano... — falou a menina, preocupada.

— Hadria, tudo bem. Se eu virar um humano, vou ficar bem — Luiz a interrompeu.

— Eu... — Hadria respirou fundo, lembrando-se de Lúcia, a amiga humana que não conseguira salvar. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas ela conteve o choro: — Eu te protejo se você virar humano. Não vou deixar nada de mal te acontecer, eu prometo.

Hadria falou com tanta sinceridade que Luiz sentiu uma pontada no peito. Nesse instante, seu sangue voltou a ferver repentinamente, como se fogo estivesse caminhando por suas veias. Ele fraquejou e caiu de joelhos, contendo a dor. Suas mãos começaram a pulsar com a sensação de que seus dedos e suas palmas estavam derretendo; seu peito parecia queimar, a respiração tornou-se ofegante e ele tentou segurar o grito de dor, fechando os olhos com força.

Hadria, que estava ao seu lado, tentou amparar o amigo. Ela se abaixou próxima ao seu rosto e colocou o braço em volta de seu ombro para tentar levantá-lo. No momento exato em que os rostos deles ficaram a centímetros de distância, Luiz abriu os olhos. A menina se assustou, deu um passo para trás e caiu de costas na terra.

Luiz colocou as duas mãos no chão, tentando controlar a respiração e a agonia. Percebendo que não conseguiria conter à força a dor pulsante que irradiava por todo o seu corpo — nem aquilo que crescia por debaixo de sua pele —, Luiz tomou uma decisão: aceitar. Ele fechou os olhos com força novamente e concentrou-se em rastrear o rastro daquele formigamento que passeava por seu interior, acompanhando-o até que a intensidade diminuísse e desaparecesse por completo.

— Luiz... — falou Hadria com urgência. — Seus olhos mudaram. Quando você os abriu... eles estavam diferentes.

Luiz levantou o olhar para Hadria, tomado por curiosidade e preocupação.

— Diferentes como, Hadria?

— Eles estavam com uma cor amarelo-ouro, com uma fenda vermelha no meio... Parecia com algo que eu já vi... — falou a garota, tencionando a memória, tentando lembrar onde havia visto um olhar semelhante àquela mutação repentina.

Luiz levantou-se às pressas e disse:

— Vamos logo à fonte. Eu preciso muito daquela água — falou Luiz com urgência. O que quer que estivesse se transformando nele, definitivamente não era um humano.

Alguns quilômetros mata adentro, a fonte finalmente se revelou.

Thoughts

  • AmandaPeixoto

    O Luiz corta a Hadria antes de ela terminar a frase e jura que vai ficar bem se virar humano. Quem interrompe assim costuma já saber a resposta e não querer ouvir a pergunta inteira. Meu palpite é que ele sentia aquilo desde antes dos olhos mudarem, visse.

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  • Ovid

    A flor que só abre a cada cem anos me fez pensar que ninguém coloca uma árvore dessas no caminho à toa. Aposto que esse chá ainda aparece antes da última lua, e que quem vai beber é o Luiz, com medo do que vai ver. Os olhos amarelos no fim deixaram tudo bem mais urgente, @BELADIA!

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  • GasparRibeiro

    Tem aulas todos os dias e sabe o mapa do Ninho de cor, e ainda chama aquilo chato. Desconfio que é esse mapa decorado à força que os vai tirar dali quando a coisa apertar.

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