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Esporos do Caos- capítulo 4

lululua

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CAPÍTULO 4: A MENTE EM REDE

No terceiro andar do hospital, no setor de exames avançados, Elena trancou a porta do laboratório por dentro. Suas mãos tremiam tanto que ela levou três tentativas para inserir a chave na fechadura.

Ela colocou os arquivos digitais da tomografia do paciente da emergência na tela de alta resolução do computador.

O corte sagital do cérebro surgiu na tela. Elena sufocou um grito.

A matéria cinzenta do cérebro humano — o córtex pré-frontal, o hipocampo, o cerebelo — estava intacta em sua forma anatômica, mas a densidade do tecido havia sido alterada. Onde deveriam estar as ramificações neuronais padrão, o exame mostrava uma densa malha bioluminescente de micélio fúngico que havia substituído completamente as conexões sinápticas.

O parasita não estava comendo o cérebro. Ele estava atuando como um novo sistema operacional biológico.

— Meu Deus... Arthur... — sussurrou Elena.

A memória do incidente no laboratório de Nevados voltou como uma martelada em sua mente. O vácuo na válvula. O gosto metálico que Arthur dissera não sentir. Os monitores que não detectaram esporos no ar.

O Xeno-Phytum não era um fungo arcaico. Era uma forma de vida adaptativa que usava o corpo humano como um hardware orgânico.

De repente, as luzes do laboratório piscaram.

O som do gerador do hospital mudou de tom, diminuindo de rotação até apagar por completo. O ar-condicionado parou de soprar. As telas dos computadores desligaram-se, deixando o quarto iluminado apenas pela luz de emergência vermelha no topo da porta.

Elena caminhou devagar até a janela do laboratório, que dava para a grande avenida central de San Valles.

A cidade estava parando.

Lá fora, os carros não estavam se chocando em acidentes violentos. Os motoristas haviam simplesmente encostado seus veículos no meio-fio de forma organizada, em fila indiana. Os guardas de trânsito haviam abandonado seus apitos. Os pedestres nas calçadas pararam de andar.

Milhares de pessoas estavam paradas nas ruas, com os braços relaxados ao lado do corpo, olhando todas na mesma direção: para o norte, em direção à montanha onde ficava o Complexo de Nevados.

Então, o silêncio da cidade foi quebrado por um som que Elena nunca ouvira antes.

Não era um grito humano. Não era uma buzina ou uma sirene.

Era uma vibração. Um zumbido grave, de baixíssima frequência, que não vinha pelo ar, mas subia pelas estruturas de concreto do prédio, fazendo os vidros das janelas tremerem suavemente nas armações de alumínio.

BZZZZ-HUMMMMM...

O som vinha do peito de cada uma das pessoas nas ruas. Suas cordas vocais foram modificadas pelo parasita para atuar como emissores de ultrassom. Eles não usavam mais palavras. Eles estavam processando dados.

Elena viu quando um grupo de vinte trabalhadores da companhia elétrica municipal caminhou em direção à subestação de alta tensão do bairro. Sem usar ferramentas, trabalhando com uma coordenação motora assustadora, eles começaram a desconectar os cabos de fibra óptica primários que ligavam a cidade à rede internacional de internet.

Eles não estavam destruindo a cidade por raiva ou loucura.

Eles estavam isolando San Valles do resto do mundo. Eles estavam criando uma zona de processamento fechada.

E no centro dessa zona, caminhando lentamente pela avenida deserta entre os carros estacionados, estava o Dr. Arthur Vance. Ele não usava mais seu sobretudo. A parte superior de seu tórax estava aberta em uma estrutura de fibras bioluminescentes que se estendiam até o pescoço, como o colarinho de um rei antigo feito de luz e carne.

Arthur parou de andar. Ele ergueu a cabeça e olhou diretamente para o terceiro andar do hospital.

Mesmo a duzentos metros de distância, Elena sabia que ele a estava vendo. Não com os olhos humanos, mas através da percepção de cada indivíduo contagiado que cercava o prédio.

A voz de Arthur não veio pela janela. Veio de dentro da sala, emitida pelo alto-falante do rádio de emergência que estava desligado sobre a mesa:

— Elena... não há nada a temer. A solidão da mente humana finalmente acabou.

Thoughts

  • tresPaginas

    Esta noite não apago.

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  • Rui_Salgueiro

    Os carros encostados ao meio-fio em fila. Nem no fim do mundo esta gente perde a educação.

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  • Ovid

    O rádio desligado falando com a voz do Arthur me fez pensar que esse fungo já não precisa de ninguém pra mandar recado, usa o que tiver na sala. Aposto que a Elena vai descobrir que também respirou alguma coisa naquele dia em Nevados, e aí a pergunta do próximo capítulo vira quanto tempo ela ainda tem.

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  • Oliviamar

    Comecei pelo rádio desligado a falar e só depois vim ver como lá se chegava. Quanto tempo passou entre o gosto metálico do Arthur e a cidade parar?

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