Clarisse chegando de madrugada na Liberdade e o vaso de rosas ali na janela aberta, tipo a única coisa esperando ela em casa. Aposto que o Filipe aparece nesse apê antes do sábado da De Leon.
Capítulo 3: Quer Ser Aceita - Parte 2 Final
Pensamento
Clarisse chegando de madrugada na Liberdade e o vaso de rosas ali na janela aberta, tipo a única coisa esperando ela em casa. Aposto que o Filipe aparece nesse apê antes do sábado da De Leon.
Conteúdo da publicação
A tarde chega, e a Rua Augusta começa a vestir a noite com suas luzes.
São 18h.
A Barbershop Augusta está aberta, mas sem funcionamento.
Anton é, como sempre, o primeiro a chegar, já que sua loja tem horários mais flexíveis.
A barbershop tem quatro cadeiras dispostas diante dos espelhos e duas mesas pequenas ao fundo.
Uma geladeira retrô preta divide espaço com outra, comercial, mais simples.
As luzes amareladas deixam o ambiente aconchegante.
Iago comenta sobre as cervejas enquanto os dois seguram canecas de chope, cercados por garrafas abertas.
— Sabe, às vezes penso em largar isso de fazer barbas, cabelos e bigodes. Mas não consigo. Gosto da harmonia facial, de dar vida ao rosto dos homens.
Anton sorri.
— Se eu tivesse barba, bem que você poderia usar meu rosto como modelo. Mas, sinceramente, gosto da sua barba.
— Bem, você tem cara de estagiário, né? Essa cara lisa de moleque que parece ter dezesseis anos.
— Sim — Anton ri. — Imagina eu virando professor...
— As meninas ficariam loucas. Com certeza você seria demitido.
— Por quê?
— Por ser belo demais, ué.
Anton dá uma gargalhada.
— Nem me fale. Sofria horrores no colégio.
— Sofria por quê? Você fazia os outros sofrerem.
— Confesso... gostava disso. Era bom para o ego. Mas depois fica chato ver as meninas disputando sua atenção. Posso rir hoje, mas essa fase passou.
— Nossa, você era cafajeste, hein?
— Sim. Tinha uma que me perseguia. Uma vez, tirou o sutiã na minha frente.
Iago arregala os olhos.
— E você? O que fez?
— Eu tinha só treze anos! Fiquei assustado. Era muito tímido.
— Nossa...
— E não eram só meninas. Meninos também.
Iago se inclina, curioso.
— Eles tiravam as cuecas do Mickey?
Os dois caem na risada.
Guillian escuta a gargalhada do corredor e entra na barbershop ao lado de Clarisse.
— Quem tirava as cuecas do Mickey?
Anton ri.
— Um menino tirou a cueca na minha frente!
Guillian fica nervosa, enciumada.
— Você é sujo!
— Calma, Gui, eu tô zoando. Você pegou o bonde andando.
— Que seja. Isso dói em mim.
Anton ri ainda mais.
— E você, Iago? Como era sua vida no colégio? Aposto que você era muito piranho.
Iago ri com nostalgia.
— Sim... havia um menino. Mas eu namorava a irmã dele. Ela era linda, um anjo. Me entendia. Ela sabia que o irmão era afim de mim. A gente se gostava muito... mas ela se apaixonou também.
Guillian arregala os olhos.
— Mas deu rolo...
Anton se inclina, curioso.
— Ué, conta o resto. A família ficou sabendo de alguma coisa?
Iago balança a cabeça.
— Me apaixonei pelos dois. Fiz de tudo para ser expulso do colégio. E fui.
Anton bate na mesa.
— Você não presta mesmo! Seu moleque piranho!
Iago interrompe, sorrindo.
Aparece Clarisse na porta.
— Venha cá, Clarisse. Senta do meu lado.
Clarisse se aproxima, com os olhos atentos, como se estivesse assistindo a um teatro itinerante cheio de histórias.
Guillian sente ciúmes de tudo e de todos.
Clarisse apenas observa.
Anton puxa Guillian pela cintura.
— E você, Clarisse? Tem alguma estripulia no colégio para contar?
Clarisse fica vermelha.
— Não é interessante...
Iago serve algo para ela beber e empurra alguns petiscos para perto.
— Conta, minha linda.
Ele mexe de leve em uma mecha do cabelo dela.
Clarisse não se sente invadida. Sente-se tocada com respeito. Iago tinha esse jeito: fazia carinho sem pedir nada em troca.
Era difícil não gostar dele.
— Bem... não foi no colégio. Foi na minha casa, à noite...
Iago arregala os olhos.
— Eita porra!
Todos riem, até Guillian fica admirada.
— Não, não é isso, gente! Eu tinha quatorze aninhos...
As risadas viram alívio.
— Foi um menino que foi na minha casa, à noite, dizer que me amava. Ele subiu o sobrado.
Todos se calam, concentrados.
Clarisse percebe que eles não estão reparando no seu sotaque, nem no seu jeito simples.
Estão apenas esperando sua história.
Pela primeira vez em muito tempo, ela sente que tem espaço para ser ela mesma.
— Ele subiu... e caiu. Deslocou o braço!
Todos ficam em choque.
— E aí? Conta!
— Meu pai levou ele ao hospital. Ele engessou o braço, meus pais chamaram os pais dele, ele levou uma bronca... Mas confesso que achei bonito ele fazer aquilo. Alguém fazer tudo para te ver ainda no mesmo dia. Claro, puro ego.
— Que doideira!
— No dia seguinte, eu desenhei corações no gesso dele. Mas depois os amigos dele passaram por cima de tudo que eu escrevi e escreveram: “Quem tirar esse gesso é viado!”
Anton cospe cerveja pelo nariz.
Guillian se engasga de rir.
Iago cai no chão, gargalhando.
Clarisse ri junto, sem conseguir parar.
Queria viver para sempre ali.
Era mágico.
Eles riam de uma tragédia que ela carregou por anos como peso.
E, pela primeira vez, ela sentiu aquela lembrança ficar leve.
Clarisse ria com eles, reparando como cada um imaginava a cena à sua maneira. Era como ver rosas crescendo em alta velocidade.
Iago rolava de rir, com gargalhadas gostosas e contagiosas.
Guillian tinha uma doçura quase infantil.
E Anton, sempre sério, limpava o nariz depois de se engasgar com a cerveja.
Clarisse sorriu e perguntou:
— E você, Guillian?
As risadas cessaram devagar.
Havia um espinho ali.
Clarisse ainda não sabia.
— Ah, desculpa, Guillian...
Guillian apenas sorriu.
— Tudo bem. Pode me chamar de Gui mesmo.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Eu passava mais tempo em clínicas do que no colégio. Minha ansiedade me impedia de ir às aulas.
O silêncio caiu sobre a mesa.
— Às vezes, eu imaginava alguém indo me visitar porque gostava de mim do jeito que eu era.
Gui mexeu no copo.
— Os remédios eram fortes. Eu delirava. Imaginava aquelas cenas típicas de adolescente, sabe? Alguém me oferecendo dentes-de-leão para assoprar.
Ela riu de leve.
— Era tudo meio turvo. Esse alguém me beijava... e eu acordava com gosto de remédio na boca.
Anton coçou a nuca.
— Que isso... ficou o maior climão tristão, hein?
Ninguém respondeu.
Clarisse percebeu que aquele silêncio também fazia parte da dinâmica deles. Não era desconfortável. Era cuidado.
Iago olhou para os três e, de repente, interrompeu o clima:
— É isso aí...
Anton entrou na brincadeira:
— Um vendedor de flores...
Guillian completou:
— Ensina seus filhos...
Todos olharam para Clarisse.
Era o momento.
A música voltou à mente dela.
Ela sorriu e disse:
— A escolher seus amores...
Os quatro cantaram juntos, com os copos ainda meio cheios e o álcool começando a subir.
— Eu não sei parar de te olhar...
Eles se olharam, rindo, contemplando uns aos outros.
Iago bateu na mesa.
— Precisamos ir a um karaokê qualquer dia.
— No Siga La Vaca? — perguntou Guillian.
— Sim, esse mesmo. É perto daqui. Podemos combinar.
— Ah, mas eu prefiro o Jabuticaba! — disse Gui.
Todos concordaram.
Menos Clarisse.
Ela ficou em silêncio, achando que o Happy Hour terminaria ali.
— Tem mais ainda? — perguntou, surpresa.
Anton sorriu.
— Bora. Você tem algum compromisso com alguém?
Na mesma hora, Clarisse se lembrou de seus problemas mal resolvidos.
Lembrou de Filipe.
Da mensagem que ele havia mandado naquela manhã.
Ela hesitou por um segundo.
— Não... não. Eu vou.
Disse isso com uma confiança que nem sabia de onde vinha.
Guillian correu e agarrou Clarisse em um abraço apertado.
Era tão fofa e contagiante que Clarisse não conseguiu evitar o riso.
Clarisse pergunta, curiosa:
— Mas afinal, o que é Jabuticaba?
Iago responde, com a maior cara séria do mundo:
— Um fruto!
Todos caem na risada.
Guillian revira os olhos.
— Dã... é um barzinho aqui na Augusta. Gente bonita, petiscos... vamos só pra saideira.
Iago completa:
— O karaokê fica pra outro dia.
Anton pega a jaqueta e olha para os três.
— Bora, então?
***
O quarteto sobe a Augusta vestida de luzes, cercado por gente de tribos diferentes.
A rua parecia um organismo mutante. Em São Paulo, o Happy Hour era quase sagrado: baladas, bares, casas noturnas, pessoas procurando alguma coisa vestidas de mistério.
Anton vinha um pouco atrás, quase como um guarda-costas silencioso. À frente, Guillian, Iago e Clarisse formavam um trio animado.
Guillian olhou para trás e piscou para Anton.
Uma travesti observou o grupo passando.
— Meu Deus, que trio delicioso! — disse ela, olhando-os de cima a baixo.
Anton riu, sem parar de andar.
— E esse garoto lindo aí atrás? — ela provocou, apontando para ele.
Anton levou a mão ao peito, fingindo escândalo.
— Eu? Sou tímido demais para isso.
O quarteto caiu na risada.
Iago olhou para Anton e provocou:
— Por que você deu drible na pobre trabalhadora da terceirização do prazer?
— Bem... — Anton respondeu, rindo — para ela não roubar meu coração.
Guillian bateu no braço dele.
— Ai, que cafona!
Eles continuaram subindo a Augusta, ainda rindo da brincadeira.
No meio da multidão, um rapaz esbarrou discretamente em um grupo de jovens que vinha na direção oposta.
Poucos segundos depois, um deles levou a mão ao bolso.
— Meu celular!
O rapaz já havia desaparecido entre as luzes da rua.
O quarteto se entreolhou, assustado.
Instintivamente, todos tocaram seus bolsos e bolsas.
— Ufa... o meu está aqui.
— O meu também!
— Meu Deus, ainda bem.
Ao longe, a travesti acenou para eles com um sorriso.
— Cuidem dos corações... e dos celulares!
***
Rua Augusta, esquina com a Rua Matias Aires.
O letreiro grande do JABUTICABA brilhava sobre a multidão.
Lotado.
Gente linda por todos os lados.
Anton olhou para os três.
— Vou na frente pedir duas garrafas e alguns copos.
O trio ficou na calçada, observando as pessoas sentadas nas mesas, outras espalhadas pelo deck.
Todos trocavam olhares rápidos, mas era o trio que chamava atenção mesmo parado ali.
Não havia como sentar. O jeito era ficar no meio-fio.
Iago olhou para Clarisse.
— O que achou, Clarisse?
— Lindo! Cheião, hein?
Guillian, já no grau das bebidas da barbershop, começou a fazer uma dancinha com biquinho.
Iago riu.
— Sua doida, louca varrida!
Clarisse entrou na brincadeira. Fez biquinho também.
O álcool começava a subir.
Iago apenas acompanhou a dança, e os três começaram a cantar juntos:
“All the other kids with the pumped up kicks
You better run, better run, outrun my gun”
De repente, Iago parou.
— Gente... essa música é violenta demais.
Guillian deu de ombros.
— Foda-se!
Anton voltou com duas garrafas de cerveja e alguns copos descartáveis.
Guillian tomou uma das garrafas das mãos dele, junto com um copo.
— Essa é minha — disse, como se estivesse reivindicando um prêmio.
Encheu o copo até quase transbordar.
Anton, acostumado com as manias dela, apenas sorriu e serviu os copos restantes, dividindo a cerveja entre Iago e Clarisse.
Depois completou o próprio copo e ficou com a outra garrafa na mão.
Os quatro brindaram no meio-fio da Augusta.
Ao redor, o Jabuticaba fervilhava de gente, música e luzes.
Mas, por um instante, parecia que existiam apenas eles.
Anton olhou para o copo descartável e fez uma careta.
— Eu odeio isso!
Guillian parou a dancinha na mesma hora.
— Minha dancinha? Por quê?
Anton riu.
— Não, boba. Eu adoro sua dancinha. Estou falando da cerveja.
— Tá ruim? Tá quente?
— Não. É porque tem pouca cerveja no mundo.
Guillian gargalhou alto.
Clarisse observou a harmonia dela, como se cada gesto de Guillian ocupasse o espaço com naturalidade.
Ao redor, as pessoas do bar olhavam para o quarteto.
Os risos altos, a proximidade, a beleza deles juntos.
Era como se todos tentassem adivinhar o que os mantinha unidos.
Alguns rapazes olhavam para Clarisse.
Outros olhavam para Guillian.
Mas Guillian não parecia se importar com nada disso.
Dançava devagar, no meio-fio, como se estivesse na sala de estar da própria casa.
De repente, ela parou e levou a mão ao peito.
— Que vontade louca de fumar... fumaaaaa!
Iago a olhou com firmeza.
— Se controla, amiga.
Ao lado, um grupo de jovens fumava.
O aroma da fumaça chegou até eles.
Anton se aproximou de Guillian, que já começava a se afastar do grupo.
— Te conheço.
— Mas que garoto chato!
— Não, Gui — disse Iago, baixinho.
Guillian entendeu.
Clarisse observava tudo em silêncio.
Então Guillian olhou para ela.
Aproximou-se devagar, quase como uma criança curiosa.
O hálito dela era doce.
Bem baixinho, perto demais, sussurrou:
— Não se sinta assim. Você é linda.
Depois se afastou, com a boca entreaberta.
Clarisse ficou imóvel.
Por um instante, pensou que Guillian fosse beijá-la.
E, por um segundo, desejou que fosse.
Mas Guillian não beijou.
Não havia posse.
Não havia promessa.
Era apenas a noite, com suas armadilhas deliciosas, tentando roubar não só celulares, mas também corações.
Clarisse se lembrou da travesti na Augusta:
“Cuidem dos seus celulares... e dos seus corações.”
As garrafas estavam vazias.
Era a vez de Iago buscar mais duas cervejas.
— Vou ali, hein. Cuide dela, Anton.
Iago desapareceu entre as pessoas.
Anton se aproximou das duas. Pela primeira vez naquela noite, chegou perto de verdade.
Guillian ficou de um lado. Clarisse, do outro.
As mesas ao redor estavam cheias de homens e mulheres conversando, mas muitos olhavam discretamente para o trio.
Anton abraçou as duas ao mesmo tempo.
Guillian sorriu.
— Ele não é lindo?
Anton riu.
— Vocês é que são lindas.
Clarisse e Anton se olharam por um instante longo demais.
Estavam perto.
Perto o suficiente para sentir a respiração um do outro.
Anton desviou o olhar lentamente para Guillian.
As pessoas do bar observavam, tentando entender.
Antes, Iago havia saído com as duas nos braços.
Agora, Anton estava ali, abraçando as duas.
Que dinâmica era aquela?
Clarisse permaneceu quieta.
Qualquer movimento parecia capaz de tocar um espinho.
Lembrou-se da história de Ela, do estilete atrás de Guillian.
Toque, mas não segure.
Coma, mas não engula.
Para rosas: segure, mas não aperte.
Guillian não parecia se importar.
Anton também não.
Mas Clarisse...
Como resistir a aquilo?
Anton, Guillian e Iago.
Ela se sentia confusa com tanta presença, tanto perfume, tanta proximidade.
Com qualquer outra pessoa, talvez houvesse certezas.
Mas eles... eram eles.
Iago voltou com as cervejas.
Guillian roubou uma das garrafas da mão dele.
— Calma, Gui...
Ela riu e encheu o copo de Clarisse, que já estava estendido.
Na mente de Clarisse, uma frase surgiu:
Não controle. Siga o fluxo e sorria.
Iago olhou para Anton, ainda próximo de Clarisse.
— Vocês, hein... me deu uma pontada!
Antes que Anton respondesse, Iago puxou Clarisse para si.
Os dois ficaram nariz com nariz.
O bar inteiro pareceu prender a respiração.
As pessoas olhavam para o quarteto como quem observa algo raro, difícil de entender.
Não como animais exóticos.
Mas como um grupo de pessoas que parecia pertencer umas às outras de um jeito que ninguém conseguia explicar.
Entre copos e garrafas, um jovem começou a gritar pela calçada:
— Olha a cerveja! Três por dez! Três por dez!
Anton olhou para o rapaz e arregalou os olhos.
— Diego? Seu corintiano cretino!
Diego, vestindo uma camisa do Corinthians, abriu um sorriso.
— Fala, meu paquito favorito!
— Ué, vendendo cerveja?
— Ih... complicado, meu pai...
Anton suspirou.
— De novo?
— De novo.
Diego olhou para Guillian.
— E a Gui?
Guillian ficou séria na mesma hora.
Clarisse percebeu o cheiro do ciúme no ar.
Mas a Gui de quem Diego falava era outra: Guilhermina.
Diego cumprimentou o grupo.
— Oi, sou Diego.
Deu um beijo no rosto de Clarisse.
— Clarisse... prazer.
Guillian respondeu com um oi seco.
Iago também.
Atrás de Diego, apareceu Guilhermina.
Ela era quase idêntica a Guillian.
Poucas diferenças, mas suficientes para que as duas se reconhecessem imediatamente.
As duas se olharam com nojo e raiva.
Guilhermina lançou um olhar frio para todos, mas parou por um segundo em Anton.
Depois saiu de cena.
Anton, sem perceber o estrago que causava, disse:
— Oi, Gui...
Guillian ouviu o apelido saindo da boca dele.
O mesmo apelido que era dela.
Olhou para Anton com desprezo.
Diego percebeu o clima.
— Desculpa, cara. Tenho que acompanhar minha irmã. Ela aprontou de novo.
Olhou para os quatro, entendendo que aquele encontro era pessoal, mas ao mesmo tempo estranho para quem estava de fora.
— Vou indo... tchau, hein.
Quando Diego se afastou, Iago tentou acalmar a situação.
— Calma, Gui. Ninguém sabia. Já passou.
Mas Guillian foi direto para Anton.
— Antooon, eu te mato!
— Gui, escuta...
— Não!
Anton a abraçou antes que ela terminasse de reclamar.
Um pouco de cerveja derramou dos copos dos dois.
Guillian olhou para a bebida escorrendo.
— Tá vendo? Esse pouco de cerveja vale mais que você, seu canalha!
Clarisse observou em silêncio.
Percebeu que os espinhos tinham muitas camadas.
Guillian estava enfurecida, e ela ainda não entendia completamente por quê.
Naquele instante, Clarisse lembrou de Filipe.
Sentiu a própria pontada dos seus espinhos.
Anton ficou sério.
Guillian baixou a cabeça.
— Desculpa, Anton...
Ele permaneceu quieto.
— E ainda você falou meu apelido pra ela.
— Gui... eu não controlei isso. Desculpa.
Guillian se aproximou devagar.
— Desculpa. Eu também não consigo controlar meu ciúme.
Anton sorriu de canto.
— Não precisa.
Silêncio.
Ao redor, apenas o burburinho da Augusta.
Guillian olhou para Iago, depois para Clarisse.
Os dois pareciam concordar: nem tudo pode ser controlado.
Às vezes, simplesmente acontece.
Ela voltou o olhar para Anton.
Os dois se abraçaram.
Anton olhou para Guillian.
— Coloquei seu nome na lista da De Leon.
A expressão de Guillian mudou imediatamente.
Anton se virou para os outros.
— Coloquei o nome de vocês também. Vai ser sábado à noite.
Iago comemorou como uma criança.
Clarisse ficou surpresa com o convite.
— Nossa, vai ser demais! — disse Iago. — O Anton vai ser o DJ da balada!
Anton riu.
— Só um DJ. Vai ter vários lá, gente.
Os quatro se olharam, ainda incrédulos com o convite para a lista VIP.
Naquele instante, o celular de Clarisse vibrou.
Uma notificação apareceu na tela:
“???” — Filipe.
O estômago dela apertou.
Sem pensar muito, chamou um Uber. O álcool já estava subindo demais.
— Desculpa, gente... preciso ir.
— Mas já? — perguntou Guillian.
— Vai não! — disse Iago.
Clarisse sorriu, tentando parecer leve.
— Bem, sei que vocês devem ser inimigos do fim. Mas tenho que ir mesmo.
Ela virou o copo de cerveja de uma vez.
Anton observou em silêncio.
— Deixa ela ir, gente. Sem problemas.
Guillian fez uma careta.
— Como você é chatão! Eu quero convencê-la!
— Gui? — Anton a repreendeu, baixinho.
— Meu Uber chega em dois minutos — disse Clarisse.
Iago a abraçou primeiro, tocando de leve em seu rosto.
Guillian a abraçou tão forte que quase a esganou.
Depois Anton se aproximou.
Quando a abraçou, o zíper da jaqueta prendeu um pouco do cabelo de Clarisse.
— Ai!
— Desculpa! — Anton soltou o cabelo dela rapidamente. — Se quiser, eu te levo para casa. É só pedir.
Guillian deu um soco no braço dele.
— Seu cachorro piranho!
Todos riram.
Clarisse se afastou alguns passos e olhou para os três juntos.
Anton, Guillian e Iago.
Pareciam a capa de um caderno de adolescente.
O Uber parou em frente ao Jabuticaba.
Ela abriu a porta.
A motorista, uma mulher de voz firme, perguntou:
— Clarisse?
— Sim, sou eu.
Antes de entrar, Clarisse olhou novamente para o trio.
Os três estavam ali, juntos, esperando ela entrar no carro.
Meu Deus, pensou. Me perdi.
Ela entrou no Uber.
A motorista buzinou levemente, impaciente com o trânsito da Augusta.
O carro arrancou.
E Clarisse continuou olhando para trás até que as luzes do Jabuticaba desapareceram.
Clarisse sorria no carro, olhando as ruas passarem pela janela.
Não queria ir embora, mas o passado chamava.
Perdeu-se nos toques, nos cheiros, nas bocas, nos olhares.
Como queria beijar a boca de Guillian, daquele jeito inocente com que ela fazia manha, com o biquinho natural. Dos ciúmes desmedidos, mas da mudança de humor rápida, como uma tempestade que logo virava sol.
O equilíbrio dos toques na cintura e o roçar da pouca barba de Iago traziam uma sensação de luxo e aventura. O cuidado das mãos leves, que não prendiam.
Se eu fosse um pássaro, pensou, as mãos dele seriam meu ninho.
Anton... ah, Anton.
Gostou do apelido que o amigo dele lhe deu: “Meu paquito favorito”.
Do jeito sério e irritante de dizer que não se importava, quando parecia se importar com tudo.
Será que eles já ficaram?
Quem seria por cima e quem seria por baixo?
Quem beijaria melhor?
Disso ela não tinha dúvida: os três.
Mas o gosto?
Preferia não saber.
A ignorância, às vezes, era uma bênção.
A motorista quebrou o silêncio:
— Tudo bem, moça?
Clarisse soltou uma gargalhada.
— Nada não... piada interna minha.
O carro seguiu em silêncio.
Clarisse percebeu que, nos momentos felizes, sempre tirava fotos e postava no Instagram. Mas naquela noite nem se lembrou do celular.
Reparou nos detalhes.
A maioria das pessoas no bar estava com o telefone nas mãos, entre conversas e olhares. Os quatro, porém, não tocaram no celular nenhuma vez.
Era como se a ansiedade tivesse ido embora.
Como se cada um ainda tivesse suas cicatrizes, mas as mostrasse aos outros sem medo, sem vergonha, rindo e bêbado.
Um momento leve.
Um momento em que ela queria morar, como uma fotografia bonita de Instagram — só que não era rede social.
Era real.
Acho que pertencer é isso, pensou. Viver o presente sem precisar impressionar ninguém.
Clarisse olhou novamente a notificação de mais cedo:
“???” — Filipe.
Então percebeu as fotos presas no painel do carro: filhos, marido e, em uma delas, a motorista segurando flores.
Rosas.
— Dona, deixa eu lhe fazer uma pergunta?
— Pode dizer.
— Como resolver algo que a gente nega resolver por medo... para viver novas possibilidades?
A motorista sorriu de canto.
— É alguém, né?
— Digamos que sim.
— Eu gosto de mexer com plantas. Principalmente rosas.
— Sério? Que gosto bonito.
— Bonito e ruim ao mesmo tempo — respondeu ela. — Porque, quando a gente cuida de rosa, aprende que amar uma planta não impede que ela adoeça.
Clarisse ficou em silêncio.
— Uma vez, eu trouxe uma roseira de outro lugar e coloquei perto das minhas. Fiz tudo certo: adubo, água, luz. Mas esqueci de uma coisa importante.
— O quê?
— A roseira estava com fungo. Manchas pretas nas folhas. E, quando percebi, já tinha contaminado as outras.
Clarisse sentiu o peito apertar.
— Meu Deus...
— Tive que cortar todas as folhas doentes — continuou a motorista. — E ainda tinha formiga subindo pelo fio da iluminação, picotando minhas rosas.
— A natureza é cruel, né?
— Às vezes é. Mas ela também ensina. Aprendi que não adianta cuidar só da superfície. Tem que olhar o solo, as raízes, os fungos escondidos.
A motorista olhou pelo retrovisor.
— Na vida é a mesma coisa, menina. Tem relação que a gente precisa cortar antes que tudo apodreça. Antes que a culpa caia no outro, quando, na verdade, a gente só teve medo de resolver.
Clarisse não precisou responder.
Entendeu o recado.
O carro parou em frente ao prédio dela, na Liberdade.
— Chegamos.
— Obrigada, dona...
— Rosa — disse a motorista.
Clarisse sorriu.
— Obrigada, Rosa.
— E aproveita para me dar umas estrelinhas no aplicativo. Foi muito boa a conversa.
Clarisse saiu do carro.
Rosa esperou até vê-la entrar em segurança no prédio.
Só então arrancou.
Ao entrar no prédio, Clarisse sentiu o corredor frio abraçar o silêncio da madrugada.
O passado do qual ela fugia parecia capaz de voltar a qualquer instante.
Subiu as escadas devagar, procurando as chaves na bolsa.
Quando abriu a porta do apartamento, encontrou o vaso de rosas perto da janela.
A janela estava aberta.
Um vento bom atravessava a sala, balançando levemente as folhas.
Clarisse olhou para as rosas por alguns segundos.
Não pensou em fungos.
Não pensou em formigas.
Não pensou em cortar nada.
Estava cansada demais.
Tirou os sapatos, deixou a bolsa cair no sofá e caminhou até o quarto.
Com o corpo pesado de sono e a alma ainda presa às luzes da Augusta, caiu na cama.
E adormeceu antes mesmo de terminar de pensar.
#amizade #amizadeverdadeira #amor #relacionamentos #solidão #pertencimento #juventude #amadurecimento #recomeços #saudade #memórias #passado #perdão #companheirismo #vulnerabilidade #intimidade #liberdade #identidade #escolhas #vidaadulta
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PermalinkBalada e karaokê não são comigo, mas a conversa da motorista sobre a roseira com fungo eu entendi de primeira: a mancha preta passa de uma folha pra outra antes de alguém reparar. A Clarisse ouviu ali o Filipe, e eu desconfio que a Rosa falava também do medo dela de resolver. Essa Rosa veio de alguém que você conheceu?
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PermalinkClarisse chegando de madrugada na Liberdade e o vaso de rosas ali na janela aberta, tipo a única coisa esperando ela em casa. Aposto que o Filipe aparece nesse apê antes do sábado da De Leon.
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Biografia Tenho 43 anos, nasci e cresci na cidade de Embu das Artes, formei-me em História e, atualmente, sou professor de leitura. A literatura é uma das tantas peças do meu ser público tanto quanto é parte dos meus ritos privados. Acho que o mundo gira porque gostamos de uma boa história. Eu gosto, e quis ver como é a outra ponta do livro. Espero que a minha história seja boa. Ela é sombria, de terror, irônica, necessária e visceral.
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