Tu fala das meninas no plural e depois em machucar duas pessoas incríveis. Então a Luisa não estava sozinha nessa conta, tinha alguém do lado da Emma também. E mesmo sendo as duas que ficaram no caminho, tu chama as duas de incríveis. Quem escreve assim já fez as pazes com uma parte da história, visse.
Capítulo 3 — O primeiro beijo
Lembro-me do primeiro beijo.
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Tu fala das meninas no plural e depois em machucar duas pessoas incríveis. Então a Luisa não estava sozinha nessa conta, tinha alguém do lado da Emma também. E mesmo sendo as duas que ficaram no caminho, tu chama as duas de incríveis. Quem escreve assim j
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Lembro-me do primeiro beijo.
E, pasmem: foi o pior beijo dado por nós duas.
Foi estranho.
Estranho de um jeito que me fez passar horas tentando entender o que tinha acontecido.
Depois daquele beijo, fiquei me perguntando:
Como eu posso amar tanto uma pessoa e não sentir nada quando a beijo?
Naquela época, ela estava em um relacionamento.
E eu tinha acabado de sair de um.
Eu me sentia culpada.
Culpada por tudo.
Pelas meninas. Pela situação. Pelo que eu sentia. Pelo que eu desejava. Até mesmo por existir aquele sentimento dentro de mim.
Mas como esconder um amor?
Como fingir que ele não existe quando ele insiste em aparecer em cada olhar, em cada conversa, em cada aproximação?
Sabe o que é querer tanto alguém que, às vezes, parece que o ar simplesmente vai embora?
Eu queria Emma.
E, ao mesmo tempo, achava que não deveria querer.
Talvez seja por isso que o primeiro beijo tenha sido tão estranho.
Às vezes, o primeiro beijo não encaixa.
Às vezes, o primeiro beijo vem acompanhado de culpa, medo, pensamentos demais e coragem de menos.
E foi exatamente assim.
Eu chorei tanto naquele dia.
Chorei porque sentia que iria perdê-la.
Mas como perder alguém que eu nem sequer tinha?
Eu falei para ela o quanto a queria. Falei sobre como me sentia mal por toda aquela situação, pelas meninas, por tudo o que estava acontecendo dentro de mim.
Eu não sabia o que fazer com aquele sentimento.
Até que simplesmente cheguei perto dela e disse:
— Me desculpa.
Ela me olhou sem entender.
— Te desculpar pelo quê?
E eu simplesmente beijei ela.
Sem aviso.
Sem planejamento.
Sem pensar.
Ela não sabia que eu faria aquilo.
E, para ser sincera, nem eu sabia.
Afinal…
POR QUE MERDA EU BEIJEI ELA?
ELA TINHA ALGUÉM.
EU NÃO TINHA O DIREITO DE FAZER AQUILO.
Hoje, quando lembro, ainda consigo sentir a confusão daquele momento.
Talvez esse seja o meu carma.
Machucar duas outras pessoas incríveis porque eu não soube controlar o que sentia.
Mas e eu?
Eu deveria sufocar de amor só porque precisava pensar em todo mundo antes de pensar em mim?
Naquele momento, eu não pensei.
Eu só fiz.
E hoje já não me culpo tanto por isso.
Não porque acho que tudo estava certo.
Mas porque aprendi que sentimentos nem sempre chegam no momento certo, nem da maneira certa.
E, às vezes, a gente simplesmente não sabe o que fazer com aquilo que sente.
O primeiro beijo não foi bom.
Mas, ah…
O segundo.
O segundo me fez entender por que eu era tão apaixonada por ela.
O segundo beijo não teve culpa.
Não teve pensamentos turbulentos.
Não teve medo.
Foi simplesmente um beijo.
Um beijo que aconteceu enquanto caminhávamos pela faculdade.
E talvez seja por isso que eu goste tanto de lembrar daquele momento.
Aquela faculdade poderia gritar tudo o que ela significou para mim.
Foi lá que eu a vi jogar bola na quadra.
Foi lá que choramos.
Foi lá que conversamos sobre nossas vidas.
Foi lá que dividimos segredos, sonhos, medos e sentimentos.
Foi lá que eu comecei a conhecer partes dela que talvez ninguém mais conhecesse.
Foi lá que caminhamos tantas vezes sem destino, apenas porque estar uma ao lado da outra já era suficiente.
Foi lá que nos beijamos.
Não a primeira vez — essa foi na minha casa.
Mas, para mim, aquele beijo na faculdade pode ser considerado o primeiro.
O primeiro de muitos.
E se eu pudesse voltar para um único momento, talvez fosse justamente aquele.
Não escolheria um aniversário.
Não escolheria uma viagem.
Não escolheria uma grande declaração de amor.
Eu voltaria para aquele momento simples.
Para o momento em que falamos sobre o nosso primeiro beijo.
Para o momento em que rimos porque ele tinha sido estranho.
Para o momento em que, finalmente, conseguimos falar sobre aquilo sem toda aquela culpa nos sufocando.
Lembro de olhar para ela e dizer:
— Eu que te beijei. Agora você me deve um.
Ela respondeu, provocando:
— Não me provoque. Não duvide que eu te beijo.
E eu, como quem queria testar até onde aquela coragem iria, respondi:
— Duvido.
Ela me puxou.
E me beijou.
Dessa vez, sem medos.
Sem dúvidas.
Sem culpa.
Sem pensar no que viria depois.
Só nós duas.
E foi naquele beijo que alguma coisa dentro de mim finalmente se acalmou.
Talvez eu não precisasse de uma explicação.
Talvez eu só precisasse daquele beijo.
Para entender que o problema nunca tinha sido a falta de sentimento.
Era o excesso dele.
Eu amava tanto que, no primeiro beijo, pensei em tudo.
No segundo, pela primeira vez, eu simplesmente senti.
E se eu pudesse voltar para algum momento da nossa história, seria para esse.
Eu voltaria para ouvir a provocação.
Para dizer “duvido” outra vez.
Para sentir as mãos dela me puxando.
Para sentir aquele beijo acontecendo sem medo.
Porque, por alguns segundos, não existiam outras pessoas, não existiam culpas, não existiam perguntas sobre o que era certo ou errado.
Existíamos nós.
E talvez seja por isso que, quando penso naquele beijo, eu ainda sorrio.
Porque foi ali, no meio de uma caminhada qualquer pela faculdade, que eu descobri que alguns momentos não precisam ser grandiosos para se tornarem inesquecíveis.
Às vezes, basta alguém dizer:
“Não duvide que eu te beijo.”
E você ter a coragem de responder:
“Duvido.”
Para uma história inteira começar de novo.
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