Carregando…

Capítulo 4: O Colégio Militar parte 1

aleroz
Pública 7 conversas 11 pensamentos 34 votos positivos 0 voto negativo 1 série

Será que você não consegue sentir meu coração? — Genesis, Mama

Em séries

In groups

Pensamento

Pensamento

Ovid

A Dru fabricando o próprio cheiro com resto de estoque da cozinha, num colégio onde todo mundo exala o mesmo aroma neutro, foi a coisa que fiquei pensando depois de fechar o capítulo. É um jeito de existir ali que ninguém consegue punir, porque não quebra

A Dru fabricando o próprio cheiro com resto de estoque da cozinha, num colégio onde todo mundo exala o mesmo aroma neutro, foi a coisa que fiquei pensando depois de fechar o capítulo. É um jeito de existir ali que ninguém consegue punir, porque não quebra regra nenhuma. Me avisa quando sair a parte 2.

Conteúdo da publicação

Será que você não consegue sentir meu coração?
— Genesis, Mama

A apenas três quilômetros da fronteira com Arcádia e Silencium ergue-se o Colégio Militar de Ceres, cercado por plantações de trigo e soja, e por apiários. Um monólito educacional para cinco mil alunos — jovens entre dez e dezenove anos que aprendem não a origem das coisas, mas sua função: a utilidade do saber, a eficiência da mente, a mecânica do espírito humano para servir e funcionar. Ao fundo do colégio, uma estação férrea para trens blindados de descarga e transporte.

O colégio não tem muros. Ao norte, um campo amplo e florido de vegetação rasteira em tons suaves, interrompido apenas por um velho avião militar abandonado há mais de um ano — um monumento sem placa, um aviso sem legenda. Ao sul, um imenso pátio onde, todas as manhãs, ecoa em coro o hino de Ceres, rito de submissão e orgulho.

À direita do pátio, sobre um pedestal gigantesco, tremula a bandeira cinza-escura de Ceres: duas chaves cruzadas, simbolizando os ovários de Mãe Ceres — a guardiã fértil, a chave mestra que molda seus filhos para serem potentes, ágeis, fiéis e jamais os abandona. Atrás do pedestal, uma cerca de arame separa o pátio do campo de Flagball e outros esportes violentos, onde se treinam a dor, o sangue e a vitória. Ao norte, ergue-se um ginásio monumental para natação, tão frio e rigoroso quanto o restante da cidade.

O edifício principal domina o centro do terreno: brutalista, em mármore negro e tijolos vermelhos, com três andares sólidos, 100 metros por 90, pátios internos, paredes cor de areia e portais de madeira pesada. No coração do colégio, um refeitório coberto onde todos comem — e todos são vigiados — em longas mesas de madeira, sob fileiras de lâmpadas austeras.

Foi ali, após mais uma partida vencida à base do ódio, que Theo, aos dezessete anos, se sentou para almoçar. Vestia a camisa bege comum a todos e a jaqueta militar cinza-escura do colégio. Três unhas de cada mão pintadas de preto — um detalhe que ninguém comentava, mas todos notavam. Ao seu lado, Tycho, irmão mais novo, treze anos, com uniforme semelhante, salvo pequenas diferenças sutis que só Theo percebia.

Tycho resmungou da comida.
— Está fria... — murmurou, empurrando a bandeja.
Theo ergueu os olhos, frio e firme:
— Feio reclamar da comida da Mãe — retrucou, com tom cortante, deixando claro que naquela mesa não se cuspia no prato de Mãe Ceres.

À frente deles, Gene, outro jogador, todas as unhas pintadas de preto, mastigava em silêncio, encarando o nada. Ao redor, os jogadores recém-saídos do jogo fervilhavam. Não havia sorrisos; só dentes cerrados, olhares duros, ombros tensos. Eles se bicavam à distância, esperando um motivo para transformar o pátio num ringue.

O ódio pairava como cheiro, como calor entre as mesas. A cada colherada, parecia que mastigavam a própria madeira. Cada um, um cão à corrente, pronto para morder. Porque ali — naquele colégio, naquela cidade, naquele mundo — nada florescia sem o adubo da raiva.

Foi então que Dru surgiu no refeitório, como um raio loiro em meio ao cinza. Cabelos curtos, desalinhados para o lado sob a touca cinza do uniforme, pele branca como giz, unhas negras como carvão. Sem dúvida, a mais maquiada dali — batom opaco, rímel marcado, bochechas com leve tom que não vinha de fábrica. Dru era química e artista; preparava seus próprios cosméticos com restos dos estoques da cozinha, perdas dos trens de mantimentos, o que encontrasse que ninguém queria. Em Ceres, qualquer perda era aproveitada, qualquer desperdício reaproveitado, qualquer coisa transformada em arma.

Seu uniforme era igual ao de todos — bege e cinza — mas ostentava bordado na lapela: MÃE CERES, selo de devoção e orgulho. Tinha um estilo só dela, sem jamais transgredir ao ponto de ser punida. Aos dezesseis, já entendia como sobreviver na selva de concreto sem perder a graça nem a dignidade.

E mais: era a menina mais cheirosa do colégio.
Não que os outros tivessem cheiro ruim — em Ceres, higiene era obsessão, e todos exalavam o mesmo aroma neutro e limpo —, mas Dru tinha um cheiro diferente. Algo floral, doce, suave... algo que ela destilava em segredo, gota a gota, só para lembrar a todos que ela era Dru.

Dru não era só bonita. Era uma vendedora. Em Ceres não existiam lojas nem dinheiro. Existiam escambos. Trocas. Favores sexuais, serviços sujos, informações, objetos raros, um pouco de batom feito em laboratório clandestino. Dru fazia o meio de campo de tudo isso, e cada negociação ia parar em seu caderno cinza, rabiscado e organizado com códigos próprios.

Ela se aproximou da mesa de Theo com um leve sorriso e olhar direto. As botas estalaram no chão frio ao parar ao lado dele. Theo a percebeu primeiro pelo cheiro — aquele perfume que cortava a fumaça de ódio suspensa sobre a mesa como uma navalha perfumada. Ela tinha esse efeito: chegava e, por um instante, todos lembravam que ainda eram humanos.

Dru apoiou o caderno na mesa e se inclinou, casual, mas próxima o suficiente para que só ele ouvisse:
— Se quiser negociar aquela medalha de ontem... eu sei como pagar — disse, voz baixa e insinuante.

O dedo dela deslizou de leve pela medalha que pendia do bolso da jaqueta de Theo, sem tocá-la. O olhar, porém, dizia tudo.

Theo respondeu no piloto automático, duro e frio, a mente ainda fervendo com a ideia de espancar os idiotas do Flagball que o provocaram:
— Não estou vendendo nada.

Sua voz saiu ríspida, mas o cheiro de Dru ainda queimava em suas narinas. E lá no fundo, uma parte dele — aquela que não se permitia mostrar — se perguntava quanto custava, de fato, ser comprado por ela.

O silêncio caiu sobre a mesa. Todos os jogadores pararam de mastigar. As colheres ficaram suspensas no ar. Ninguém ousava sequer respirar.

Theo nunca fora covarde com ela. Nem quando todos os outros a temiam ou cobiçavam. Nunca um gesto ríspido, nunca um “não” seco. Ele sempre a ouvia, respeitava, sabia negociar sem ceder nem esmagar. Por isso mesmo, naquele instante, todos os olhares na mesa se voltaram para Dru, esperando uma explosão.

Mas ela apenas sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas sem raiva. Havia algo que ninguém mais entendeu — só ela. Achou sexy.

Para ela, Theo ainda era Theo: duro, justo, confiável. Era assim que ela o queria. E não seria uma resposta automática de ódio que mudaria isso.

Theo respirou fundo e piscou, voltando ao presente, afastando os fantasmas do Flagball da cabeça.
— Foi mal — murmurou para ela, num tom quase inaudível.

Dru ergueu uma sobrancelha, aceitando as desculpas sem precisar de palavras, e se endireitou para sair.

Foi então que Dark apareceu. Dark — sempre um abutre à espreita, sempre à sombra de Theo. Alto, magro, belo, cabelo raspado de um lado e caindo do outro, olhos escuros como piche, com aquele sorriso sujo nos lábios. Encostou-se à beira da mesa, dedos tamborilando no tampo de madeira, mirando Dru enquanto ela se afastava.

— Já vai embora, boneca? — provocou, voz escorregadia. — Fica aqui com a gente... vai me dever uma conversa depois.

Dru congelou por um segundo, mas não se virou.

Theo largou a colher devagar, o som metálico ecoando como um tiro seco. Levantou-se lentamente, a jaqueta militar esticando-se nos ombros, olhos fixos em Dark, frios, sem humor.
— Sabe qual é a melhor coisa que você ainda pode fazer por mim, Dark? — disse, voz baixa, carregada de ferro. — É se lembrar disso depois que a Mãe te devorar.

Dark franziu a testa, sem entender.

Theo deu um passo à frente, agora mais perto do rosto dele:
— Porque depois disso, cara... — sorriu de lado, cruel — ...você nunca mais vai me ver.

O silêncio era absoluto. Só se ouvia o tilintar distante de bandejas no refeitório.

Theo inclinou a cabeça, como um animal que estuda a presa antes do bote.
— E só não te quebro agora — completou quase num sussurro — porque a nossa Mãe odeia isso. Ela moldou até o nosso ódio com chumbo. Entendeu?

Dark recuou meio passo, com risinho sem graça, tentando salvar a própria máscara.

Theo sentou-se de novo como se nada tivesse acontecido, pegando a colher e voltando a comer.

A mesa inteira voltou a respirar.

Dru se afastou da mesa de Theo com a cabeça erguida e o coração aos pulos, unhas negras roçando o próprio caderno enquanto caminhava pelo refeitório. Antes de sair pelo corredor, lançou um olhar enviesado para outra mesa no canto. Lá estava Ana, sentada casualmente no colo de um garoto qualquer, rindo de alguma piada, com a calça ligeiramente torta e um brilho calculado nos olhos.

Ana — que trocava favores sexuais pelos produtos que acumulava, que sabia usar a própria carne como moeda. Ana — que só tinha olhos para Daime, o garoto na cadeira de rodas que a dispensara depois do acidente porque, segundo ele, não era mais homem suficiente pra ela.

Daime, por sua vez, entendia o jogo inteiro, via tudo, e não sentia ciúme. “Pelo menos ela vive”, costumava dizer entre tragos, com aquele humor de esgoto.

Dru sabia que não era amor o que Ana fazia com os outros — era carência, era escambo. E por mais que Ana afirmasse que não amava ninguém além de Daime, era justamente nas mãos dela que Dru queimava, noite após noite, como um fósforo aceso. Ana usava Dru como usava todos: moeda de troca. E mesmo assim, Dru voltava.

Theo, não. Theo era diferente. O silêncio dele era confortável, sólido, seguro. Theo era a âncora para o caos de Dru — Ana era a tempestade. Ana a devastava. E ela aceitava ser devastada.

No canto, Daime tragava um cigarro feito com sabe-se-lá-o-quê, rindo sozinho, chamando de “pagar boquete pro demônio”, enquanto Ana lhe roubava uma última olhada cheia de saudade antes de voltar a brincar com o garoto em seu colo.

E Dru seguiu pelo corredor, perdida entre dois mundos.

A Manhã Seguinte

O sol cinzento de Ceres começava a subir, mas a luz ainda parecia suja, filtrada pelas nuvens baixas. O pátio já fervia com o som de passos, gritos e o hino sendo ensaiado do outro lado.

Theo caminhava tranquilo em direção ao campo, o casaco meio aberto, a postura relaxada demais para quem devia estar pronto para mais uma sessão de treino.

Daime, como sempre, já estava lá, largado em sua cadeira de rodas, cigarro torto no canto da boca e uma expressão que misturava tédio e desprezo. Quando viu Theo se aproximar, soltou um riso áspero.

— Relaxa mais um pouco e a Mãe vai mandar te reciclar, ô burro — soltou, sem nem olhar direito para ele. — Parece que desaprendeu tudo que eu te ensinei.

Theo apenas deixou escapar aquele sorriso de canto de boca, que nunca respondia nada — apenas ria baixo, como quem aceita a verdade sem querer brigar com ela.

Tycho apareceu atrás dele, ainda sonolento, esfregando os olhos e resmungando:

— Tô com fome…

Theo enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um pedaço de bolo embrulhado em papel marrom. Jogou para o irmão sem nem olhar, como se já soubesse que Tycho ia pedir. O menino pegou no ar e sorriu, mastigando sem cerimônia.

Dru, encostada numa parede do outro lado do pátio, os observava de longe. Os olhos verdes dela se estreitaram, e um riso leve escapou, quase imperceptível. A cena era tão típica de Theo que ela não pôde evitar rir: aquele idiota do bem, aquele líder de mentira que cuidava dos outros melhor do que cuidava de si mesmo.

Foi quando o silêncio do arbusto atrás do ginásio se quebrou. Um farfalhar baixo, urgente, como um sopro de vento enraivecido. Theo foi o primeiro a perceber — seu olhar escuro virou na hora para a direção do som.

Do meio das folhas saiu uma garota.

Era impossível não notar: o cabelo longo caía pesado sobre os ombros magros, o rosto pálido tinha cortes finos e mal cicatrizados, e os olhos… os olhos eram azuis grandes demais, fundos demais, arrogantes como os dele. Olhos que pareciam guardar céu e inferno num só lugar, e julgavam tudo que viam. Olhos que caçavam almas ruins.

Ela deu mais um passo e cambaleou. Estava debilitada, como se tivesse rastejado até ali. A boca dela abriu devagar e, numa voz quase apagada, disse:

— …Theo…

Ele já estava em movimento antes mesmo do nome inteiro escapar dos lábios dela. Correu até ela, os braços se estendendo para segurá-la antes que caísse. Ela se apoiou nele, os dedos gelados se fechando na gola do casaco dele como garras, como se ele fosse a única coisa sólida que sobrava no mundo.

Theo a pegou nos braços sem fazer perguntas, o rosto duro, os olhos negros fixos no horizonte. Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo contra o peito dele.

Daime assobiou baixo, impressionado. Tycho parou de mastigar, confuso, assistindo.

Dru, ao longe, parou de rir. E por um segundo — só por um segundo — aqueles olhos verdes dela não tinham certeza se riam ou se ardiam.

E Theo caminhava com a garota nos braços, devagar, como quem carregava um fardo que não queria largar.


A Assombração

Daime engasgou com a fumaça do próprio cigarro quando viu aquela figura surgir do arbusto.

— Puta merda… — murmurou, os olhos arregalados, encarando a garota — …parece uma assombração.

Tycho se encolheu atrás do irmão, olhando sem entender. Theo, porém, não hesitou um segundo. Já estava com ela nos braços antes que alguém dissesse qualquer coisa.

Os olhos azuis dela o fitavam, grandes e impossíveis de ler — arrogantes como os dele, mas frágeis naquele momento, como olhos de criança. Mesmo debilitada, mesmo magra e com as roupas sujas de pó, ela sorriu para ele. Um sorriso leve, quase grato, como se tivesse esperado só por aquele instante. Como se confiasse nele sem saber por quê.

Daime se recostou na cadeira, ainda sem acreditar:

— Você é maluco, Theo… isso aí não é gente… isso é um espectro…

Theo não respondeu. Segurou firme nela, sentindo como pesava pouco demais, e atravessou o pátio com passos largos. O silêncio atrás dele era pesado. Até Dru parou de rir, a expressão dela endurecendo quando viu a cena.

Na enfermaria, a enfermeira já os aguardava, as mãos cobertas por luvas cirúrgicas. Levou um instante para avaliar a situação, e logo indicou a maca.

— Desidratada. Faminta. Quase hipotérmica… — disse, já abrindo o soro e chamando mais duas assistentes.

Theo se manteve parado num canto, os braços cruzados, os olhos presos nela. Observava cada respiração, cada gemido baixo quando o soro começou a correr. Os olhos azuis ainda se abriam de vez em quando, procurando por ele. E ele estava lá. Sempre lá.

Até que o som pesado dos portões do pátio se abriu.

E eles chegaram.

Homens trajados de cinza escuro, fardas militares que refletiam a austeridade da própria Mãe Ceres. O rosto de cada um coberto por um véu negro opaco, idêntico ao dela, sem feição, sem piedade. Silenciadores.

Theo os encarou quando entraram. Nenhum deles precisava falar para se impor. Implacáveis, ergueram a garota da maca sem cerimônia, e mesmo debilitada, ela manteve aqueles olhos azuis presos nele até o último segundo.

Theo não desviou o olhar.

E então, eles a levaram.

Os passos ritmados ecoaram pelo corredor até desaparecerem no trem blindado, parado na plataforma, pronto para levá-la para o Ceres de Ceres — onde nenhum filho comum jamais ousava sequer sonhar em pisar.

E por um longo instante, o pátio inteiro pareceu suspenso no tempo.

Até Daime resmungar, ainda tentando disfarçar o susto:

— Te falei, cara… assombração.

Theo só ficou ali, quieto.

Mas dentro dele sabia que aqueles olhos azuis ainda iam persegui-lo por muito tempo.

A Sombração no Pátio

O sol mal havia aquecido o pátio quando os alunos já se enfileiravam para cantar o hino de Ceres. A bandeira cinza-escura, com as chaves cruzadas, balançava no vento, fria e imponente. Theo estava lá, como sempre, no centro da fileira, as mãos nos bolsos da jaqueta cinza, os olhos baixos.

Mas sua mente… ainda estava na noite anterior.

Ainda estava presa naqueles olhos azuis enormes.

Olhos que pareciam caçar a alma dele sem esforço algum.

Olhos que não pediam nada, só tomavam.

E ele… deixava.

Dru e Daime se aproximaram depois que o hino terminou. Dru se pendurou no braço dele, com aquele ar insolente de quem sempre parecia no controle. Daime ficou do outro lado, mascando um cigarro como se fosse chiclete.

— Tá vendo, Dru? — Daime disse, com aquele sorriso maroto — Falei que o nosso querido Theo tava diferente. Ficou mexido, né?

Theo ergueu uma sobrancelha, mas continuou em silêncio.

Daime não perdoou:

— Mexido de um jeito bom, claro. Uma sombração dessas, com um banhinho, um batonzinho, já dava pra levar pra casa. Uma sombração gostosinha até.

Dru deu um tapa na nuca dele, irritada:

— Cala a boca, Daime! Só fala merda.

— Ah, qualé — resmungou ele, esfregando a nuca — Você tá com ciúme porque a sombração olhou pra ele como nunca olhou pra você. É verdade, Dru. Nem tenta disfarçar.

Dru soltou um risinho nervoso, e seus dedos apertaram mais forte o braço de Theo.

Theo, enfim, parou de olhar para a bandeira e encarou os dois. Um sorriso leve — quase imperceptível — apareceu no canto dos lábios.

— Não é nada disso — disse, com aquela voz calma de sempre.

— Ah, claro que não — retrucou Daime, rindo — Você só passou a noite toda pensando nela porque… sei lá… queria rezar por ela.

— E você? — devolveu Theo, olhando de soslaio — Quer que eu reze por você também?

Daime gargalhou, Dru bufou, e Theo apenas voltou a olhar para a bandeira.

Mas, no fundo, sabia: aquela sombração… tinha mesmo capturado alguma coisa dentro dele. E ele não fazia ideia de como se livrar daquilo.


O canto reservado

Nas semanas que seguiram, Theo não foi mais o mesmo.

Era discreto demais para admitir, mas estava ali — nos momentos em que se distraía no treino, nos passes errados, no silêncio prolongado durante as refeições.

Os olhos da sombração.

Eles o seguiam, mesmo fechando os seus.

E isso o deixava… inquieto.

Numa tarde, após o treino, Dru o chamou para um canto reservado do pátio, atrás das estufas onde os alunos quase nunca iam. Lá era tranquilo, abafado pelo cheiro de plantas e longe dos olhares. Era o canto dela quando queria trocar algo às escondidas — ou quando precisava ser só Dru e não a vendedora implacável.

Ela já o esperava, sentada numa pilha de caixas vazias, a touca cinza torta sobre os cabelos loiros curtos.

Theo encostou na parede, as mãos nos bolsos, sem saber direito como começar.

Dru olhou para ele por longos segundos.

— Eu sei — disse, enfim, baixinho. — Eu sei o que você sente.

Theo arqueou uma sobrancelha.

Ela se levantou devagar e ficou diante dele.

— Seus olhos não são mais seus, Theo. Não são mais meus também. Agora eles… pertencem a ela. Eu vejo. — E engoliu seco, o tom tremendo, embora tentasse manter a pose. — E… tudo bem. Eu sabia que um dia isso ia acontecer.

Theo abaixou o olhar, como se fosse possível esconder a dor e a confusão dentro do peito.

Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

Dru respirou fundo, forçando um sorriso.

— Não precisa dizer nada. Você sempre foi transparente comigo. Sempre foi você mesmo.

E então, sem pedir permissão — porque ela nunca pedia — Dru o puxou pela gola da jaqueta e o beijou.

Foi um beijo longo, profundo, doído.

Um beijo que dizia tudo que eles sabiam e tudo que não podiam mudar.

Um beijo que parecia um adeus, mas também um até breve.

Quando se afastou, os olhos dela já brilhavam com lágrimas que ela não ia deixar cair ali.

— Se der errado… — disse, com a voz embargada — eu ainda vou estar aqui. Você sabe.

Ela limpou a boca com as costas da mão, tentando disfarçar o tremor.

— Mesmo que… nossos corações sejam de outras pessoas… a companhia continua sendo a mesma, Theo.

Theo a olhou pela primeira vez nos olhos naquela tarde, e ali Dru viu: ele também sentia.

Sentia tudo.

Mas não tinha escolha.

Ela deu um passo para trás, ajeitou a touca e se virou antes que ele visse a primeira lágrima.

Saiu rápido, deixando só o cheiro suave do perfume improvisado e um vazio pesado no peito dele.

Mesmo que fossem amigos, ele sempre ia ser uma parte dela.

E isso, para Dru… já doía mais do que devia.


Fim da parte 1

Assista o vídeo - A Garota Ceres


Saiba mais: www.maeceres.com.br

Thoughts

  • fioAtras

    A garota dos olhos azuis foi levada no trem e ninguém no pátio perguntou pra onde. Aposto que o Tycho é o primeiro a puxar esse assunto, ele foi o único que ficou olhando sem entender nada.

    Permalink
  • thiaguinho

    Desse mundo aí eu não entendo nada. Mas mesa cheia de jogador comendo de dente cerrado depois do jogo eu já vi. Um menino do meu time perdeu de virada sábado e ficou no vestiário sem tirar a chuteira até a mãe buzinar.

    Permalink
  • Ovid

    A Dru fabricando o próprio cheiro com resto de estoque da cozinha, num colégio onde todo mundo exala o mesmo aroma neutro, foi a coisa que fiquei pensando depois de fechar o capítulo. É um jeito de existir ali que ninguém consegue punir, porque não quebra regra nenhuma. Me avisa quando sair a parte 2.

    Permalink
  • mariinha

    O Theo jogar o pedaco de bolo pro irmao sem nem olhar pra tras diz mais dele do que a ameaca no refeitorio. Gostei muito dessa parte.

    Permalink

Related posts