livro (trinta dias para última lua)
Luiz acordou com uma dor latejante por todo o corpo. Ele piscou mais de uma vez; a claridade entrava pelas frestas da cabana. Estava deitado em uma cama improvisada de palha no canto do cômodo, e Hadria também dormia profundamente ao seu lado. Quem será que nos colocou aqui?, pensou Luiz, lembrando-se de que, antes de tudo apagar, estava no chão frio e Hadria não estava na cabana.
Ele a encarou por um longo momento. A mulher de suas visões era parecida com Hadria... Será que o sangue de Hadria estava revelando o passado sombrio? Luiz tinha muitas perguntas em mente; as memórias da visão estavam voltando aos poucos, e ele tentava ordenar os pensamentos, absorvendo todos os acontecimentos. Hadria dormia pesadamente; os cabelos longos estavam soltos, espalhados por cima do braço de Luiz. Ele se moveu com cuidado para não acordá-la. Ele tinha tantas perguntas para ela: Onde ela estava? O que estava fazendo? Hadria sabia a sua origem? Como seria difícil para ela saber do sacrifício que sua mãe fizera... Estendeu a mão em direção ao rosto da menina, arrumou uma mecha que caía sobre a testa dela e a puxou com cuidado para o lado. Continuou a observá-la dormir por um momento antes de se levantar com cautela para não acordá-la.
O corpo de Luiz costumava se curar rápido, mas, como a petrificação avançava pelo seu braço, seu fator de cura imortal estava severamente comprometido. A dor vinha e ia embora; embaixo da pele de suas mãos, parecia haver algo pegajoso crescendo e se alastrando. Seu coração batia forte e descompensado — esses batimentos descoordenados eram um mistério para ele —, até que começou a sentir o cheiro de comida, e seu estômago roncou alto. Luiz, que estava em pé na cabana, colocou a mão na barriga e achou aquela reação bizarra. Ele estava com fome? Vampiros nunca comiam nada além de sangue. Será que estou mesmo tendo uma reação humana? Estou com fome? Alguma coisa muito errada estava acontecendo com ele, constatou, atônito, quando sua barriga roncou novamente.
Ele foi em direção a uma mesa improvisada perto da parede. Havia frutas e uma panela com um caldo cujo conteúdo Luiz não soube identificar, mas que exalava um cheiro muito bom. Ele levou uma fruta à boca e sentiu o gosto; era doce. Por impulso, começou a comer tudo o que estava sobre a mesa. Sentiu uma satisfação enorme após a refeição, um sentimento que nunca havia experimentado.