Pá, o bebé.
Capítulo 25: A Visão do Sangue
livro (trinta dias para a última lua)
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Pá, o bebé.
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livro (trinta dias para a última lua)
Tudo ficou escuro novamente e Luiz agora estava no reino demoníaco, em uma terra árida e sem vida. O vento gélido e cortante uivava na vastidão desolada, carregando o cheiro de enxofre e morte que colava na pele como uma segunda camada de poeira cinzenta. A bruxa que acabara de sair do cativeiro saltou do dragão. Com suas garras e os olhos negros, em um movimento ágil, rasgou a própria pele dos braços, permitindo que o sangue quente e pulsante manchasse a terra seca sobre os seus pés. As outras duas bruxas observavam ao longe, perto de seus dragões, em silêncio absoluto, como se consentissem e soubessem exatamente o que a prisioneira recém-liberta estava prestes a fazer.
O dragão ergueu suas escamas titânicas, revelando o próprio peito onde seu coração pulsava, ardendo com uma luz vermelha e alaranjada intensa, como brasa viva. A bruxa olhou fundo naqueles olhos dourados. Uma lágrima negra escorreu por sua face, pesada de dor. O dragão, compreendendo o sacrifício, aproximou a cabeça, roçando o focinho quente contra a bochecha da bruxa em um gesto mudo que parecia sussurrar: "está tudo bem". Ela fechou os olhos, sentindo o calor da escama e o cheiro da fera que lhe era tão familiar, agora misturado ao seu próprio sangue que escorria por suas garras.
Com um rugido abafado pela dor, ela cravou as garras no peito do dragão e arrancou o coração flamejante; no mesmo instante, com a outra mão, abriu o próprio peito e retirou o seu próprio coração, fundindo ambos em suas palmas.
Uma explosão de luz cegante iluminou a terra morta. O sangue negro e o sangue vermelho começaram a girar em órbitas perfeitas ao redor dos corações unidos. O dragão grunhiu em agonia, e a bruxa caiu de joelhos na poeira, sufocada pela carga mágica enquanto as amarras brancas em seu corpo faiscavam, tentando conter o feitiço; seu corpo doía como se estivesse sendo despedaçado em grãos de areia.
— Da escuridão eu fui criada, para a escuridão voltarei... — murmurou ela com a voz trêmula, enquanto o vento fustigava seus cabelos alvos. Um redemoinho negro começou a surgir em volta da bruxa de joelhos e do dragão que estava caído ao seu lado.
Com um movimento preciso de suas garras, ela abriu o próprio ventre e retirou de lá o bebê, protegido por uma redoma de luz pura. Um redemoinho de sombras começou a rodopiar com violência ao redor de seus pés. Erguendo a criança acima da cabeça, a bruxa declarou, com a alma banhada em trevas:
— Eu ofereço a minha filha à escuridão que criou as bruxas negras e os dragões.
O coração fundido e pulsante envolveu o bebê com uma aura mágica, e um dragão em forma de fumaça negra surgiu vindo das profundezas da terra e, em um gesto solene, abriu a bocarra e engoliu o bebê.
O céu desabou em trevas absolutas, denso como em dias de tornado. Relâmpagos cortaram os céus em ziguezagues violentos, enquanto rajadas de vento uivavam trazendo o eco de rugidos de dragões carregados pela tempestade. O redemoinho que circulava a bruxa expandiu-se vertiginosamente, engolindo-a junto com a fera em um abismo de escuridão profunda, levada pelo grande dragão em forma de fumaça negra.
A terra tremeu com a fúria de um cataclismo. Do solo estéril, uma montanha íngreme começou a emergir, erguendo-se imponente com seu cume coberto de neve branca. Envolvendo a base da montanha, a silhueta de um dragão de pedra ergueu-se do chão; ele repousava, dormindo, como se estivesse envolvendo toda a montanha como uma sentinela eterna. No mesmo instante, troncos negros brotaram e vegetações com folhas rubras cobriram as encostas como por encanto.
Ao longe, uma cúpula translúcida com as cores de um arco-íris cintilou no horizonte — um fenômeno raro e impossível nas terras demoníacas, algo que Luiz só conhecia das páginas empoeiradas dos livros antigos. Era a Montanha Branca de onde Hadria nascera, concluiu Luiz, atônito...Quando isso aconteceu? Várias perguntas surgiram na mente de Luiz: Hadria tem doze anos, mas isso aconteceu há milhares de anos? Como Hadria nasceu? O que aconteceu?... Ela havia nascido ali, daquele sacrifício terrível e sangrento. O príncipe percebeu que segurava a respiração, com o fôlego preso na garganta.
A escuridão engoliu Luiz novamente, e tudo se apagou.
Thoughts
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PermalinkMenino, essa mãe abrindo o próprio ventre pra entregar a filha à escuridão me deixou com um aperto no peito que não passou logo. E o dragão ainda encostando o focinho na cara dela antes, como quem diz que tudo bem. Isso me lembra as histórias antigas de troca, onde ninguém ganha nada de graça e sempre se paga com gente. Fiquei pensando que a Hadria carrega esse preço e nem sabe direito.
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PermalinkFiquei baralhado com as três bruxas ali paradas a ver e sem mexer um dedo. Contei isto a um colega na obra e ele ficou de boca aberta.
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PermalinkPá, o bebé.
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PermalinkO dragão mostrando o peito e encostando o focinho na cara dela antes de tudo me fez pensar que a parte mais dura ali é os dois estarem de acordo. Fiquei também com o silêncio das outras duas bruxas ao longe. Aposto que essa cena volta quando a Hadria souber de onde veio. Capítulo pesado esse!
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PermalinkSe a Montanha Branca nasceu daquele sacrifício e aquilo foi há milhares de anos, a Hadria de doze anos não pode ser o bebé que o dragão de fumo engoliu. Ando com esta conta atrasada desde os capítulos da floresta. Quantos anos passaram entre aquela noite e ela nascer?
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