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Capítulo 24: A Fuga na Floresta Negra

BELADIA

Conteúdo da publicação

livro (trinta dias para a última lua)

A escuridão da noite tomava conta de todo o horizonte, uma negridão densa que parecia engolir até o contorno das árvores gigantescas. Ao longe, nos céus tingidos de rubro e fumaça, o ar vibrava com o revoar pesado de asas dos dragões cortando o vento em um sibilar abafado. O rastro de uma baforada quente misturou-se ao cheiro de enxofre na penumbra, perto demais, fazendo o ar rarefeito queimar na garganta de Hadria, até que ela ouviu o som de pedras rolando do alto da montanha que abrigava a biblioteca. Ela deu um pequeno passo para trás para dentro da abertura da porta.

Ela se lembrou das histórias de suas aias sobre as noites e sobre um lugar específico dentro do Ninho: uma floresta que abrigava almas condenadas ao sofrimento por reinos das Terras Altas — antigos cultivadores de poder que, eras atrás, haviam deturpado a essência da magia pura. Até as bruxas negras evitavam caminhar por entre aquelas árvores após o crepúsculo, pois, na escuridão, emergiam os prisioneiros, sugadores de toda a vida que encontram. Eram borrões disformes aprisionados dentro da terra, nas raízes das árvores negras como penitência eterna, condenados a emergir apenas à noite como uma fumaça em busca de essência viva.

Um arrepio percorreu a espinha de Hadria. Ela não podia voar ou seguir por cima das árvores, pois os dragões patrulhavam baixo em determinados momentos; mas, indo por dentro da floresta, corria o risco de encontrar os sugadores. Será que era essa a floresta de que as aias contaram em suas histórias?, pensou Hadria. Um rugido ecoou mais perto com uma baforada quente, como se a fera esperasse o momento certo para dar o bote.

Luiz está sozinho e não estava bem, eu o deixei..., pensava Hadria, angustiada, sem dar muita importância ao perigo iminente. Demorei muito tempo aqui. E agora, o que eu faço? Certa do perigo que a espreitava, sabia que não podia voltar para dentro da biblioteca. Já deixei o Luiz tempo demais sozinho, afirmou mentalmente.

Ela colocou a cabeça sorrateiramente pela abertura da porta, olhou para o céu e para a floresta mais uma vez, tentando decidir qual caminho seria menos desastroso. Pedras começaram a cair, como se grandes garras estivessem sendo cravadas à rocha, e mais dois grunhidos surdos surgiram na escuridão, perto demais, pensou Hadria. Por fim, Hadria invocou a magia novamente. Repetiu o ritual que fizera antes, mas desta vez mentalizando estrategicamente a localização da cabana. Uma faísca de luz emergiu, flutuou um pouco acima de sua cabeça e retornou às suas mãos. Ela concluiu o encanto com uma ordem sussurrada:

— Seja rápida. Quero atravessar a floresta com velocidade.

A bola de luz rodopiou e disparou à frente. Hadria saltou o desfiladeiro e saiu correndo atrás da esfera que a guiava em meio à escuridão da floresta, sem olhar para trás para ver o que a espreitava, dando o bote. Mais um minuto ali e Hadria não conseguiria sair para a floresta.

Não demorou para que ruídos e sussurros começassem a segui-la. O som era macabro, como o arranhar de unhas longas em madeira podre. A luz e a forte energia vital de Hadria começaram a atrair dezenas de sugadores que emergiam das entranhas da terra como uma névoa espessa e necrótica. Eram entidades disformes, borrões de escuridão profunda com feições distorcidas e bocas vazias que ansiavam desesperadamente pela essência da vida. O cheiro de mofo e séculos de desespero empesteou o ar. O coração da garota acelerou; um silêncio apoderou-se das árvores, como se até o vento tivesse sido congelado, um frio tomou conta da floresta e uma neblina densa se espalhou rapidamente.

Os sugadores começaram a alcançá-la. Garras longas e incorpóreas roçaram sua pele e, no mesmo instante, o calor de seu corpo foi arrancado. A sensação era de agulhas de gelo perfurando seus poros, drenando sua essência. Suas forças diminuíram vertiginosamente, dando lugar a uma dor dilacerante, um vazio agonizante no peito, como se a própria alma estivesse sendo puxada para fora.

Ainda assim, ela continuava a correr em disparada para não perder a bola de luz de vista. Em resposta à ameaça letal, suas amarras mágicas despertaram violentamente. As linhas brancas arderam na pele e começaram a apertar seu corpo como cordas de aço vivo, esmagando-a como um mecanismo cruel de defesa. A pressão era aterradora; Hadria sentia a caixa torácica estalar, uma dor excruciante, como se os ossos estivessem sendo lentamente triturados de dentro para fora a cada passo que dava.

Só mais alguns passos..., pensava Hadria, ofegante, a visão embaçada pelas lágrimas involuntárias de dor e de medo que crescia com o frio que a tocava. Só mais alguns passos...

— Hadria... Hadria... venha... Hadria... — sussurravam os borrões macabros.

As vozes não soavam apenas no ar, mas ecoavam de forma sombria e invasiva dentro de sua própria mente, tentando fazê-la desistir.

Hadria estava no seu limite absoluto. A dor de seus ossos sendo prensados pelas amarras se fundia ao desespero de ter a vida sugada pelos monstros. A vontade de berrar era imensa, mas ela não podia gritar; um único som atrairia os dragões e as patrulhas. Mordendo o próprio lábio até sentir o gosto metálico de sangue, ela engoliu o grito e reuniu o resto de suas forças, tiradas da pura adrenalina, aumentando a velocidade.

Por um triz, ela conseguiu romper a linha das árvores e avistar a cabana. Abriu a porta de supetão e atirou o próprio corpo para dentro do abrigo, caindo pesadamente no chão antes que tudo escurecesse de vez para ela.

Lá fora, os sugadores recuaram, contorcendo-se em uma fúria silenciosa. Não lhes era permitido deixar os limites das árvores; estavam fadados a vagar por toda a eternidade apenas dentro das sombras frias daquela floresta negra.

 

Thoughts

  • Doralice

    Uai, a menina mordendo o lábio até sangrar pra não gritar, porque um grito só chamava os dragões, isso eu reconheço de gente que aguenta calada pra não piorar o que já tá ruim. Meu palpite é que ela acorda na cabana com o Luiz cuidando dela, e os papéis trocam de novo, sô.

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  • GasparRibeiro

    Os sugadores não podem passar a linha das árvores e a cabana fica logo a seguir a ela. Quem pôs a cabana a essa distância sabia da regra dos sugadores? Foi com isso que fiquei depois de fechar o capítulo.

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  • Ovid

    As amarras que apertam a Hadria justamente quando ela mais precisa correr me fez pensar em quanta proteção acaba virando o que mais machuca a pessoa protegida. Aposto que essas linhas brancas ainda vão contar uma história própria antes da última lua. Obrigado por seguir publicando os capítulos aqui!

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  • HoracioMelo

    Ó homem, o Luiz. Coitado.

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  • BELADIA

    🖤 Acompanhe cada segredo de perto!

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