livro (trinta dias para última lua)
Era noite no deserto das Terras Negras. Hadria e Luiz haviam parado próximo a algumas pedras para acampar e se proteger do vento cortante, agravado pela tempestade de areia que havia se formado.
Faltam vinte e sete dias, pensou Hadria. Precisava encontrar o colar com o pêndulo azul e voltar para salvar Rowan. Já haviam se passado três dias desde que havia fugido da Montanha Branca e ela ainda não tinha encontrado o pergaminho com a localização exata do artefato. Estava ali, presa no deserto por causa de uma tempestade... Hadria deu um longo suspiro.
Do outro lado, Luiz tagarelava sem parar. Falava das tribos demoníacas que poderiam encontrar e das tempestades que duravam semanas.
— Olha, Hadria. Já começou — disse ele, apontando para o próprio braço. A manga da camisa estava enrolada até o cotovelo, revelando algumas manchas negras na pele pálida. — Estou me tornando pedra. E você, já começou também?
Hadria levantou a manga da jaqueta preta para verificar e respondeu:
— Não, ainda não comecei a virar pedra.
Ao ver o antebraço dela, Luiz arregalou os olhos. A pele da menina exibia marcas translúcidas e brancas, como se cordas estivessem firmemente enroladas ao redor de seus braços, amarrando-a.
— O que é isso nos seus braços? — perguntou o príncipe, curioso.
Hadria olhou para os próprios braços com desdém.
— Amarras — respondeu, tentando encerrar o assunto.
Mas Luiz não se deu por vencido. Inclinou-se para olhar mais de perto, a curiosidade estampada no rosto.
— Tem isso desde quando? Dói? Você não pode tirar?
— Desde que nasci. Sim. Não. — Ela o cortou, puxando a manga para baixo rapidamente. — Você deveria estar preocupado com o fato de estar virando pedra. Não está sentindo dor? — devolveu ela, tentando desviar o foco de Luiz para o problema da petrificação.
— Verdade. — Luiz voltou a atenção para o braço manchado, com o olhar entristecido. — Ainda não estou sentindo dor. — Ele colocou a mão no peito de forma dramática. — Mas vou começar a sentir uma dor alucinante daqui a pouco. Quando a petrificação começa, demora sete dias para terminar. Ou seja, eu tenho sete dias de vida! Deveria fazer uma lista de coisas que quero fazer antes de morrer.
Ele começou a andar de um lado para o outro, tentando se lembrar de lugares que gostaria de visitar e de coisas que gostaria de fazer para colocar em sua lista, até que uma informação dos livros que já havia lido lhe veio à mente. Luiz estava radiante, como se tivesse acabado de sair de uma prisão. Completamente alheio ao perigo real que a aventura traria ou às consequências sombrias do que acontecera em seu castelo, ele parecia feliz, fazendo planos e agindo como se estivesse em um passeio turístico qualquer, bem longe dos perigos mortais do reino demoníaco.
— Ah, lembrei! Tem uma fonte dentro das Terras Negras. O Lago Lilás. — Luiz deu um longo suspiro. — As criaturas que vivem lá são mortíferas, matam todos que entram na água... Tudo neste lugar quer nos matar! Nada nestas terras é pacífico. Tudo que existe aqui é para matar... Eu sou uma presa aqui — lamentou, com a voz embargada de soluços, quase fingindo um choro.
Hadria sorriu de canto com o desabafo desesperado e exagerado de Luiz.
— Dizem que as criaturas do Lago Lilás têm a forma de mulheres, as mais belas dos reinos demoníacos — continuou ele, alheio a tudo, quase em um monólogo. — Talvez elas não queiram me matar porque eu sou bonito — completou, abrindo um sorriso. — Elas devem apreciar a beleza.
De repente, um rugido alto e gutural ecoou pela escuridão.
O som, diferente de tudo que Luiz já tinha ouvido, fez o corpo do príncipe dar um sobressalto de susto.
— Hadria... — chamou ele em um sussurro aterrorizado. — Não estamos sozinhos.
Hadria deu um salto e assumiu posição de batalha. Em um piscar de olhos, suas íris foram tomadas por uma escuridão absoluta, e suas mãos e dedos começaram a se transformar rapidamente, revelando garras longas e negras que se estenderam até a altura de seus antebraços; seu coração começou a bater mais lentamente, preparando o corpo para atacar a ameaça. Luiz posicionou-se de imediato atrás dela, deixando suas presas afiadas ficarem à mostra. Todos os seus sentidos estavam em alerta; essa sensação de ser a presa era algo novo de sentir para ele, um misto de adrenalina com medo, enquanto o instinto de proteger Hadria a qualquer custo dominava seu corpo e sua mente.
Costas com costas, um protegendo o ponto cego do outro, a dupla aguardou em tensão máxima, apenas esperando que a fera que os espreitava na escuridão desse o bote.