livro (trinta dias para a última lua)
A escuridão dentro das fendas do desfiladeiro era asfixiante, engolindo qualquer vestígio de luz ou do fogo da batalha que haviam deixado para trás. Hadria e Luiz pararam apenas quando o som das explosões mágicas e dos rugidos dos dragões se tornou um zumbido distante, abafado pelas grossas paredes de rocha viva, fria e úmida daquela garganta subterrânea.
Luiz encostou as costas na pedra escarpada, forçando os sentidos ao limite. Sua respiração estava pesada e ofegante, quase como se o ar não quisesse entrar em seus pulmões. Em um momento de impulso, ele segurou a mão de Hadria, e aquela sensação intensa de tentar protegê-la a qualquer custo tomou conta de sua mente. Sua audição e visão noturna de vampiro varriam os túneis claustrofóbicos e sinuosos em busca de qualquer ameaça imediata, mas, por ora, o local parecia deserto, guardado apenas pelo eco distante de gotas d'água caindo na penumbra.
— Despistar um Bruxo do Sul e um esquadrão de bruxas negras em uma única noite... — murmurou Luiz, limpando o suor e a areia da testa com um sorriso fraco. — Acho que gastamos toda a nossa sorte.
Hadria não sorriu; ela não parecia estar cansada e nem sequer estava ofegante, observou Luiz. Em seguida, ela abaixou o capuz e, mexendo o corpo sem qualquer habilidade, simulou uma dancinha, liberando a adrenalina acumulada. Luiz sorriu da dança tímida e desengonçada da garota; era um momento raro em que ele via, pela primeira vez, Hadria demonstrar ser apenas uma garota que, por alguns segundos, estava feliz. Logo após a comemoração, Hadria encostou-se na parede oposta e, com a respiração — agora simulando o cansaço —, levou a mão direita novamente ao pescoço nu. A ausência do cordão de pedra branca pesava mais do que uma âncora e fazia seu coração disparar.
— Foram os nômades — concluiu ela, com a voz baixa, porém carregada de raiva e clareza. — Quando os demônios da areia me atacaram e eu caí desacordada... eles devem ter roubado. Aquele colar me ocultava dos bruxos do Sul. É por isso que o exército solar sabe que eu estou aqui. Foi por isso que o Bruxo do Sul me encontrou tão rápido.
— E ele não vai parar de procurar — alertou o príncipe. Sua expressão perdeu qualquer traço de humor. Ele queria saber mais, entender o motivo pelo qual os bruxos do sul estavam atrás de Hadria com tanto afinco, mas não ousou perguntar. — Sem essa pedra branca, Hadria, você é um farol brilhando na escuridão para o exército do sul. Nós precisamos recuar. Devemos encontrar um abrigo seguro, sair dessas rotas e, quem sabe, tentar contatar suas aias. Elas poderiam ajudá-la. Continuar caminhando às cegas pelas Terras Negras, exposta desse jeito, é suicídio seu e meu.
A garota ergueu o olhar. Na penumbra absoluta daquele túnel escavado nas profundezas da rocha, seus olhos não demonstravam medo, mas sim uma determinação feroz e inabalável.
— Não há tempo para recuar, Príncipe Luiz. Rowan não tem tempo — disse ela, cerrando os punhos ao se lembrar da contagem regressiva fatal que pairava sobre a vida do amigo. — Se eu voltar para casa de mãos vazias agora, em alguns dias será a última lua dele. O colar azul é a única chance que ele tem de sobreviver, e nós já estamos no meio do caminho. Só precisamos entrar no Ninho, ir até a biblioteca e pegar o pergaminho, procurar um outro portal mais próximo, pegar o colar e entrar novamente no portal e voltar pelo portal do seu castelo — concluiu, fazendo planos mentalmente.
Luiz abriu a boca para argumentar, lembrando-se da própria urgência — da petrificação que subia lentamente pelo seu braço —, mas calou-se ao ver a expressão endurecida da garota. Ela já tinha muitas preocupações.
— Eu perdi a minha proteção, mas não perdi o meu objetivo, eu vou conseguir — continuou Hadria, a voz cortando o silêncio da fenda como uma lâmina recém-afiada. — Eu vou continuar. Eu vou encontrar o colar azul e salvar o Rowan. E se o exército do sul ou os demônios entrarem no meu caminho de novo... eles que se preparem.
O vampiro suspirou pesadamente, reconhecendo a teimosia da garota. Não havia argumento lógico ou perigo no mundo que a fizesse mudar de ideia. Ele assentiu lentamente, descolando-se da parede de pedra áspera e reajustando o aperto no cabo de sua adaga.
— Então é melhor começarmos a andar — disse Luiz, espiando a escuridão profunda do túnel à frente, onde as sombras pareciam dançar com o reflexo fraco da umidade nas paredes. — Antes que os verdadeiros donos destas fendas decidam investigar quem acabou de invadir a casa deles. Você sabe o caminho para o Ninho?
— Sim, eu tenho um mapa mental e um na minha mochila. Já estudei todas essas terras e o Ninho dos Dragões. Viemos para o lugar certo para entrar. Olhe as marcas — respondeu ela, apontando para algumas esferas desenhadas nas formações rochosas como uma seta indicando a direção. Havia algumas pedras antigas que exibiam manchas arredondadas esculpidas em uma língua esquecida; um observador atento saberia que eram marcações cravadas na rocha para guiar o caminho. — É só seguir.
Hadria pegou o mapa de couro que carregava na mochila e, com um estalo de magia, conjurou uma pequena luz que iluminou as paredes estreitas e as curvas sinuosas do desfiladeiro.
— Eu sei onde fica a biblioteca lá dentro. Mas, primeiro, vamos entrar no Ninho.
— De onde vem a sua magia? — perguntou, curioso, Luiz.
Hadria olhou atentamente para ele, estudando o rosto do rapaz com calma calculada; ainda não tinha certeza se podia confiar nele, pois ele poderia vir a ser uma ameaça caso viesse a saber demais.
Hadria deu de ombros e começou a caminhar pelo desfiladeiro sombrio. Luiz assentiu, entendendo que ainda não era hora de ela lhe contar seus segredos. Ele desviou o assunto, começou a falar de amenidades e seguiu Hadria pelas fendas rochosas.