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Capítulo 23: O Atestado de Insanidade

BELADIA
Pensamento

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tresPaginas

Uf, a Marta.

Uf, a Marta.

Conteúdo da publicação

livro (Querida,Sorria!)

Dois dias se passaram após a surra em Júlia, que ainda permanecia internada. O hospital da cidade era referência na região. Um prédio imponente, de arquitetura moderna, com todas as especialidades disponíveis e infraestrutura de ponta.

Luiza, a secretária pessoal de Marta, viera ao bangalô a mando da matriarca para buscar Maraíra. Luiza era uma mulher quase da mesma idade de Maraíra, de traços afilados e expressão impenetrável. Vestia um terninho de alfaiataria chumbo, com os cabelos escuros presos em um coque rígido e óculos de armação fina. As duas mantinham uma amizade oculta há anos. Conversaram brevemente dentro da casa, e os seguranças que acompanhavam a secretária ficaram esperando encostados no SUV blindado, não deixando qualquer espaço para recusa.

Maraíra estava com as mãos doloridas, mas já havia recuperado os movimentos e retirado as faixas, revelando algumas escoriações. Conseguia mover os dedos, e absolutamente nada tirava a profunda satisfação de ter feito Júlia sentir dor. Colocou alguns envelopes na bolsa, seguiu a secretária até o carro e entrou.

Ela já esperava que a mãe viesse ao seu encalço para defender a tão estimada enteada. Ao chegar, os seguranças e a secretária a encaminharam diretamente ao elevador, rumo ao andar da diretoria do hospital.

Maraíra foi conduzida a uma sala ampla, com grandes janelas e muita luminosidade. No centro, havia uma pesada mesa executiva de carvalho onde sua mãe estava sentada. Marta trajava um vestido tubinho off-white de seda, com um corte impecável que exalava poder e distanciamento. Aos sessenta e poucos anos, mantinha a pele esticada por procedimentos estéticos caros e sutis, e os cabelos loiros perfeitamente escovados. O pescoço era adornado por um colar de pérolas legítimas, e seus olhos claros analisavam tudo com a precisão fria de um bisturi.

Andando de um lado para o outro, como um animal enjaulado, estava seu padrasto, Igor Batista. Um homem que sempre fez questão de exalar controle e superioridade, Igor agora parecia prestes a explodir. Vestia um terno italiano azul-marinho cortado sob medida, mas o paletó estava desabotoado e a gravata de seda fora afrouxada com violência, deixando o colarinho da camisa cara completamente amassado. Aos sessenta e poucos anos, ele mantinha a postura imponente e os cabelos grisalhos alinhados, mas sua fisionomia o traía: o rosto largo e geralmente pálido estava tomado por um tom vermelho-púrpura de cólera.

Ele arfava de forma ruidosa e pesada. Uma veia grossa na lateral de sua têmpora latejava visivelmente no ritmo de seu descontrole. Seus olhos escuros — quase sempre frios, cínicos e calculistas — estavam injetados de sangue e vidrados em puro ódio. A mandíbula trincada fazia os músculos do maxilar saltarem sob a pele madura, repuxando os lábios em um esgar animalesco de fúria contida.

Quando viu Maraíra cruzar o batente da porta, a repulsa tomou conta de suas feições. Ele não disse uma única palavra. Caminhou em sua direção com passos largos e pesados, a sola do sapato de couro batendo duro contra o piso brilhante, e desferiu um tapa estalado e brutal no rosto de Maraíra.

— Sua vaca! Quem você pensa que é para bater na minha Júlia?! — esbravejou com fúria.

Maraíra sequer piscou, mantendo os olhos fixos em sua mãe, que observava a cena sem esboçar qualquer reação para defender a filha biológica. Ignorando a dor pulsante na bochecha, Maraíra olhou para Igor, abriu um sorriso gélido e caminhou decidida até a mesa onde a matriarca se encontrava.

— Eu vim falar com a minha mãe. Temos negócios a tratar — disse Maraíra, puxando uma cadeira e sentando-se. Seu rosto estava vermelho e ardia pela bofetada, mas ela ignorou o desconforto por completo.

Marta apenas sorriu levemente. Havia algo de incomum na postura da filha, e isso chamou a sua atenção.

— Seguranças, entrem! — gritou Igor. — Levem essa louca para o isolamento!

 A porta se abriu. Dois homens de terno e dois de jaleco branco entraram agilmente, segurando Maraíra pelos braços. Ela encarava a mãe, que a retribuía com um olhar de puro gelo.

— Você não está em condições de negociar — disse Marta friamente, jogando um laudo em cima da mesa. — Seu atestado de insanidade já está assinado.

Maraíra olhou para o papel sobre a mesa de madeira e sorriu.

— Você está rindo? — indagou Marta, estreitando os olhos perfeitamente maquiados.

— Eu estou tão lúcida que tudo está perfeitamente claro. Eu quero negociar. Não que você mereça, mas a senhora tem muito mais a perder se não me ouvir.

— Levem essa louca daqui! — urrou Igor.

Os homens começaram a arrastar Maraíra, mesmo sem ela esboçar qualquer sinal de resistência. Quando a porta foi aberta, o coração de Maraíra bateu tão forte que ela sentiu o som ecoar nos ouvidos. Sua mente estava a mil: se fosse internada como louca em um sanatório naquele momento, nunca mais conseguiria sair e todo o seu plano desmoronaria.

— Parem — ordenou Marta, com a voz assustadoramente calma. — Muito bem. Vou te ouvir.

— Não! — gritou Igor, desesperado. — Levem essa louca, tranquem-na e joguem a chave fora! Quero vê-la babando e batendo a cabeça na parede! Ela tem que pagar pelo que fez com a minha filha!

— Eu disse que quero ouvir — rebateu Marta, com autoridade cortante, silenciando a sala. — Soltem-na. Sente-se.

Os seguranças recuaram. Maraíra respirou fundo, disfarçando o pânico de quase ter sido trancafiada em um hospício, e voltou a se sentar de frente para a mãe.

— Quero que ele saia — exigiu Maraíra firmemente, sem sequer olhar para Igor.

 — Por favor, querido, vá visitar a nossa menina na recuperação — pediu Marta, usando um tom gentil, mas inquestionável, para despachar o marido.

Igor abriu a boca para protestar, mas cedeu à ordem velada da esposa. Virou as costas e saiu, batendo a pesada porta de madeira com violência.

 

Thoughts

  • tresPaginas

    Uf, a Marta.

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  • tintaDeTerca

    Ela guardou uns envelopes na bolsa antes de entrar no carro e ninguém revistou. Aposto que é isso que faz a Marta mandar soltar, e não a filha na cadeira. A Luiza vai voltar nessa negociação?

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  • Ovid

    Igor dá o tapa e a Maraíra nem pisca, fica olhando pra mãe o tempo todo. Essa parte me fez pensar que ela entrou na sala já sabendo que ia apanhar e que o preço valia. Aposto que os envelopes na bolsa pesam mais que o laudo jogado na mesa. Obrigado por continuar a série aqui, BELADIA!

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  • soleioanoite

    Igor quer a Maraíra babando numa parede e a Marta só manda o marido ir visitar a menina, com aquela voz calma. Pra mim ela não parou os seguranças por amor de mãe, uai, parou porque farejou negócio. Fiquei com medo dela do mesmo jeito que fiquei do Igor, só que ele grita e ela sorri. Vou esperar o capítulo 24 roendo unha.

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