livro (Querida,Sorria!)
Dois dias se passaram após a surra em Júlia, que ainda permanecia internada. O hospital da cidade era referência na região. Um prédio imponente, de arquitetura moderna, com todas as especialidades disponíveis e infraestrutura de ponta.
Luiza, a secretária pessoal de Marta, viera ao bangalô a mando da matriarca para buscar Maraíra. Luiza era uma mulher quase da mesma idade de Maraíra, de traços afilados e expressão impenetrável. Vestia um terninho de alfaiataria chumbo, com os cabelos escuros presos em um coque rígido e óculos de armação fina. As duas mantinham uma amizade oculta há anos. Conversaram brevemente dentro da casa, e os seguranças que acompanhavam a secretária ficaram esperando encostados no SUV blindado, não deixando qualquer espaço para recusa.
Maraíra estava com as mãos doloridas, mas já havia recuperado os movimentos e retirado as faixas, revelando algumas escoriações. Conseguia mover os dedos, e absolutamente nada tirava a profunda satisfação de ter feito Júlia sentir dor. Colocou alguns envelopes na bolsa, seguiu a secretária até o carro e entrou.
Ela já esperava que a mãe viesse ao seu encalço para defender a tão estimada enteada. Ao chegar, os seguranças e a secretária a encaminharam diretamente ao elevador, rumo ao andar da diretoria do hospital.
Maraíra foi conduzida a uma sala ampla, com grandes janelas e muita luminosidade. No centro, havia uma pesada mesa executiva de carvalho onde sua mãe estava sentada. Marta trajava um vestido tubinho off-white de seda, com um corte impecável que exalava poder e distanciamento. Aos sessenta e poucos anos, mantinha a pele esticada por procedimentos estéticos caros e sutis, e os cabelos loiros perfeitamente escovados. O pescoço era adornado por um colar de pérolas legítimas, e seus olhos claros analisavam tudo com a precisão fria de um bisturi.
Andando de um lado para o outro, como um animal enjaulado, estava seu padrasto, Igor Batista. Um homem que sempre fez questão de exalar controle e superioridade, Igor agora parecia prestes a explodir. Vestia um terno italiano azul-marinho cortado sob medida, mas o paletó estava desabotoado e a gravata de seda fora afrouxada com violência, deixando o colarinho da camisa cara completamente amassado. Aos sessenta e poucos anos, ele mantinha a postura imponente e os cabelos grisalhos alinhados, mas sua fisionomia o traía: o rosto largo e geralmente pálido estava tomado por um tom vermelho-púrpura de cólera.
Ele arfava de forma ruidosa e pesada. Uma veia grossa na lateral de sua têmpora latejava visivelmente no ritmo de seu descontrole. Seus olhos escuros — quase sempre frios, cínicos e calculistas — estavam injetados de sangue e vidrados em puro ódio. A mandíbula trincada fazia os músculos do maxilar saltarem sob a pele madura, repuxando os lábios em um esgar animalesco de fúria contida.
Quando viu Maraíra cruzar o batente da porta, a repulsa tomou conta de suas feições. Ele não disse uma única palavra. Caminhou em sua direção com passos largos e pesados, a sola do sapato de couro batendo duro contra o piso brilhante, e desferiu um tapa estalado e brutal no rosto de Maraíra.
— Sua vaca! Quem você pensa que é para bater na minha Júlia?! — esbravejou com fúria.
Maraíra sequer piscou, mantendo os olhos fixos em sua mãe, que observava a cena sem esboçar qualquer reação para defender a filha biológica. Ignorando a dor pulsante na bochecha, Maraíra olhou para Igor, abriu um sorriso gélido e caminhou decidida até a mesa onde a matriarca se encontrava.
— Eu vim falar com a minha mãe. Temos negócios a tratar — disse Maraíra, puxando uma cadeira e sentando-se. Seu rosto estava vermelho e ardia pela bofetada, mas ela ignorou o desconforto por completo.
Marta apenas sorriu levemente. Havia algo de incomum na postura da filha, e isso chamou a sua atenção.
— Seguranças, entrem! — gritou Igor. — Levem essa louca para o isolamento!
A porta se abriu. Dois homens de terno e dois de jaleco branco entraram agilmente, segurando Maraíra pelos braços. Ela encarava a mãe, que a retribuía com um olhar de puro gelo.
— Você não está em condições de negociar — disse Marta friamente, jogando um laudo em cima da mesa. — Seu atestado de insanidade já está assinado.
Maraíra olhou para o papel sobre a mesa de madeira e sorriu.
— Você está rindo? — indagou Marta, estreitando os olhos perfeitamente maquiados.
— Eu estou tão lúcida que tudo está perfeitamente claro. Eu quero negociar. Não que você mereça, mas a senhora tem muito mais a perder se não me ouvir.
— Levem essa louca daqui! — urrou Igor.
Os homens começaram a arrastar Maraíra, mesmo sem ela esboçar qualquer sinal de resistência. Quando a porta foi aberta, o coração de Maraíra bateu tão forte que ela sentiu o som ecoar nos ouvidos. Sua mente estava a mil: se fosse internada como louca em um sanatório naquele momento, nunca mais conseguiria sair e todo o seu plano desmoronaria.
— Parem — ordenou Marta, com a voz assustadoramente calma. — Muito bem. Vou te ouvir.
— Não! — gritou Igor, desesperado. — Levem essa louca, tranquem-na e joguem a chave fora! Quero vê-la babando e batendo a cabeça na parede! Ela tem que pagar pelo que fez com a minha filha!
— Eu disse que quero ouvir — rebateu Marta, com autoridade cortante, silenciando a sala. — Soltem-na. Sente-se.
Os seguranças recuaram. Maraíra respirou fundo, disfarçando o pânico de quase ter sido trancafiada em um hospício, e voltou a se sentar de frente para a mãe.
— Quero que ele saia — exigiu Maraíra firmemente, sem sequer olhar para Igor.
— Por favor, querido, vá visitar a nossa menina na recuperação — pediu Marta, usando um tom gentil, mas inquestionável, para despachar o marido.
Igor abriu a boca para protestar, mas cedeu à ordem velada da esposa. Virou as costas e saiu, batendo a pesada porta de madeira com violência.