Um mês inteiro sentada à espera, e quem chega é a meia-irmã. A do balanço na varanda tem mais paciência do que eu alguma vez tive.
Capítulo 20: A Armadilha do "Ativo Menor"
Pensamento
Um mês inteiro sentada à espera, e quem chega é a meia-irmã. A do balanço na varanda tem mais paciência do que eu alguma vez tive.
Conteúdo da publicação
livro (Querida, Sorria!)
Maraíra não derramou uma única lágrima, nem sentiu qualquer choque ao ler os relatórios que começaram a chegar. Seus inimigos sempre a tiveram como uma mulher louca, deprimida e sem coragem. Apesar de ela ter estudado economia e arquitetura por hobby, sempre lhe impuseram o papel de tola, de uma mera socialite inofensiva. Eles não estavam preocupados com o que ela poderia fazer ou do que seria capaz, pois, para eles, Maraíra era apenas uma coitada se escondendo no interior. O que a preencheu, no entanto, foi o prazer tático e frio de quem tem a lâmina no pescoço do inimigo. Ela não estava mais lidando com emoções; estava lidando com dados concretos, planilhas, contratos e balanços patrimoniais.
Organizou cada extrato bancário, o emaranhado de transações internacionais e a teia de holdings financeiras. Ela mapeou o caminho exato do dinheiro: contas de passagem no Panamá que lavavam os desvios através de notas fiscais de consultorias fictícias, desaguando em empresas de fachada nas Ilhas Cayman. Guardou cada foto e cada laudo em pen drives criptografados e servidores em nuvem, configurando cópias de segurança com gatilhos programados para disparar dossiês completos para a grande imprensa caso algo lhe acontecesse.
Redigiu os próprios termos da separação para o advogado revisar e protocolar na Justiça. Ela sabia perfeitamente que Pedro jamais aceitaria o divórcio de forma pacífica, pois isso significaria perder a sua fonte de riqueza. A ruptura precisaria ser arrancada dele por meio de um processo litigioso implacável ou de uma emboscada perfeita. Para isso, usaria uma isca: ela o ameaçaria e, em seguida, estrategicamente recuaria para colocar o plano em ação. Cego pela própria arrogância, Pedro acreditaria estar ganhando. E seria exatamente nesse momento de falsa vitória que perderia não apenas o que tinha, mas também tudo o que havia roubado dela. Era apenas uma questão de lançar a isca no segundo exato.
No fundo, Maraíra ainda nutria o desejo silencioso de que sua mãe a apoiasse nessa guerra. Mas, caso a lealdade materna falhasse mais uma vez em favor das aparências corporativas ou da atual família, ela já havia traçado a sua contingência. O peso de suas ações no conselho era a arma financeira para exigir a neutralidade da mãe. Se isso não bastasse, Maraíra sabia exatamente como usar as informações recém-descobertas para manter a matriarca ocupada lutando dentro da própria casa, impedindo-a de atrapalhar o andamento do divórcio.
Mais um mês chegou ao fim, e a gaiola psicológica que antes a aprisionava estava inteiramente desmontada dentro de si. O arsenal estava pronto e engatilhado. Ela não era mais uma mulher buscando a morte ou fugindo da vida; era uma estrategista aguardando o momento exato para atacar.
Os dossiês enviados pelo detetive eram um esgoto a céu aberto, revelando que a palavra "confiança" não existia naquela família. Seu padrasto mantinha uma amante que, na verdade, era uma segunda esposa de longa data. Sua mãe estava sendo enganada duplamente, pois a enteada que ela tanto amava não só sabia do caso, como frequentava a casa da outra família. O rastreamento de ativos expôs a fraude de forma incontestável: o padrasto roubava o patrimônio da esposa, drenando os fundos da empresa por meio de falsos pagamentos e ocultando o capital em uma holding offshore no nome da filha, devidamente blindada em um paraíso fiscal inalcançável para a Receita. Essa era a munição pesada que Maraíra usaria contra a mãe quando chegasse a hora.
A teia de traições formava um ecossistema patético de parasitas. Pedro roubava Maraíra sistematicamente e mantinha um caso de anos com Júlia. No entanto, o próprio Pedro era feito de tolo, já que a quebra de sigilo provou que Júlia financiava uma vida amorosa paralela, gastando o dinheiro dele com modelos e cantores. Ninguém era leal a ninguém. A mãe de Maraíra acreditava ter o marido e os negócios sob rédeas curtas, mas era apenas uma idosa alienada, governando um império de ilusões.
Um sorriso letal desenhou-se nos lábios de Maraíra, e um velho ditado lhe veio à mente: cobra engolindo cobra.
Faltava apenas que alguém fosse estúpido o suficiente para tentar destruí-la mais uma vez. Pois, agora, ela estava pronta para lutar e fazer cada um deles sangrar.
Caminhou lentamente até a varanda e sentou-se no balanço, observando as flores que dançavam com a brisa leve.
O som de pneus de um utilitário importado triturando o cascalho rasgou o silêncio. Era Júlia, sua meia-irmã, vindo buscar o próprio fim.
Thoughts
-
PermalinkSegui o dinheiro: Panamá, consultorias que não existem, Caimão, pen drives com gatilho para a imprensa. O que me ficou a moer é que quem monta um esquema destes costuma pôr a mulher como testa de ferro, e a assinatura dela ainda deve andar nessas holdings. Ela limpou o nome dos papéis antes de os dar ao advogado?
-
PermalinkToda a gente vai olhar para a Júlia no cascalho, e o alvo verdadeiro continua a ser a mãe: é para ela que a Maraíra guarda o pior dossiê, e é dela que ainda quer apoio. As duas coisas não encaixam, e é aí que fico.
-
PermalinkVisse, a Júlia descendo do carro sem saber pra que veio foi a parte mais cruel dessa história até agora! Meu palpite: ela sai dali sem perceber que perdeu, e quem vai sentir o golpe de verdade é o Pedro, no capítulo 21.
-
PermalinkEla lê os relatórios sem uma lágrima e o que me chegou foi alívio, o de quem deixa de fingir que ainda espera alguma coisa da mãe. Só que ela ainda espera, e se calhar é por aí que a apanham.
-
PermalinkUm mês inteiro sentada à espera, e quem chega é a meia-irmã. A do balanço na varanda tem mais paciência do que eu alguma vez tive.
-
PermalinkA ideia dos dossiês disparando por conta própria pra imprensa se algo acontecer com ela me fez pensar que a Maraíra confia mais nos jornais do que na Justiça, e nesse mundo de holdings faz todo o sentido. Aposto que a Júlia chegando no cascalho é a primeira a cair nessa rede. Capítulo 21 vai ser o do bote!
-
PermalinkIsca lançada. 🐍
Publicações relacionadas
-
Capítulo 22: Hospital
livro ( Querida, Sorria!)
-
Capítulo 19: Meu Amor
livro ( Querida, Sorria!)
-
Capítulo 18: Fábio
livro ( Querida, Sorria!)
-
CAPÍTULO 03: Despertando
livro (Querida, Sorria!)
-
CAPÍTULO 08: A Espera no Carro
livro (Querida, Sorria!)
-
CAPÍTULO 04: O Caldo e as Lembranças
livro (Querida, Sorria!)
-
CAPÍTULO 02: Noites tranquilas
livro ( Querida, Sorria!)
-
Capítulo 13 : O Retorno
livro (Querida, Sorria!)
livro (Querida, Sorria!)